Nesta página poderá encontrar na íntegra todos os artigos publicados no Jornal "A Voz de Leça" que mereceram destaque de 1ª Página.

A Equipa Redactorial

sábado, 31 de Outubro de 2009

Novo Conselho Económico Paroquial

Está constituído, desde 17 de Setembro de 2009, o novo Conselho Económico Paroquial. Vulgarmente conhecido por Comissão Fabriqueira, com a adopção do novo Código de Direito Canónico, a referida comissão passa a designar-se: Conselho Económico Paroquial. Já em funções desde 16 de Junho, só no mês passado é que foram efectivamente investidos, com a aprovação de sua Excelência Reverendíssima, D. Manuel Clemente, Bispo do Porto. O novo Conselho Económico é constituído por 7 elementos e é presidido pelo Pároco, Rev. Padre Fernando Cardoso Lemos, sendo dividido em 3 pelouros distribuídos da seguinte forma: Área Financeira: Tesoureiro - José Eduardo Sousa e Vogal - Luís António Camelo; Área Administrativa: Secretário – Manuel Couto; Área Patrimonial: Património e Conservação – José Vieira e Acílio Azevedo e Gestão das Capelas – Bento Mário. Com a constituição e entrada em funções do novo Conselho, inicia-se um ciclo na Paróquia de Leça da Palmeira, nomeadamente ao nível da gestão administrativa, estando neste momento a decorrer a formação e respectiva informatização do Cartório Paroquial que muito em breve abrirá ao público em horário a divulgar oportunamente. O Conselho Económico tem a sua sala na antiga residência do Sacristão da Paróquia, onde irá funcionar também o novo Cartório. Para concluir, o mandato deste novo Conselho terminará em Dezembro de 2010, quando se iniciará um novo triénio, e onde se poderá avaliar definitivamente a utilidade deste novo órgão Paroquial.


José Eduardo Sousa in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 7 - Outubro de 2009

“ILUSTRE LECEIRO” - JORGE BENTO – O GUARDIÃO DA MEMÓRIA LECEIRA

Cinco anos passaram sobre a morte deste nosso amigo, por isso, e demonstrando que não o esquecemos dedicamos-lhe a oportunidade que nos deram de falar sobre um ilustre leceiro.
JORGE ARMANDO, filho de Joaquim dos Santos Bento, negociante, e de Clara Oliveira dos Santos Bento, casados catolicamente, nesta freguesia e nela moradores na rua de Moinho de Vento; (antiga Rua de 5 de Outubro) nasceu, nesta freguesia de Leça da Palmeira, a 11 de Setembro de 1915, e foi solenemente baptizado na Igreja Paroquial a 24 de Outubro de 1915, pelo abade José Ferreira dos Santos Mondego.
Os pais completaram-lhe o nome: Jorge Armando Oliveira dos Santos Bento.
Fez a 1.ª e 2.ª classe no “Colégio Modelar”, de D. Maria da Cruz Pires da Rocha, a D. Mariquinhas, à Rua José Falcão n.º 444, actualmente Rua Direita n.º 342, por onde muitas gerações passaram incluindo os meus pais.
Passou depois para a “Escola Pinto de Araújo”, ao Arnado, em que repetindo a 2.ª classe, completou ao fim de 3 anos, sob a direcção do insigne professor Álvaro António Lucas, a 4.ª classe (famosa 4,ª classe!), com 18 valores. Tinha então 10 anos.
Seguidamente, seus pais quiseram que apurasse os seus estudos em português e francês, no colégio de D. Cacilda Moreira Alves onde aprendeu durante 3 anos incompletos.
Aos treze anos empregaram-no, no Porto, onde trabalhou no escritório, da Agência de Navegação e Comércio, até 1973.
Durante uns períodos, poucos, deu aulas de desenho, uma vez por semana, no “Colégio de Santo António”, da D. Cacildinha, à Rua Direita.
Com apenas 16 primaveras, despertou para a sociedade em que estava inserido e fundou, com outros rapazes, em 1931, um grupo teatral a que deram o nome de “Núcleo Artístico José Falcão”, por ter sido criado na rua em que moravam os fundadores. Datam desse tempo os seus primeiros cenários.
Como determinadas situações não lhe agradaram, mudou de rumo, e a partir de 1933 fundou e dirigiu um conjunto coral que veio a denominar-se “Capela de São Miguel”. Durou 33 anos e correu meio Portugal, abrilhantando, com boa polifonia, grandes e pequenas festividades religiosas, dela falando vários periódicos.
Jorge Bento era olhado pelos seus cantores como um pai ou irmão mais velho, pois não sendo fácil concitar em seu favor a simpatia, a confiança e a aquiescência de 25 a 30 homens e rapazes, recolhia a sua confiança e respeito, tanto mais que os cantores não recebiam qualquer gratificação pecuniária.
Em 1933, o avô paterno que ajudara a reorganizar a Confraria dos Passos do Senhor, esteve retido em casa com prolongada e grave enfermidade, manifestando aos netos o desejo de ver desfilar, junto da sua porta, a sua querida Procissão dos Passos que naquele ano não sairia por dificuldades financeiras.
Jorge Bento e António Jorge Bento, eram dois rapazes que tinham o pai para o Brasil, em Manaús e, no intervalo dos estudos, gostavam de auxiliar a mãe nos trabalhos de casa. Os dois irmãos ajudavam à missa e a outras cerimónias, na Igreja Paroquial; e, como tinham excelente memória auditiva, chegados a casa e entregues ao trabalho, repetiam os cânticos ouvidos no templo, encarregando-se cada qual da sua parte quando o trecho era a duas vozes.
A mãe rejubilava com tamanhas qualidades dos filhos!
Foi então que conhecedores do desejo do avô, Jorge Bento e o irmão António, foram pedir a um tio, juiz da dita confraria, naquele ano, para que fizesse sair a procissão, pois eles com os primos e alguns amigos, cantariam o “Miserere” e os cânticos próprios do momento, evitando assim essa despesa.
Resolvidas algumas outras dificuldades naturais, assim se fez. E, no sábado, 1 de Abril de 1933, aquele punhado de rapazes cantava e encantava na Igreja Paroquial, nos exercícios preparatórios para a procissão do dia seguinte.
Justifica-se desta forma a alegria e satisfação com que Jorge Bento dizia que o seu grupo coral nasceu das Chagas de Jesus e das Lágrimas de Maria. Porém, este agrupamento que fora inicialmente de carácter ocasional, pois satisfeito o desejo do avô, deveria normalmente dispersar.
Mas não! Nessa altura aparece o sacerdote P.de Manuel Francisco Grilo que insiste com Jorge Bento para que o grupo continue e, com os seus primos reorganize a “Confraria de S. Miguel” padroeiro da freguesia e que se realize a sua festa que tinha desaparecido havia cerca de um século.
Jorge Bento aceita impondo uma só condição: a de se mandar fazer uma nova imagem de S. Miguel, a que actualmente preside ao respectivo altar e que é da autoria de Guilherme Ferreira Tedim.
Em 1935, colabora com o “Rancho Típico da Amorosa”, e com a supervisão de Armando Leça, conseguiu impor-lhe um certo tradicionalismo, de que se estava afastando, e apresentá-lo em Lisboa, no “1.º Cortejo Folclórico Português”, de 1937. São dessa época os primeiros elementos colhidos entre o povo e que viriam a constituir a parte principal do “Cancioneiro de Leça” – 1985.
Temos aqui que destacar entre as muitas composições musicais o HINO DO LEÇA F.C., o hino do nosso Leça!
Em Maio de 1940, começou a iluminar o “Livro de Honra da Sociedade Humanitária de Matosinhos – Leça, por insistente pedido do prof. Manuel da Silva Araújo, finalizando-o e iniciando um outro.
Em Setembro de 1941 casou com D. Palmira do Sacramento Varzim e Silva, e tiveram quatro filhos: a Cecília, o Miguel, o Manuel e o António, vivendo numa casa na Rua Direita que, como dizia, era a única da rua que tinha uma porta e uma janela, sempre com um aspecto bem conservado.
Também colaborou na organização dos “Cortejos de Oferendas” em favor do Salão Paroquial, em 1945, 1953 e 1960, na zona a que pertencia.Jorge Bento foi uma espécie de assessor do pároco, de uma dedicação enorme à paróquia, onde foi um exímio colaborador nas obras da igreja, nomeadamente das casas dos pobres de Gonçalves e de Ródão, do Salão Paroquial e nas iniciativas pastorais.

Engº Rocha dos Santos in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 7 - Outubro de 2009

G. P. T. L. – 31º ANIVERSÁRIO e XXIII LEÇA 2009 MARCADOS PELA SAUDADE

O 31º aniversário do Grupo Paroquial de Teatro, celebrado como habitualmente no dia 5 de Outubro, foi desta vez marcado pela homenagem póstuma à Mª Emília Soares, actriz e Secretária da Direcção do GPTL, recentemente falecida. Foi lembrada ao longo daquele dia, primeiro na romagem ao seu túmulo, depois através do descerramento de uma lápide na Galeria Padre Lemos, no Salão Paroquial, a “casa” do GPTL e na missa das 19horas, que foi também pela sua alma. Foi um dia um pouco triste para o Grupo, mas diz quem conheceu bem a Milita, que tiveram que celebrar, pois ela não quereria que o dia de aniversário fosse passado de outra forma.
E decorre já desde 3 de Outubro o XXIII Encontro de Teatro Leça 2009, que começou com a apresentação da peça “O Auto da Alma” pela CONTACTO - Companhia de Teatro Água Corrente, de Ovar. Seguiu-se a “6ª Escola de Teatro” do GPTL, no dia 10 de Outubro, onde os actores de todas as idades puderam mostrar tudo o que aprenderam desde Maio, em “Fim do Percurso”; “Era Uma Vez Um Gato”, pelo TEAGUS – Teatro Amador de Gulpilhares (Gaia), no dia 17; “O Albergue”, no dia 24, pela Associação Recreativa Os Plebeus Avintenses (Gaia) e, no próximo dia 31 de Outubro, a Companhia Teatral de Ramalde da Associação 26 de Janeiro (Porto) apresenta “A Gayola”. Dos quatro espectáculos de Novembro, dois serão da responsabilidade do Grupo anfitrião, que apresentará, no dia 7, “Leandro, Rei da Helíria” e no dia 28, no encerramento do Leça 2009, “No Crepúsculo da Vida” da autoria de António Paiva, que também encenou. Nos dias 14 e 21 de Novembro serão apresentadas as peças “Morgado de Fafe em Lisboa”, pela Nova Comédia Bracarense e “A Rua Direita”, pela Sociedade Musical 1º de Agosto (Coimbrões). Também o Leça 2009 homenageia a memória da Mª Emília que, tal como diz António Paiva na apresentação desta festa do Teatro, “continua bem viva, em espírito, em todas as nossas actividades”, em especial no espectáculo de encerramento, no dia 28 de Novembro, em cuja peça a malograda actriz iria participar. Citando o guião do Leça 2009, “Ela, (…), lá onde estiver será o nosso principal espectador”.
Está de parabéns o Grupo Paroquial de Teatro, que continua a mostrar o mesmo empenho e entusiasmo do primeiro dia e já lá vão cerca de 61peças representadas ao longo destes 31 anos de vida do Grupo.

Parabéns!

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 7 - Outubro de 2009

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

XII FESTARTE

Decorreu de 24 de Julho a 3 de Agosto o XII FESTARTE (Festival Internacional de Artes e Tradição Populares de Matosinhos). Tal como vem sendo hábito em anos anteriores, o FESTARTE teve o seu inicio com o hastear das bandeiras e audição dos hinos dos Países no adro da Igreja Matriz de Leça da Palmeira. Este ano, ao contrário de anos anteriores, o hastear das bandeiras realizou-se na manhã do dia 25 de Julho e contou com a participação de todos os Grupos estrangeiros presentes e das mais altas individualidades da Autarquia Matosinhense. No início da cerimónia tomou a palavra o Presidente do FESTARTE, Raul Neves, tendo dirigido uma saudação muito especial de boas vindas a todos os Grupos presentes e salientando a importância cultural do FESTARTE no intercâmbio de culturas. Usou também da palavra o representante da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira e, por fim, o Sr. Presidente da Câmara Municipal, Dr. Guilherme Pinto, que garantiu a disponibilidade total da Autarquia para com o FESTARTE. Domingo foi o dia grande do FESTARTE com a habitual missa solene na Igreja Matriz, participada por todos os Grupos Paroquiais e presidida pelo Rev. Padre Fernando Cardoso de Lemos. À tarde teve lugar o desfile etnográfico pela Avenida Dr. Fernando Aroso, seguindo-se a recepção oficial na Junta de Freguesia e o XXII Festival Internacional de Folclore de Leça da Palmeira, que, para a além do Grupos Estrangeiros, contou ainda com a presença do Rancho Típico da Amorosa, Rancho Folclórico do Mundão- Viseu, Rancho Folclórico “Os Camponeses de Santana do Mato”, Rancho Folclórico da Corredoura – Guimarães, Rancho Folclórico da Vila de Pereira – Montemor-o-Velho, Rancho Típico de São Mamede Infesta e o Grupo Folclórico das Lavradeiras da Meadela – Viana do Castelo. À noite, teve lugar o já tradicional Baile Folk de Abertura, na Escola EB 2,3 de Leça da Palmeira. Na segunda feira, o FESTARTE esteve em Matosinhos onde houve lugar à animação de rua, seguindo-se a recepção oficial na Câmara Municipal. Na tarde desse dia os Grupos tiverem oportunidade de actuar em instituições de carácter social, nomeadamente a ALADI (Associação Lavrense de Apoio ao Diminuído Mental) e Lar da Bataria. Terça-feira foi dia de folga, tendo o FESTARTE continuado no dia seguinte, com a Gala da 3ª Idade no Auditório Mário Rodrigues Pereira em Lavra, tendo a noite sido preenchida com os recitais de música tradicional nas Igrejas de Leça da Palmeira, Santa Cruz do Bispo e São Mamede
Infesta. Na quinta-feira teve inicio o Festival de Gastronomia, em que as famílias que no ano passado receberam os Grupos em sua casa
puderam, desta vez, saborear as iguarias que os Grupos deste ano nos trouxeram, num jantar que teve lugar na Feira de Artesanato. O FESTARTE não poderia terminar sem o habitual encontro de Etnografia e Folclore coordenado pelo Dr. João Pimenta, do Gabinete de Estudos de Etnografia e Folclore do Rancho Típico da Amorosa, que este ano teve lugar na sede do RTA. A finalizar houve ainda lugar para mais dois festivais de folclore: no sábado à noite, em São Mamede, o XX Festival Internacional de Folclore e, no domingo, em Matosinhos, o Festival Internacional de Folclore e o encerramento do
FESTARTE.


OS Grupos Participantes
Ballet Folklorico de Occidente
Guadalaraja – México
Este Grupo chegou-nos do estado de Jalisco, cidade de Guadalaraja, sendo uma das maiores deste País da América Latina, com uma população a rondar um milhão e setecentos mil habitantes, sendo que a sua área metropolitana ronda os quatro milhões de habitantes, é a segunda maior do País em número de habitantes. Trouxeram ao FESTARTE a indústria do seu artesanato, a sua gastronomia, recomendada para quem goste de sabores picantes.







Croatian Folklore Ensemble “Ostrc”
Samobor – Croácia
Fundado em 14 de Janeiro de 1979, na pequena cidade de Samobor, que dista cerca de 25 Km da capital Zagreb. Este Grupo recriou artisticamente os diferentes temas da tradição popular, exprimiu a sensibilidade e as emoções contidas neste legado secular, que constitui a sua identidade com povo. Pela segunda vez no FESTARTE trouxeram também a gastronomia tradicional da Croácia, o Artesanato e os virtuosismo das suas interpretações musicais.







Apple Chill Cloggers
Carrboro – Estados Unidos da América

Este grupo tem como data da sua formação o ano de 1975 sendo seu patrono a Universidade da Carolina do Norte, estado de onde são originados. O grupo está federado no Orange County Arts, organização que tem por finalidade promover o desenvolvimento artístico desta pequena cidade da Carolina do Norte. O Apple Chill Cloggers levam as suas danças aos vários locais da região com particular destaque para as escolas básicas e superiores com a finalidade de expandir a arte que executam. Pela primeira vez presente no FESTARTE os Estados Unidos a América trouxeram da cidade de Carrboro o seu artesanato e uma gastronomia que nos surpreendeu.




Folk Ensemble Kladets
Moscovo – Rússia
Criado em 1985 por alunos dum colégio da região de Moscovo, o grupo ofereceu um programa variado, com as suas danças enérgicas e acrobáticas, misturados com alguns gestos de ternura perfeitamente sincronizados em danças de amos e muita alegria em danças de arte circense. O “Kladez” é participante da época de programas especiais da Sociedade Filarmónica de Moscovo Estado, Moscovo Tchaikovsky Concert Hall, etc. O Grupo participa regularmente em programas televisivos e é vencedor de vários prémios regionais. O seu artesanato esteve bem representado com particular destaque para as “matrioscas” bem como os paladares sempre misteriosos da cozinha tradicional Russa.



Songkhla Rajabhat University
Folk Dance Troupe – Tailândia
Este grupo chegou-nos do Sudoeste da Ásia e foi fundado em 1955 com a preocupação de manter o Thai Folkdance da região sul da Tailândia. O Grupo tem realizado algumas experiências nacionais e internacionais e possui instrumentos como o The Ranad, Pi-Nai, Pi-java, Pi-Mon, Klui Piang e Pomg Lang com sonoridade muito particulares. Trouxeram a sua gastronomia famosa pela mistura de sabores entre o doce, o apimentado, o amargo e o salgado. Particular destaque teve o seu artesanato.


A Feira de Artesanato
Se em anos anteriores sempre fiz tema do “meu lamento”, as condições da Feira de Artesanato com os seus stands quase artesanais produzidos à custa do trabalho árduo dos responsáveis pela Feira, este ano terei que dizer exactamente o contrário. Não sendo o supra sumo dos stands, foram sem dúvida a melhor solução encontrada. Também não se pede mais do que isto. Stands com luz, fechados e seguros foram o ponto mais positivo da edição deste ano do FESTARTE. Sabemos bem o esforço que foi feito para que tal fosse possível, mas de facto, valeu a pena. Saliente-se ainda a presença de um guarda nocturno durante os dias em que decorreu a Feira que para além da novidade de ter novos stands teve ainda a duração de mais um dia o que diga-se em abono da verdade se justificou plenamente, pois não fazia sentindo terminar a Feira de Artesanato a uma sexta-feira. Portanto, este ano a Feira de Artesanato esteve patente durante 8 dias, sempre com muito público, e, para além dos Grupos estrangeiros presentes, contou com artesãos nacionais com presenças em anteriores FESTARTE, assim como a “Tasquinha lá de Cima” que tal como em anos anteriores proporcionou deliciosos petiscos aos visitantes. Façamos votos de que para a ano se possa proporcionar as mesmas condições a quem expõe e a quem nos visita.

O Meu Lamento
Tal como diz o povo: “Não há bela sem senão”, o meu lamento deste ano vai para o reduzido número de Grupos estrangeiros presentes. Mas aqui há que ter em conta dois pontos fundamentais: o primeiro tem a ver com o facto de que este reduzido número de participantes não é da responsabilidade da organização do FESTARTE que tentou por todos os meios que pelo menos mais dois marcassem presença. Inclusive chegou a ser hasteada a bandeira da Moldávia. No entanto, problemas burocráticos nos países de origem e a tão afamada Gripe A impediram alguns grupos de estarem presentes na edição deste ano do FESTARTE. O segundo facto, este positivo, e para que não fique no ar de que aqueles que faltaram é que eram os bons, saliente-se a enorme qualidade dos Grupos presentes em especial o Grupo da Croácia, já pela segunda vez no FESTARTE e o estreante Estados Unidos que proporcionaram momentos que com certeza ficaram na memória de todos que com eles conviveram.

Nota Final
Não foi o melhor FESTARTE de sempre. Disso não restam dúvidas, mas foi o FESTARTE possível que com muito esforço e dedicação acaba sempre por ser o maior acontecimento cultural do Verão Leceiro. Esperemos que para o ano seja melhor, mesmo porque já nos habituamos a um rigor e qualidade aos quais o FESTARTE já não pode fugir.

José Eduardo Sousa in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 6 - Agosto/Setembro de 2009

ILUSTRES LECEIROS - ALBANO SOARES CHAVES

ALBANO SOARES CHAVES, professor primário em Leça da Palmeira, foi o ilustre leceiro apresentado no respectivo ciclo de conferências promovida pela Junta de Freguesia e cuja apresentação esteve a cargo de seu filho Dr. Albano Chaves.
O professor Albano Chaves nasceu a 9 de Dezembro de 1901, em Tabuaço. Após a instrução primária feita na escola local, diplomou-se na Escola Normal de Vila Real em 1919, tendo sido colocado neste mesmo ano em Paradela – Tabuaço, onde permaneceu até 1930.
Neste ano após concurso para nova colocação, ficou em primeiro lugar em três localidades, tendo optado por Leça da Palmeira, para bem dos Leceiros!
Aqui, em Leça da Palmeira, foi colocado na Escola Primária Masculina, que funcionava junto à antiga Ponte de Pedra, no inicio da Rua de Óscar da Silva. Passou pela escola primária da Amorosa e fixou-se na Escola da Praia, de onde se aposentou em 1963, com quarenta e dois anos de bons serviços.
Desempenhou o cargo de Delegado Escolar de Matosinhos durante dez anos, tendo sido exonerado a seu pedido. Sabemos agora que por motivos de saúde.
Foi louvado por várias entidades como o Ministério da Educação, a Direcção Geral do Ensino Primário, a Câmara Municipal de Matosinhos e a Junta de Freguesia de Matosinhos.
Foi agraciado com a “Ordem da Instrução Pública”, no grau de cavaleiro pelo Presidente da República, Marechal Craveiro Lopes.
Na sua acção como professor foi muito mais além do que a missão lhe exigia; isto é, de ensinar a ler, a escrever e a contar, despertando nos seus alunos, homens de amanhã, os sentimentos de generosidade, honestidade, lealdade e de trabalhadores, para que com satisfação pudessem enfrentar a vida.
Inovou o conceito de escola implementando as cantinas e as caixas escolares, com reflexo nos inúmeros benefícios proporcionados aos alunos mais humildes.
Foi nomeado “Cidadão de Mérito” de Leça da Palmeira e “Cidadão de Honra” de Matosinhos e homenageado pelo “Lions Clube de Leça da Palmeira” por tantos e tão elevados benfeitores concedidos a Leça da Palmeira no foro Cultural e Social.
Nos seus tempos livres dedicou-se oficialmente à elaboração de preciosos livros didácticos para as diferentes disciplinas e anos escolares, pelos quais várias gerações aprenderam e que alguns guardam com boas recordações.
Assim se reconhece o valor de um homem, que não sendo natural desta terra aqui se radicou e desinteressadamente elevou da melhor forma que encontrou, a juventude em formação dando origem a homens que garantiram um futuro melhor, deixando-nos ainda aqui a sua própria família, simpática e de uma educação extrema como exemplo para a sociedade em que vivemos.

Eng.º Rocha dos Santos in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 6 - Agosto/Setembro de 2009

GALARDÕES DE MÉRITO DE LEÇA DA PALMEIRA - A "MUSA LECEIRA"

A Junta de Freguesia de Leça da Palmeira levou a efeito uma cerimónia de entrega dos Galardões de Mérito da Freguesia, onde foram distinguidos com:
- Galardão de Mérito Desportivo, a Fernando José de Oliveira Pereira que habita em Leça da Palmeira há vários anos, é atleta paraolímpico de Boccia e praticante de Vela adaptada. Um desportista que nunca desiste, sendo um exemplo de coragem, perseverança e espírito de conquista, ao nível humano e desportivo.
- Galardão de Mérito Cultural, ao Rancho Típico da Amorosa por se tratar de uma colectividade com pergaminhos que honra e eleva o nome de Leça da Palmeira no País e por esse Mundo Fora.
Não esquecermos os nossos primos Henriqueta e Hermano que tanto deram a esta colectividade.
- Galardão de Mérito Cívico, ao Padre Henrique Marcelino, um nosso amigo de há longa data, pois com ele fizemos um dos primeiros cursos da Juventude Rebelde, e que com a sua simplicidade e modéstia é para todos um modelo naquilo que à acção cívica diz respeito. O seu espírito altruísta e empreendedor inspira-nos e faz-nos seus seguidores.
- Medalha de Honra, a título póstumo, a Jorge Bento, o investigador e historiador de Leça da Palmeira, O nosso, dos leceiros, saudoso amigo, de múltiplos talentos mas acima de tudo o cronista das memórias leceiras, que legou às gerações presentes e futuras um património documental absolutamente extraordinário.
Enquadrando todo este espírito artístico Miguel Rocha dos Santos apresentou-nos um conto inédito de sua autoria e que por si só justifica a sua alma artística mas também a de todos aqueles que enaltecem esta nossa terra, e que o levou a dizer:
“Há muitos, muitos anos, quando tudo era simples e a magia permeava o mundo, um maravilhoso nascimento aconteceu.
Numa das raras ocasiões em que todos os astros se alinham no firmamento, o Sol e a Lua uniram-se, e no abraço do eclipse criaram, com o seu Amor, uma linda menina.
Se alguém tentasse descrevê-la, certamente seria incapaz, pois seria preciso ser-se deveras especial para conseguir compreender e por em palavras como é uma linda menina nascida do Amor do Sol e da Lua.
Basta dizer que o comprimento e cor do seu cabelo se alteravam à sua vontade, os olhos e timbre de voz consoante a sua disposição, e o tom da pele dependia de quem a via, e nunca, nunca envelhecia.
Na verdade, durante muito tempo ninguém a viu, excepto o Pai – Sol e a Mãe – Lua, que para tomarem bem conta do seu tesouro, a puseram a morar num castelo de nuvens, alto nos Céus, forte para a proteger, fofo para não se magoar. Que fascínio de castelo aquele! Enorme, todo branco, repleto de móveis de nuvem: cadeiras, mesas, armários, roupeiros, camas, quadros, tapetes, o que conseguirem imaginar. E as cortinas eram tecidas de gotículas de chuva minúsculas que, quando o Pai – Sol espreitava por entre elas a ver como estava a filha, projectava com a sua luz as cores do arco-íris para o interior, tornando o lar ainda mais surreal e sonhador. Aliás, uma das brincadeiras favoritas da menina era esconder-se pelos numerosos recantos da casa, só para o Pai demorar mais a encontra-la, e pintar o castelo multi – color.
Foi assim crescendo nela o gosto pela pintura, e oh! como ela pintava… quadros atrás de quadros, do dia, da noite, do arco-íris, do Pai – Sol e da Mãe – Lua (muitas vezes separados, pouquinhas juntos), das estrelas, dos planetas, das aves que voavam mais alto e cantavam para ela… Só que, pouco a pouco, a menina foi-se cansando de pintar os mesmos temas vezes sem conta. Ansiava por conhecer o mundo lá em baixo, do qual apenas tinha vislumbres, e as histórias que lhe contavam as amigas aves.
Pediu então licença ao Pai e à Mãe que a deixassem ir à Terra, para explorar novos assuntos a pintar, mas eles, receosos, logo lhe negaram o desejo: - “ Sabe-se lá o que poderia acontecer… ” –
A linda menina entristeceu, mas daquela ideia não mais se esqueceu. Movida pela sua curiosidade temerária, teimou e matutou em como empreender a sua jornada, e por fim decidiu. Uma noite, enquanto a Mãe – Lua se ocupava a mudar de fase para Lua Nova, a menina pegou em quantos pincéis e tintas pôde, encheu como uma trouxa a fronha da almofada e fugiu pela janela, escalando a muralha de nuvem. Uma vez descida, pediu a um cisne que passava que a levasse às cavalitas, e ele logo aceitou.
Voaram grande distância, pois a Terra ainda era longe, e mesmo quando cá chegaram, longamente vaguearam, incontáveis vistas encontraram, centenas de culturas conheceram, e muitas pessoas tocaram, até que um dia chegaram a um lugar que só podia ser o seu destino. Um local de tal modo aprazível que a menina não pôde deixar de se apaixonar.
O cisne, depois de certificar-se que a menina ficava segura, quis partir, e a menina deixou, pois não se pode pedir a um cisne que abdique da felicidade de voar. Em sua homenagem, ela pintou mesmo no chão daquela terra a constelação do Cisne, para nunca o esquecer, e para ele saber onde procurar quando a quisesse visitar.
Por longos momentos, a filha do Sol e da Lua maravilhou-se com cada cristal de areia que ali havia, com a calma do rio, que silenciosa chocava com a fúria incontida do mar. Correu praia e penedia atrás das gaivotas e chapinou nas poças como as crianças gostam de fazer.
Na foz do rio brincou com os golfinhos. Mais acima, outra surpresa! Um tapete de relvas, uns fetos, uns carvalhos, uns eucaliptos… Nunca tinha visto nenhuns tão belos. Aqueles tons de verde inimitáveis, o toque áspero da casca, o alcance dos ramos como que querendo abraça-la, a fresca essência que inspira a vida… Aquilo agradou-lhe tanto que resolveu, misturando as suas tintas, usar o próprio ar como tela e pintar ali mesmo mais árvores, criar um pequeno bosque, povoado de animais. Por aí continuou, a pintar novas árvores noutros locais, e rochas e penedos na praia, a cantar e a dançar e a brincar.
Certo dia, começou a sentir-se estranha, algo que desconhecia, saudade. Sentia-se só, e quanto a isso teve de agir. Lembrou-se então de construir um farol na foz do rio, de chama acesa para chamar companhia. Ora, como ela era pequenina, e as pedras muito pesadas, demorou imenso até ter o farol pronto, e mesmo então, este era demasiado diminuto e pouco visível, para ser capaz de atrair muitas pessoas.

Por pouco se deixava vencer, mas acendeu-o à mesma, porque a esperança nunca morre. Esperou e esperou, e por fim lá surgiu alguém. Era um senhor velhinho, que ao chegar ao pé da menina, logo disparou: - “ Quem és tu, linda menina? Que fazes aqui sozinha? Foste tu que acendeste o farol? Para quê? “ –
- “ Calma, “ - disse ela – “ Uma pergunta de cada vez! Eu sou filha do Sol e da Lua, estou aqui para pintar o mundo, e fui eu que construi e acendi o farol, para chamar gente que me ajudasse. Afinal, não posso fazer tudo sozinha! E tu, quem és? “
- “ Bem, eu sou o Arquitecto. Isso e pedreiro. Dá jeito, faço os projectos e trabalho a alvenaria, e digo-te já, sem ofensa, que para vir mais gente, temos de construir um farol maior. “ –
- “Temos? Quer dizer que me ajudas? “ –
- “ Claro que sim! Olhando em meu redor, penso que compreendo a tua visão, e pretendo participar. “ –
Desta conversa nasceu uma grande amizade, da qual se colheram os melhores frutos.
Escolheram um local de rochas fortes, bem visível tanto de terra como de mar, e a menina lá pintou um grande farol, que o Arquitecto projectou e construiu. Com alguma luz reflectida do olhar dela, acenderam-no, para dar a quem quer que visse, a Boa Nova daquele lugar mágico e enternecedor.
Para a menina, inspirado nas histórias que ela lhe contava, o velho ergueu em pedra um castelo igual ao que ela habitara nuvens, e chamou-lhe “ das Neves ”, por estas também serem brancas.
Aos poucos, o povo foi chegando: Sapateiros e costureiras, lavradores e lavadeiras, fidalgos estrangeiros que vinham a ares, escultores, poetas, pintores, músicos e escritores, todos eles sonhadores. E imaginem só, até foi preciso um cronista, para guardar as suas memórias! Para eles, o Arquitecto fez casas baixinhas, ajardinadas, de branco caiadas e portas e janelas verdes.
Entretanto, os viajantes marítimos sofriam dificuldades em aportar, devido à impetuosidade das águas, portanto, os fidalgos opinaram que era de se construir um porto de mar. E foi a partir daí que a situação piorou…
A menina pintou o porto, o velhinho Arquitecto desenhou-o, mas mal começou a obra, deparou-se com três desafios: O primeiro era a sua idade avançada, que já não o deixava trabalhar como dantes; o segundo era a força do mar, que por vezes, tão altas eram as suas ondas, que quase o arrastavam para longe; e o terceiro, pior que os outros, era algo que veio assombra-lo e atormentá-lo enquanto trabalhava.
Vinda das profundezas, gigantesca, terrível, dantesca, uma serpente marinha! Despertara com a algazarra dos navios e das obras e agora acossava os marinheiros e viajantes, e ao Arquitecto mais que aos outros. O cheiro peçonhento que deitava era nauseabundo e empestava o ar. As suas escamas brilhavam temíveis entre o verde e o azul enquanto rasgava as águas na sua senda de destruição. Os gritos lancinantes trespassavam os corações de quem os escutava. Nem barcos, nem gentes, nem o paredão inacabado resistiam a tamanha ira.
Para o velho conseguir terminar o seu trabalho, foi necessária a colaboração de vários artistas. Aprendeu ele, já idoso, a lição de que precisamos todos uns dos outros. Primeiro, veio um compositor, que tocou uma saudosa sonata para aplacar o mar. De seguida os escultores, cedendo a experiência de trabalhar a pedra. Depois os engenheiros, com uma incrível criação: um gigante de ferro, com possantes braços que acarretavam toneladas e toneladas de rocha. A este gigante de ferro a menina deu vida com o seu pincel, e baptizou-o de Titã, para que combatesse as investidas da serpente, que gritava aos quatro ventos que a deixassem dormir.
Encorajado por tamanhas amizades, o Arquitecto conseguiu, enfim, concluir a sua obra, mas pagou o preço último. Caminhou, afastando-se, muito velhinho, com o Por do Sol às costas, deu uns passos e tombou. A menina acorreu-lhe, mas nem ela, nem todos os médicos do lugar lhe puderam valer. E assim, a menina aprendeu uma importante e dolorosa lição: que nada nem ninguém é eterno, e o nosso tempo tem de passar… Ajoelhou-se junto do seu velho amigo, e dali jurou não mais sair…
Ao ver os seus olhos tingidos de lápis-lazúli, rosto escorrido de lágrimas, um poeta apressou-se para junto do farol que o guiara, e ali nos penedos talhou versos solitários.
Sem que ele se apercebesse, a serpente marinha aproximara-se, sorrateira, dele. Assustando-o, silvou: - “ De onde te vem tão profunda mágoa, Nobre poeta, que nem o temor a mim daqui te afasta? “-
E o poeta contou-lhe o sucedido…
Ainda ele não tinha terminado, já a serpente se precipitava terra a dentro, para onde estava a menina com o velho caído. Ao vê-los, a serpente chorou, e com a menina se lamentou. Afinal, agora que pensava nisso, sentia saudades das lutas com o velho, da sua voz a amaldiçoa-la, e do som do seu martelo e cinzel sobre a pedra. Também a serpente aprendeu uma lição: dar valor às amizades enquanto se as tem.
Disse ela então à menina: - “ Se eu prometer tomar bem conta dele, tu prometes continuar a pintar, cantar, dançar e brincar por aqui? “
E a linda menina, num pranto, acedeu.
A serpente marinha velou sobre o corpo do velhinho até ela própria morrer, e onde jaz o seu corpo nasceram frondosas árvores, cujas copas pintadas pela menina fazem lembrar uma serpente marinha a nadar.
O Pai – Sol e a Mãe – Lua, comovidos, resolveram dar aos pintores ainda melhores paisagens para pintar, aos poetas melancolia para escrever, e aos músicos alegria para compor.
A linda menina, essa tornou-se invisível para não se apegar tanto a mais ninguém, e continua a inspirar quem com ela se cruza. Escuta-se a sua alma na Sonata Saudade de Óscar da Silva, a sua memória nos livros do seu Guardião Jorge Bento. Sente-se o seu misticismo no desenho da constelação do cisne, composto por cinco capelas locais (Santo Amaro na cauda, Espírito Santo no corpo, Santana à direita, Santa Catarina à esquerda, e S. Clemente das Penhas à cabeça). Vê-se o lampejo dos seus olhos no Farol da Boa Nova, a sua mágoa ali ao lado, nos versos de António Nobre, cravados no penedo. Respira-se o seu perfume entre o arvoredo das Quintas da Conceição e Santiago, a sua imaginação no Forte de Nossa Senhora das Neves, a sua força de vontade no Castelinho da praia, que já foi um Miramar. Ao restolhar do vento, dança lá na ponta do paredão, ao pé do antigo Titã que ainda nos guarda. Rejubila na praia, o seu riso ecoa nas rochas, enrolado na espuma das ondas. Em qualquer rua, o seu canto sussurrado incendeia-nos o íntimo! O nome da terra escolhida é Leça da Palmeira! O nome da menina, da linda menina, a filha do Sol e da Lua, que veio à Terra de um castelo nas nuvens… Ah! O nome dela, que nos arrebata… É MUSA! A MUSA LECEIRA!
Espalhem a nossa lenda!”
Está de parabéns quem o convidou, Dr. Luís Soares. Está de parabéns quem o lançou nestas andanças, o prof. A. Cunha e Silva. Está de parabéns quem o tem apoiado, o Dr. Albano Chaves; porque todos proporcionaram a um jovem natural de Leça da Palmeira a oportunidade de mostrar o que sabe e faz, contrariando a ideia daqueles que vão buscar gente de fora pagando, e que nada nos acrescentam.

Eng.º Rocha dos Santos in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 6 e 7 - Agosto/Setembro e Outubro de 2009

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS EM LEÇA DA PALMEIRA


















No dia 11 de Junho, de calor intenso, a Procissão do Corpo de Deus percorreu Leça da Palmeira, da Igreja matriz até ao Largo do Castelo, onde decorreu a bênção do mar, trazendo Cristo aos nossos caminhos de todos os dias. Nestes tempos em que diariamente somos confrontados com dificuldades de toda a ordem, só a presença de Cristo em todos os actos do nosso quotidiano, e não apenas como coisa de um momento, pode ajudar cada um a ser mais irmão, mais amigo, mais solidário.
Além dos Acólitos, Pagens, Confrarias e figurantes, a Procissão do Corpo de Deus integrou igualmente as crianças que, este ano, realizaram a sua Profissão de Fé e foi seguida e/ou aprecia da com muita dignidade e respeito por gentes da terra, mas também por muitos forasteiros, como é já habitual com as Procissões de Leça.
Merece destaque mais uma vez, os tapetes de flores na Av. dos Combatentes da Grande Guerra, na Rua do Moinho de Vento e na Rua Oliveira Lessa, uma tradição portuguesa do norte do país todos os anos presente no percurso desta Procissão, obra de alguns moradores, que assim quiseram também contribuir para a solenidade.

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 5 - Julho de 2009

CASCATAS em LEÇA
















Há cerca de dois anos, dei com uma cascata, (bem bonita, diga-se), naquilo a que chamei ‘sítio mais improvável’, por ser a montra de um cabeleireiro. Porque as cascatas são uma tradição nossa que caiu em desuso, hoje, encontrar uma que não tem a ver com o concurso que o RTA costuma promover, é ainda mais agradável. Pois lá esteve de novo a cascata, na tal montra, mas desta vez ainda mais completa, com a procissão comportando os andores dos três santos populares, e este ano, até teve pálio a cobrir o ‘Sr. Prior’. E o espaço da montra ficou pequeno para as três capelas com o respectivo padroeiro, a procissão mais completa, com a banda de música a acompanhar e outra a tocar no coreto, o fogueteiro e toda a multiplicidade de figurantes da cascata em si.
Desta vez, descobri outra, na mesma rua, na montra de um pequeno café-bar, diria eu, outro ’sítio improvável’, mas que até teve, pela cascata, direito a visita de canal de televisão regional, (como me informou a dona, apareceu no Porto Canal).
Parabéns às duas proprietárias pela iniciativa.

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 5 - Julho de 2009

9º e 10º anos da Catequese visitam a Casa do Gaiato

No passado dia 6 de Junho, fomos a Paço de Sousa, à Casa do Gaiato. Mesmo atrás do Mosteiro de Paço de Sousa, lá se encontra a “Aldeia dos Gaiatos”
Primeiro visitámos a capela da Instituição, um templo muito simples mas muito convidativo à reflexão. Ali tivemos uma breve explicação de como funciona esta obra cristã, dada pelo padre Manuel António, que se dedica aos Gaiatos há 46 anos, não deixando de referir a falta de padres que queiram abraçar esta Obra com uma doação total, seguindo o exemplo do «Pai Américo», (o seu fundador, sepultado dentro da capelinha), nas muitas Casas do Gaiato em Portugal ou em África, para onde regressaria o Padre Manuel naquela semana. Disse ainda que quando vem de Benguela (África), onde chefia os Gaiatos, vem com os olhos «cheios de crianças», mas quando chega a Portugal «eles ficam vazios», pois lá as Casas estão muito mais cheias de crianças e jovens desprotegidos do que as Casas nacionais. O que move esta Instituição são duas das práticas que Cristo quer que predominem nos corações dos Homens - o Amor ao próximo e a Caridade.
O nosso «guia» foi o Abílio, um dos gaiatos, que nos levou até ao refeitório onde dois gaiatos se encontravam ocupados com os afazeres da cozinha. Lá pudemos ver um quadro muito bonito do «Pai Américo», que ali está como que a «presidir» a tudo. Junto ao refeitório encontra-se a antiga escola dos gaiatos. Seguimos para as oficinas onde se encontrava uma banda a tocar música, e reparamos na quantidade de órgãos que tinham, num piano muito antigo, mas valiosíssimo, na guitarra, no trompete, no grande bombo e nos batuques. Também a música faz parte da vida da Casa. Visitámos depois os quartos e a sala de convívio, a lavandaria e a piscina, já preparada para o Verão. Foi ali que reparámos no vale onde aquela pequena «aldeia» se encontra - um «mundo» de campos agrícolas pertencentes à Instituição.
Seguimos para a casa onde estavam os mais pequeninos, cuidados por jovem senhora, que há dezassete anos se doou totalmente a esta obra. Estavam numa casa provisória, pois a «Casa-Mãe», mesmo ao lado da capela está em obras. A «Casa-Mãe» consiste na casa principal da Obra. Antes do almoço ainda fomos ver a vacaria onde é produzido o leite para consumo da Casa. Vimos ainda a estufa onde são produzidos muitos dos vegetais ali consumidos.
Há ainda um anfiteatro para festas e peças de teatro. Foi ali que partilhámos o almoço que levámos de casa. O que nos sobrou, deixámos para eles.
De tarde, visitámos o mosteiro de Paço de Sousa, mesmo ao lado da Casa do Gaiato, onde regressámos para uma partidinha de futebol com o nosso catequista Júlio e alguns dos nossos colegas. Terminámos a visita com a ida à carpintaria, de onde saiu o notável tecto da capela e a escadaria da «Casa-Mãe». Aí os rapazes que se interessarem podem aprender essa arte com o carpinteiro da Casa. Finalmente fomos à sala dos computadores onde os rapazes exploram o mundo da informática.
Depois fomo-nos divertir para o parque com alguns miúdos muito reguilas de lá.
Foi espectacular este dia lá passado. A experiência de estar com meninos e rapazes, que não souberam o que é o amor de pai e mãe foi bastante significativo para nós. Vimos como estavam felizes ali, mas, lá no fundo dos seus olhos havia um certo vazio também…
A Casa do Gaiato é a mãe e o pai destes jovens: O pai personificado no sacerdote, e a mãe personificada nas senhoras que se doam totalmente para ajudar a criar os gaiatos. Os rapazes só saem de lá quando estiverem preparados para a vida, e se tiverem vocação para os estudos, a Casa dá-lhes a oportunidade de seguirem a vida universitária.
Foi óptimo e trouxemos de lá muito em que pensar: há que amar os nossos pais e respeitá-los, pois há muitos jovens que nunca o puderam fazer. Também trouxemos o exemplo de um amor total ao próximo, por parte do Padre Américo e dos seus sucessores, seguindo o principal mandamento: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei». Graças à generosidade de milhares de pessoas e do Banco Alimentar contra a Fome, a Casa do Gaiato tem-se mantido e até chega a ajudar os pobres da paróquia!
Brevemente voltaremos lá para passarmos um fim-de-semana com eles. Queremos levar-lhes algo daqui, de Leça – para isso contamos com a generosidade de todos os Leceiros.
Um bem-haja Padre Américo! Todos devemos estar reconhecidos por essa alma onde não habitou mais ninguém, senão Deus.
O Grupo da catequese do 9º e 10º ano - Catequistas Júlio Correia e Deolinda Correia
Texto redigido por Gustavo Borges in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 5 - Julho de 2009

terça-feira, 30 de Junho de 2009

FALECEU A MILITA – ESTÁ DE LUTO O G.P.T.L.

No passado dia 18 de Maio, faleceu Maria Emília Esteves Ferreira Soares, “A Milita”. Foi actriz do G.P.T.L. desde de 2001 até 16 de Maio de 2009, dia em que realizou o último espectáculo, em Gulpilhares.
Dois dias depois deixou-nos.
Foi uma actriz conscienciosa e responsável.
Actualmente, além de actriz, era a Secretária da Direcção do G.P.T.L.. Deixou-nos na flor da idade e com a sua partida, o Teatro em Leça da Palmeira ficou mais pobre e mais triste, pois a Milita era a alegria personificada. Junto dela não havia lugar para tristezas. O seu sorriso era constante, verdadeiro e contagiante. Ela deixou-nos corporalmente, mas continua bem presente no meio de nós, espiritualmente.
É costume dizer-se que só fazem falta os que cá estão. Por isso a Milita faz falta, porque ela é dos que cá estão.
Por tudo isto, peçamos a Deus, que lá, onde Ele a tenha, faça dela a nossa mensageira.
A Milita teve um funeral condigno com a sua condição de mulher com letra grande, com Missa de corpo presente, concelebrada pelo Padre Lemos, nosso Pároco, e pelo Padre Marcelino, Capelão dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos – Leça, corporação onde a Milita trabalhava como funcionária da Secretaria. O corpo foi transportado pela corporação dos Bombeiros e pelos elementos do G.P.T.L..
Um momento tocante, foi quando o corpo desceu à terra com o corpo de Bombeiros a fazerem guarda de honra. Foi de facto um funeral com muita dignidade, tal como a Milita merecia. Teve a presença de muitos amigos, do Corpo de Bombeiros, incluindo o seu Comandante e toda a Direcção da corporação. Estiveram também presentes em grande número, elementos do Grupo Paroquial de Teatro de Leça, alguns dos quais, já não fazem parte do Grupo, mas também quiseram prestar uma última homenagem à Milita.
E termino, como sempre terminamos os nossos espectáculos, com uma salva de palmas, para a Actriz e Dirigente do Grupo Paroquial de Teatro de Leça, “Milita”.
António Paiva in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 4 - Junho de 2009

ILUSTRES LECEIROS - Amélia Carneiro: Histórias do Rio e Mar de Leça

Com esta conferência pretendeu a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira homenagear mais uma pessoa que viveu em Leça da Palmeira durante um período da sua vida retratando através das suas pinturas alguns dos belos recantos desta nossa encantadora terra.
Para tal convidou prof. A. Cunha e Silva que esquematizou a respectiva apresentação começando por desafiar o neófito nestas andanças, Miguel Rocha dos Santos, que se saíu muito bem mostrando que há que dar lugar aos novos para que estas iniciativas tenham continuidade com qualidade, e se não atentem neste texto:
“Apresentar o Amigo Prof. Cunha e Silva é tarefa difícil. Outros de maior valia e gabarito já o fizeram, por isso vi-me obrigado a pedir ajuda. Uns dias antes de ser convidado a apresentá-lo, tinha lido um conto do autor americano Howard P. Lovecraft que, a certa altura, me fez pensar nele. Atentem então neste excerto.
“ Não há muitas pessoas que saibam das maravilhas que aguardam para serem reveladas através do recordar das histórias e das visões das suas próprias infâncias. Enquanto crianças nós escutamos, sonhamos e guardamos pensamentos incompletos que, quando mais tarde queremos recordar, já nos achamos prosaicos e (…) sob o efeito (…) da vida. Mas alguns de nós acordamos durante a noite com estranhas aparições de colinas e jardins encantados, de fontes cantando ao sol, de penhascos dourados sobre mares murmurantes, de planícies que se estendem até às cidades adormecidas de bronze e pedra e de fantásticas companhias de heróis em neblina, galopando em adornados cavalos brancos ao longo das orlas de densas florestas, e nesse momento apercebemo-nos de que olhávamos através de portões de marfim para aquele mundo de encantamento que era nosso antes de sermos sábios (…)”
Ora, se o Amigo Cunha e Silva me permite a ousadia, eu penso que ele é sábio precisamente porque não deixou de ver através desses portões de marfim e parece até cruzalos de vez em quando, aliando esta espantosa capacidade à sua vasta experiência de vida.
Na verdade, creio que os seus feitos nas mais diversas áreas, como a música, a pintura, a literatura e em geral a cultura da nossa comunidade, são fruto do trabalho não de um Prof. Cunha e Silva, mas pelo menos três (que eu tenha identificado…). Acompanhem-me, por favor, neste devaneio, enquanto aplico esta teoria a momentos específicos de estudo que o Prof. realizou para nos dar a conhecer a pintora naturalista que passou por Leça da Palmeira, Maria Amélia de Magalhães Carneiro:
- Certo dia, Prof. Cunha e Silva físico, a três dimensões, percorreu a Rua Dr. Augusto Cardia Pires, onde morava a minha avó Brízida, para visitar a casa de Amélia Carneiro habitou temporariamente. Acompanhando-o, seguia o Cunha e Silva intelectual, mas na quarta dimensão, o tempo, percorrendo a mesma rua na época em que ainda se chamava Rua Central, em busca de elementos que lhe permitissem descobrir como vivia a pintora. Ambos no mesmo local, a trabalhar para o mesmo objectivo, mas em tempos diferentes;
- Numa outra ocasião, ía o Prof. Cunha e Silva físico de comboio, a ler, enquanto o Cunha e Silva intelectual vogava por entre informações, tentando dar-lhes ordem, procurando a melhor forma de as expor quando, de repente, um Cunha e Silva metafísico, o que está ligado às energias criativas, desperta a atenção dos outros dois para uma curiosa frase que iria ajuda-lo (s) a olhar claramente o seu objectivo, através de um prisma realmente singular. Pasmem-se com a analogia que o nosso Amigo nos irá apresentar, mas que não revelo agora, para não estragar a surpresa!
É destas estritas colaborações que nascem fascinantes comunicações. O Cunha e Silva que temos hoje connosco é a integração destes três num só plano de existência, com a força e a imaginação para nos maravilhar com as suas descobertas.
No entanto, não é essa a sua única força. Hão-de reparar na sua expressão, a alegria e o entusiasmo com que fala dos temas a que se propõe. Também daí parte o encanto de o escutar.
Pode então afirmar-se que ele tem gosto em viajar pelas histórias que conta, mas maior gosto em levar outros de viagem consigo. Com certeza já todos viram um bando de aves voando em formação, na qual uma delas, agindo como navegador, segue um pouco mais à frente. Assim é o Prof. Cunha e Silva, com uma ressalva, uma particularidade sua. É que, quando se apercebe que um dos membros do seu bando tem algo de valor a acrescentar, uma história para contar, uma pintura para partilhar, um caminho novo a percorrer, uma terra desconhecida a desbravar, ele alegremente lhe cede o lugar de navegador. Ele ergue-se, e com ele os inspirados de Leça da Palmeira. E nisto reside a profunda e inequívoca verdade acerca deste nosso Amigo. O intenso desejo de dar a conhecer! Não importa como, desde que se prime pela qualidade.
Em jeito de conclusão, e porque já devem estar ansiosos por o ouvir, regresso ao conto com que iniciei esta intervenção, com uma pequena adaptação:
O Prof. Cunha e Silva “(…) [busca] apenas a beleza da vida. Quando a verdade e a experiência já não [têm] força para revelá-la, ele [procura-a] na fantasia e na ilusão, conseguindo encontrá-la na soleira da sua própria porta, entre as nebulosas memórias dos contos e dos sonhos de infância.”
Escutemo-lo…”
Então escutamos o prof. Cunha e Silva explicando vários trabalhos da autoria da homenageada e outros que considerou relevantes para nos explicar o percurso da pintora.
Maria Amélia de Magalhães Carneiro, nasceu em 2 de Março de 1883, na freguesia de Cedofeita, no Porto. Era filha de José Bernardo Dias Carneiro e de Júlia Caldas Moreira Magalhães Carneiro, era irmã de um dos mais prestigiados Presidentes da Câmara Municipal de Matosinhos, o Comendador José Magalhães Carneiro, e prima de António Carneiro. Iniciou-se na Academia de Belas Artes do Porto, tendo prosseguido estudos com o Mestre Júlio Costa. Em 1940 decidiu vir viver para Leça da Palmeira, para casa de sua irmã Maria Helena, casada com Norberto de Moura e Melo de Zagalo Ilharco, que vivia numa casa da Rua Dr. A. Cardia Pires (antiga Rua Central), contigua àquela em que nascemos. Faleceu na casa de uma outra irmã, situada na Rua de Brito Capelo, em Matosinhos, em 1970, com 77 anos de idade, deixando um precioso e maravilhoso legado.

Eng.º Rocha dos Santos in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 4 - Junho de 2009

domingo, 31 de Maio de 2009

S. NUNO DE SANTA MARIA - Mais um Santo Português

“Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão de melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim, seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.”
Este trecho da Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, a propósito da canonização de Frei Nuno de Santa Maria, às 9h33 de 26 de Abril passado, em Roma, contém a “mensagem” fundamental a reter por todos nós, seus concidadãos, a nível individual e nacional.

Nuno Álvares Pereira, desde sempre conhecido por Santo Condestável, nasceu em Cernache do Bonjardim, Sertã, a 24 de Junho de 1360 e foi um nobre guerreiro que teve um papel fundamental na crise de 1383 a 1385, em que havia a possibilidade da perda da nossa independência para Espanha, já que a única filha do rei D. Fernando era casada com o rei de Espanha. Apoiante do Mestre de Aviz, (filho ilegítimo de D. Pedro I), D. Nuno Álvares Pereira bate o exército espanhol, primeiro na batalha dos Atoleiros, em Abril de 1384, e, após o reconhecimento de D. João como rei de Portugal, pelas Cortes de Coimbra, lidera um pequeno exército de 6 mil homens e derrota 30 mil castelhanos, na batalha de Aljubarrota, que viria a ser decisiva na consolidação da nossa independência nacional.
Foi casado com D. Leonor de Alvim, de quem teve três filhos, entre os quais D. Beatriz que viria a casar com o primeiro Duque de Bragança, (dando origem à Casa de Bragança). Após a morte da mulher entra na Ordem Carmelita, em 1423, com o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Morre no Convento do Carmo a 1 de Novembro de 1431, com 71 anos.
Foi beatificado a 23 de Janeiro de 1918, pelo Papa Bento XV, que lhe consagrou o dia 6 de Novembro. O processo de canonização, iniciado em 1940, viria a ser interrompido para apenas em 2004 ser retomado.

Após a cerimónia de canonização, o Papa Bento XVI referiu-se ao novo Santo e a todo o povo português:
“Dirijo a minha saudação grata e deferente à Delegação oficial de Portugal e aos Bispos vindos para a canonização de Frei Nuno de Santa Maria, com todos os seus compatriotas que guardam no coração o testemunho do «Santo Condestável»: deste modo lhe chamavam já os pobres do seu tempo, vendo o sentido de compaixão e o despojamento de quem deu os seus bens aos mais desfavorecidos. Deixou-nos assim uma nobre lição de renúncia e partilha, sem as quais será impossível chegar àquela igualdade fraterna característica duma sociedade moderna, que reconhece e trata a todos como membros da mesma e única família humana. Em particular saúdo os Carmelitas, a quem um dia se prendeu o olhar e o coração deste militar crente, vendo neles o hábito da Santíssima Virgem e no qual depois ele próprio se amortalhou. Ao desejar a abundância dos dons do Céu para todos os peregrinos e devotos de São Nuno, deixo-lhes este apelo: «Considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé» (Heb 13, 7).”

Marina Sequeira (recolha) in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 3 - Maio de 2009

Leça da Palmeira e o Rio Leça

Leça da Palmeira e o Rio Leça, nas Artes, nas Letras e nas Ciências, é o titulo de uma obra composta por quatro volumes e cujo primeiro teve, só agora, o seu lançamento após várias peripécias. São seus autores Albano Chaves e António Mendes, aquele há muito ligado ao mundo das letras e este ao da pintura.
Para nos referirmos a esta obra nada melhor do que transcrever as palavras do prof. A. Cunha e Silva na respectiva apresentação, e que foram as seguintes:
“Não passou ainda muito tempo que retratei a musa de Leça. Musa que tem na cabeça um esplendor!... No tronco um coração de mel!... A seus pés, passeiam todos os trilhos, alvoreceres e poentes.
Quando parecia que esta ditosa Senhora musa já estava saturada da sua existência, séculos de semeadura de tradição oral e escrita, séculos de inspiração de aguadas sobre papel ou óleo sobre tela; quando o crepúsculo da sua vida apontava para uns olhos cansados de focar a objectiva do antigo caixote fotográfico “Kodak”; ou ainda quando uns dedos trémulos e esguios de tanto exercício ao piano, nos antigos Erard, já se atrapalham entre as teclas brancas e pretas e trocam os sustenidos pelos bemóis, eis que a madame aparece toda espampanante no arquivo emocional leceiro – O Indiciário Onomástico – em bom estado de conservação, disponível para dançar a polka ou dar as cartas do bridge com as amigas, na velha “sala de visitas” de Leça da Palmeira.
Esta ressurreição deve-se ao dom de dois patriarcas do nosso tempo – o pintor António Mendes e o escritor Albano Chaves – que desceram à rua, despiram as casulas e, antes de bater a porta ao rés da rua, colocaram o báculo de pernas p’ró ar, por causa das bruxas. De telemóvel na mão e sapatilhas Reebok calçadas, andaram por aí, pelas travessas e vielas, bateram aos portões, às vidraças das casas de Leça e, onde não havia gente para dar nada, apanhavam uns restitos, uns estilhaços, os destroços que a musa deixou algures esquecidos e ao deus dará! Remexeram papéis bafientos, abriram gavetas e gavetões, consultaram a Internet e mandaram e-mails.
Resultado deste labor: com tanto restolho a musa acordou estremunhada:
- Que andarão a fazer estes dois? E ficou a saber que:
Um, o António Mendes, de pena dourada, a fazer retratos leceiros; o outro, a “retratá-los”. Da cabeça da musa com esplendor, retiraram os poetas, os pecadores; dos pés da musa os pintores, pescadores (de imagens) que, habituados às águas, meteram os seus pés e os pés dos cavaletes nos riachos, nos rios, nas águas salgadas e doces, nas areias molhadas.
Por tudo isto, o livro Leça da Palmeira e o Rio Leça nas Artes, nas Letras e nas Ciências tem cabeça, tronco e membros. É um livro que caminha, que sente emoções, que racionalmente pensa. O escritor vestiu-lhes a roupagem, o pintor deu-lhes um rosto, um olhar, é nos olhos que está o espelho da alma. Estes são os retratos dos retratados.
António Mendes e Albano Chaves acabam de doar aos leceiros as suas terras, as suas águas, as suas praias, as suas ruas, as suas vielas, as suas gentes, as suas memórias, e a musa encoberta pelas águas mil do mês de Abril andará por aí a inspirar leceiros e visitantes, não só os que andam na rua, mas também aqueles criadores infinitistas que flutuam na lua”.
Palavras estas de uma beleza tão sublime a corresponder ao teor do livro.
Ficamos ansiosos à espera dos restantes volumes.

Eng.º Rocha dos Santos in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 3 - Maio de 2009

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Paulo, Homem de Três Culturas

Como estava previsto, teve lugar uma palestra sobre S. Paulo, no âmbito da celebração do grande jubileu que termina no próximo mês de Junho – O Ano Paulino.
Foi orador o Cónego Dr. Arnaldo C. de Pinho, que desenvolveu a sua alocução em torno daquilo que foi o grande lema Paulino – a evangelização pelo testemunho, tendo como ‘imagem’ de fundo um mapa do império Romano, onde se pôde observar o alcance da influência Paulina.
Tal como em muitos outros campos, também aqui se pode estabelecer paralelismos com a nossa história contemporânea – também hoje nos debatemos com questões de identidade, com a necessidade de saber lidar com a diferença, e S. Paulo, nos primeiros séculos, teve que deixar para trás a sua cidadania judaica e abrir-se a uma nova identidade. No século I, também o mundo ocidental passava por uma crise de valores e acabou por ser esse o terreno propício às novas religiões que vinham do oriente, entre elas o Cristianismo – hoje precisa-se de nova evangelização para combater o desânimo dos crentes, e, tal como S. Paulo, enquanto cristãos e católicos, todos temos a responsabilidade de, pelo testemunho, sermos agentes activos desse processo de conversão, que se quer de carácter permanente em todos os momentos da nossa vida.

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 2 - Abril de 2009

Escolhidas as 7 Maravilhas de Leça

As 7 Maravilhas de Leça da Palmeira foram, finalmente, conhecidas no passado dia 13 de Março. Uma cerimónia deste tipo está, normalmente, rodeada de enorme expectativa, mas, neste caso, dado que todos os monumentos a concurso são “nossos”, havia apenas curiosidade em saber quais os mais votados – afinal todos são exemplos do muito que temos em termos de património. A ocasião contou com a presença do Sr. Presidente da Câmara, Dr. Guilherme Pinto, do Sr. Presidente da Junta, Dr. Pedro Tabuada além do júri e dos representantes das entidades que tutelam os monumentos que estiveram a concurso, (Câmara Municipal de Matosinhos, Paróquia de Leça da Palmeira, APDL e Capitania do Porto de Leixões).
Entre as 7 escolhidas estão a nossa Igreja Matriz e a Imagem de Nossa Senhora da Conceição, maravilhas autênticas desta nossa terra.
As outras cinco são: o Farol da Boa Nova, o Museu e Quinta de Santiago, o Titã do Molhe Norte, a Quinta da Conceição e a Casa de Chá da Boa Nova.
A votação on-line decorreu durante 2 meses, de 7 de Janeiro a 7 de Março, tendo-se registado mais de 1000 votos - entre os entrados via Internet e os recolhidos entre os mais de 600 alunos das Escolas EB 1 de Leça, que votaram, em boletim individual, após um conjunto de acções de sensibilização nos respectivos estabelecimentos de ensino.
A cerimónia incluiu momentos de poesia, a cargo do pintor e poeta Leceiro António Mendes e de Conceição Pires, bem como o anúncio de projectos futuros relacionados com a temática das 7 Maravilhas de Leça da Palmeira e que passam por um roteiro das 7 Maravilhas e exposição dos trabalhos que os alunos das Escolas do 1º Ciclo realizaram a este propósito.
Independentemente dos monumentos escolhidos, o objectivo mais importante foi, de certeza, conseguido – que os mais novos conheçam o que a sua terra tem de belo e, conhecendo, aprendam a gostar e a preservar como “seu património e parte importante da sua identidade.”
Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 2 - Abril de 2009

terça-feira, 31 de Março de 2009

A Voz de Leça Faz 56 anos

Neste últimos anos, ao assinalar o aniversário d’ A Voz de Leça, que é celebrado em Março, ao fazer-se o ‘balanço’ do ano que terminou, tem sempre havido factos a assinalar – uns mais alegres, (quando a equipa redactorial cresceu e se alargou a diferentes grupos etários), outros menos, (quando alguém se afastou), outros que apenas podem ser classificados segundo a expectativa que se criou, (como quando voltámos a trabalhar directamente com a Gráfica Firmeza)…
Mais uma vez, há algo a ‘marcar’ o 56º aniversário – ao longo deste último ano ‘ganhámos’ dois colaboradores, os Srs. Padres Lynce de Faria e Amaro Gonçalo, que têm a particularidade de serem de fora da Paróquia, (o primeiro é originário da diocese de Viseu e o segundo é o Pároco da Senhora da Hora). Honra-nos a sua colaboração que veio enriquecer o conteúdo deste Jornal, em especial na sua vertente de formação e orientação, tal como o pensou o seu fundador e foi sempre a principal preocupação do nosso Director e Pároco. Continuamos assim e sempre a cumprir o que preconizou D. António Ferreira Gomes, na fundação d’ A Voz de Leça, em 1953 – ser “voz de muitas águas”, cada vez mais.
Estamos todos de parabéns!

… mas há dificuldades.

Este texto devia ser apenas de ‘festa’ pelos 56 anos do jornal, que, nunca é demais repetir, é o mais antigo da Vigararia de Matosinhos. No entanto, fruto da crise global, (ou talvez não…), debatemo-nos com uma considerável diminuição das vendas, no fim das missas do fim-de-semana. É preocupante, porque cada jornal custa apenas 50 cêntimos. Temos consciência de que, enquanto jornal de cariz religioso, poderá não ser de leitura fácil e/ou acessível para todos, mas é também para se ir assimilando devagar. Além disto, há ainda a questão do valor da assinatura, com um número assinalável de assinantes a pagar apenas 5€, o que é muitíssimo pouco como valor anual.
Não deixo aqui qualquer apelo – a situação é suficientemente esclarecedora e fala por si.
Cabe a cada um agir, para que possa haver futuro para A Voz de Leça!


Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LVI - Número 1 - Março de 2009

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Benzido o Sacrário da Capela do Monte Espinho

Há quase um ano, no âmbito das celebrações do 28º aniversário da Comunidade de Monte Espinho, escrevi que ali os projectos nunca estão “por concretizar, mas para concretizar. Porque foi sempre assim: responderam ao apelo do Sr. Padre Lemos, há 28 anos, para que se pudesse ali celebrar a Eucaristia e a primeira foi mesmo numa garagem. Estava como que lançada a ‘primeira pedra’ da Comunidade, que hoje tem uma Irmandade, Grupo Coral, Grupo de Acólitos, de Pagens, Catequese e uma pequena mas acolhedora Capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, que todos de alguma forma ajudaram a erguer, com trabalho, com dinheiro, com apoio logístico. (…) e verificaram a necessidade de adquirir um Sacrário para a Capela. Vão certamente tê-lo em breve, porque é quando surge um novo desafio que aquela pequena Comunidade se ergue, mais unida do que nunca.”
Pois mais este se tornou realidade – o Sacrário foi benzido no passado dia 18 de Janeiro, numa missa solene presidida pelo nosso Pároco, onde esteve aquela Comunidade ‘em peso’, (como sempre acontece em ocasiões como esta). A tarde foi de Inverno, mas dentro da Capela, aquela celebração encheu a alma a quem se lhes juntou em mais um momento de forte vivência cristã.
Hoje a capela de Nossa Senhora de Fátima de Monte Espinho está mais ‘completa’, é um lugar
mais sagrado.


Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 11 - Fevereiro de 2009

Um Benemérito da Paróquia

A propósito da bênção do Sacrário da Capela de Monte Espinho, ficámos a saber que o pedestal em granito que o sustenta foi oferecido pelo Sr. Filinto Monteiro, sócio-gerente da empresa ROGRANIT GRALPE. Quase conterrâneo do nosso Pároco, (ambos são naturais do concelho de Marco de Canaveses – o Padre Lemos, de Penha Longa e o Sr. Filinto, de Alpendurada), veio para Leça há mais de 40 anos e, apesar de um interregno de alguns anos, em que viveu em Freixieiro e criou ‘laços’ também com a Paróquia de Perafita, aqui vive de novo.
O seu historial de generosidade para com a Paróquia é também longo, de há muitos anos.
Segundo o Sr. Filinto, com quem A Voz de Leça ‘conversou’ breve e informalmente, quase se pode dizer que tudo começou com a imagem de Nossa senhora da Conceição, ainda na vigência do anterior Pároco, Padre Alcino Vieira. “Quando a empresa comprou a máquina de serragem de pedra, a primeira obra que foi executada foi o pedestal para a imagem. Costumo até dizer que foi uma obra abençoada, porque, graças a Deus, nunca faltou trabalho à empresa.”
Além do pedestal, que permite que aquela antiquíssima bela imagem de Nossa Senhora esteja tão bem situada no frontspício da capela-mor da igreja matriz, ao Sr Filinto se devem ‘outros granitos’ da igreja, além do pedestal que suporta o busto do Padre Alcino, inaugurado, em Junho de 2004, junto ao Salão Paroquial, que foi parcialmente oferecido pelo Sr. Filinto. Agora, quando foi preciso, voltou a dizer presente e, desta vez, deu para a Comunidade de Monte Espinho.
Às vezes, pensa-se que os grandes empresários são pessoas distantes e inatingíveis, a quem estas ‘coisas’ passam ao lado. O Sr. Filinto é a prova absoluta do contrário – não só é uma pessoa de trato afável, como não faz questão nenhuma de ser elogiado enquanto mecenas. Dizia-nos, no início da nossa conversa: “Mas não é preciso nada disto. O que dei está dado e pronto. Afinal, não foi nada de extraordinário.“
Pode não ter sido, mas nos dias de hoje ‘pratica-se’ muito a indiferença, muito mais o ‘receber’ que o ‘dar’ e gestos destes não devem passar sem registo.
A Paróquia agradece.
Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 11 - Fevereiro de 2009

As Sete Maravilhas de Leça

Numa iniciativa da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, está a decorrer a votação com vista à eleição das 7 Maravilhas de Leça, com o objectivo de preservar e divulgar o património histórico-cultural da Freguesia. O Júri do concurso é constituído por um representante da Junta e quatro personalidades ligadas a várias vertentes da cultura local, e fez uma pré-selecção de 14 monumentos, de acordo com critérios histórico-culturais, arquitectónicos, artísticos e simbólicos, de onde ‘sairão’ os sete mais votados.
Entre os monumentos candidatos estão quatro de carácter religioso: a Igreja Matriz, a Imagem de Nossa Senhora da Conçeição, a Capela de S. Clemente das Penhas (Boa Nova) e a Capela de Sant’Ana.
Este projecto destina-se à população em geral e às escolas do Ensino Básico e associações e colectividades de Leça da Palmeira em particular. Após a escolha final, cujos resultados serão divulgados publicamente em data a anunciar, serão organizadas visitas guiadas a cada uma das 7 maravilhas, uma exposição de trabalhos dos alunos das escolas da freguesia e será criado um Roteiro “7 Maravilhas de Leça” em formato papel e um CR-ROM interactivo.
A votação decorre de 7 de Janeiro a 7 de Março de 2009 no sítio da Internet da Junta de Freguesia, (http://www.junta.pt/), e pode também ser realizada através do preenchimento de um questionário impresso (a enviar pela Junta via info-mail), bem como por votação secreta nas escolas EB1 da freguesia, mediante o preenchimento de um boletim.

sábado, 31 de Janeiro de 2009

Presépio ao Vivo - Foi Mais Natal

Todas as Fotos podem ser vistas em: http://www.presepioaovivoavozdeleca.blogspot.com/

Realizou-se nos dias 21, 27 e 28 de Dezembro e 3, 4 e 11 de Janeiro, no Salão Paroquial mais uma edição do Presépio ao Vivo. Pautado por grande afluência de público em todos os dias de exibição, o Presépio envolveu cerca de meia centena de participantes, entre figurantes, caracterizadores, técnicos e organização. Tal como em 2003, o Presépio retratou os primeiros anos de vida de Cristo, desde a Anunciação do Anjo Gabriel à Virgem Maria até ao Encontro de Jesus no Templo com os Doutores da Lei, passando naturalmente pelo quadro do Nascimento de Jesus. Sendo que em 2003, o mais difícil foi arranjar um “Menino Jesus”, este ano, (tal como diz o povo), “Não há fome que não dê em fartura”, tivemos três, fruto do nascimento de três crianças, filhos de paroquianos bem conhecidos. Claro que um evento como este, envolveu muita logística e foram precisos três longos dias para se concluir a montagem de toda a estrutura deste Presépio, desde a montagem dos quadros, passando pela electrificação e amplificação sonora. No entanto, provou-se que, quando os Grupos se mostram unidos, tudo é possível e foram muitas as contribuições que alguns elementos deram à organização, ajudando na montagem, nomeadamente no sábado anterior à estreia. Um agradecimento muito especial ao Sr. José Vieira, ao Sr. Adelino Costa, ao Sr. António Santos e ao Sr. Manuel Trigo pela ajuda prestada. A organização contou ainda com a preciosa colaboração do Rancho Típico da Amorosa, da Assembleia Paroquial de Jovens (Ivan Araújo, Ana Isabel, João Teixeira) e muito especialmente do Grupo Paroquial de Teatro (Filipe Couto, Andreia Parada, João Pedro) que para além dos aspectos materiais (aparelhagem de som e de luz), teve a seu cargo a caracterização das personagens e encenação, essa a cargo do António Paiva, estando sempre presente em todas as apresentações, corrigindo pequenos detalhes, antes, durante e após cada apresentação. Sem a contribuição do Grupo Paroquial de Teatro, teria sido tudo bem mais complicado. A caracterização contou ainda com a ajuda da D. Ascenção, da D. Rosarinho , da Luisa Paiva e da Isabel Faria que ajudaram a vestir todas as personagens. No que respeita a ajudas materiais, foram muitos os que nos ajudaram, nomeadamente o Sr. Manuel Sousa que gentilmente cedeu as ovelhas e os cordeiros para o Quadro 3, ao Sr. António Casal que gentilmente emprestou a palha que cobriu parte do cenário do Quadro do Nascimento, bem como a manjedoura e o pequeno curral das ovelhas, e o Sr. Joaquim Areias que nos emprestou as rolas que serviram de adereço ao Quadro 4. Quanto aos trajes, alguns já eram propriedade da Paróquia e que haviam sido usados em 2003, outros foram cedidos pela Casa dos Anjos da Póvoa de Varzim e outros ainda pelo Grupo Paroquial de Teatro que fazem parte do guarda-roupa da peça “Antígona”, para além das próprias sandálias que calçaram grande parte dos figurantes. Ainda uma palavra de agradecimento ao Sr. José Soares que retocou a pintura de todos os cenários, que apesar dos seus 25 anos, (originalmente pintados pelo Sr. Jorge Bento), ainda se encontram em muito bom estado. O Presépio ao Vivo foi composto por cinco quadros devidamente teatralizados e encenados, a saber: Anunciação (Anuncio por parte do Anjo Gabriel à Virgem Maria que iria ser mãe de Jesus), Visitação (Visita da Virgem Maria a sua prima Santa Isabel, grávida de 6 meses e que tinha concebido um filho em idade avançada, conforme fora anunciado pelo Anjo Gabriel), Nascimento (Encenação do Nascimento de Jesus, com a adoração dos Pastores e dos Reis Magos), Apresentação (A Virgem Maria e seu esposo S. José levam o menino ao Templo para ser apresentado ao Senhor), e por fim o quadro do Encontro (A Virgem Maria encontra o seu filho, Jesus, sentado entre os Doutores da Lei). Foram seis exibições recheadas de muita emoção, sobretudo para aqueles que encarnaram as personagens. Recriar a vida de Cristo, especialmente o seu Nascimento, foi para todos os que participaram seguramente momento de profunda alegria. De salientar, por ser de facto digno de registo, a personagem de Simeão, que em 1983 foi representada pelo Sr. Bento Mário e que 25 anos depois voltou a ser encarnada pela mesma pessoa. Aliás é o único que se manteve durante todos estes anos com a mesma personagem, sendo de facto um dos mais bem caracterizados. Como em todos os eventos algumas peripécias aconteceram e merecem ser referenciadas, especialmente a caracterização do Rei Mago Belchior, que pela sua cor de pele de tez negra, demorava imenso tempo a caracterizar e sobretudo a retirar toda aquela cor escura do rosto e das mãos. Quando todos já estavam completamente descaracterizados, o “coitado” do Ivan Filipe ainda estava às voltas com o desmaquilhante e com a ciclópica tarefa de limpar o rosto. Parabéns pelo sacrifício, porque é uma das personagens mais difíceis de todo o Presépio. Para terminar um agradecimento muito especial aos casais que “emprestaram” os Meninos Jesus. Vitor Almeida e Cláudia Brandão, pais da Matilde, Fernando e Célia Sanches, pais da Sofia, Leonor Santos e Rodolfo Rodrigues, respectivamente mãe e primo do pequeno Rodrigo. Todos eles se mostraram à altura deste grande acontecimento e até os bebés, que nunca choraram. Parabéns a todos. Por último, em jeito de balanço, a organização considerou este Presépio ao Vivo muito positivo, como se poderá verificar pelas palavras do seu principal responsável, Manuel Couto (ver peça na página 5). Eventos deste tipo são para repetir, não para a o próximo ano, mas seguramente em anos futuros. Bem-haja a todos pela colaboração prestada.

José Eduardo Sousa in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 10 - Janeiro de 2009

Manuel Couto - Exemplo de Dedicação

Por ocasião do Presépio ao Vivo de 2003, A Voz de Leça entrevistava o José Eduardo Sousa, responsável da APJ na altura e principal mentor da sua realização, 20 anos depois da primeira edição, em 1983.
Agora, encerrado o Presépio ao Vivo de 2008, conversamos com o Manuel Couto, um dos principais responsáveis pela realização de agora.
O Presépio ao Vivo foi o pretexto para a entrevista, porque por todo o trabalho dedicado que o Couto desenvolve na Paróquia, já se impunha este registo. Não há quem não o conheça, embora a sua presença seja sempre mais visível quando se trata da Confraria de S. Miguel Arcanjo, (onde desempenha as funções de tesoureiro), e de tudo o que se relacione com o nosso Padroeiro. Ultimamente integra também a equipa técnica do Grupo Paroquial de Teatro e é sócio-colaborador do Rancho Típico da Amorosa. No entanto, a sua intervenção é transversal a todos os Grupos Paroquiais, já que, a nível da logística é essencial a sua colaboração, pela polivalência de capacidades que possui, que é como quem diz, tem jeito para quase tudo e, perante um desafio nunca diz que não é possível. Depois são as longas horas do seu tempo livre que dedica a tudo o que é necessário fazer na Paróquia, estando sempre pronto a preencher a falta de alguma coisa ou de alguém, sempre que for preciso. A sua dedicação chega ao ponto de programar o gozo das férias profissionais em função de momentos importantes de actividade Paroquial, para se poder dedicar a tempo inteiro, como acontece todos os anos em finais de Julho e de Setembro, por ocasião das festas Paroquiais de Sant’Ana e S. Miguel Arcanjo. Também muitas das actividades que integram o FESTARTE e têm lugar em espaços da Paróquia passam por ele. Nessa altura, os seus dias são totalmente dedicados à logística dessas actividades, que são da responsabilidade do R.T.A.
Foi com esse mesmo empenho que o Couto se envolveu na organização deste Presépio ao Vivo, que aconteceu cinco anos depois da última edição por variadíssimas razões, que enumera, “Primeiro porque, para ter impacto, tem que ser espaçado. Se fosse feito logo a seguir a 2003, deixava de ser interessante, depois porque dá muito trabalho a montar e dada a ocupação da sala de espectáculos do Salão com as festas de Natal das escolas da freguesia, o tempo é muito curto para um evento desta envergadura. Há ainda o facto de, em 2008, a véspera e o dia de Natal terem calhado a meio da semana, o que permitiu que o Presépio fosse ao fim de semana e não colidisse com os momentos que as pessoas privilegiam para estar em família. Lembra ainda a oportunidade da realização, 25 anos depois da primeira, que aconteceu em 1983, “Se as pessoas se lembrarem, em 1983, o Presépio ao Vivo foi em moldes um pouco diferentes, na sala 1 do Salão. Só voltou a fazer-se 20 anos depois e a edição de agora é como que uma homenagem ao Sr. Jorge Bento, que pintou os cenários dos ‘quadros’, que ainda hoje usamos.”
Como já referido, sem o Couto o Presépio não se tinha feito e embora em 2003 também tivesse participado activamente na sua montagem, onde foi figurante, foi da conjugação da experiência de quem organizou em 2003, do seu engenho e do seu ‘jeito para tudo’ que se chegou a uma versão ‘melhor’ que a anterior. “Da última vez para agora fez-se alterações para melhorar e também para ser diferente. Acho que até podia ter sido melhor se tivéssemos tido mais algum tempo para a montagem. As alterações que introduzimos relativamente à edição de há 5 anos não foram muito significativas e quem está ‘de fora’ nem se dá conta. Como as visitas ao Presépio são guiadas e em grupo, porque cada ‘quadro’ tem teatralização com banda sonora, aumentou-se a abertura dos cenários dos ‘quadros’ 1, 2, 4 e 5, para poderem ser visitados por grupos maiores e o ‘quadro’ 3, o do Nascimento de Jesus, que fica no palco, foi colocado mais perto dos visitantes, já que, da edição anterior ficou a opinião de que o Menino Jesus tinha ficado muito longe.”
Foi o Couto também o grande ‘angariador’ de figurantes para este Presépio ao Vivo, “A maioria já tinha participado no Presépio de 2003, mas o Sr. Bento Mário é o ‘totalista’, porque representou o velho Simeão nas três edições do Presépio ao Vivo: em 1983, 2003 e 2008. A Sagrada Família foi representada por três famílias, que, com muito gosto, responderam afirmativamente ao convite que fiz, quando se partiu apara a organização”
Desta vez parecia que a afluência de visitantes não ia ser comparável à edição anterior, em especial devido às condições climatéricas que nos primeiros dias foram muito desfavoráveis, mas ao terceiro dia já havia filas enormes.
E foi, precisamente, a enorme afluência de público verificada na edição anterior que levou a que, desta vez, o Presépio pudesse ser visitado durante seis dias, enquanto em 2003 esteve patente durante apenas quatro. “O alargamento da apresentação do Presépio de quatro para seis dias teve a ver com a afluência de público, que excedeu largamente as expectativas, em 2003, e assim, com mais dias de apresentação permitiu a visita a muitas mais pessoas, mesmo àquelas que não se aperceberam, logo no início, de que estava a haver o Presépio. Além disso, permitiu menos horas seguidas de apresentação, não sendo tão cansativo para quem fez a figuração.”
E se o Couto está sempre presente e disponível para ajudar e colaborar com os Grupos da Paróquia sempre que é solicitado, dando o seu melhor, agora, que foi o próprio a pedir a colaboração de todos para levar a cabo a montagem e realização do Presépio ao Vivo de 2008, todos disseram ‘presente’. “Destaco a preciosa colaboração do Grupo Paroquial de Teatro, Confraria de S. Miguel, Confraria do Santíssimo Sacramento, Irmandades de Nossa Senhora de Fátima da Igreja Paroquial e de Monte Espinho, Caminho Neocatecumenal, Acólitos da Igreja e Monte Espinho, Pagens do Santíssimo Sacramento, Assembleia Paroquial de Jovens, Catequese, jornal A Voz de Leça e o Rancho Típico da Amorosa.”
Das muitas colaborações individuais, o Couto destaca duas, em especial o José Eduardo Sousa, que foi o seu ‘braço direito’ e o António Paiva, encenador do Grupo Paroquial de Teatro, que estendeu essa função à teatralização dos cinco ‘quadro’ que integram o Presépio ao Vivo.
Para o Couto, o balanço do Presépio ao Vivo de 2008 é absolutamente positivo, ”porque todos os que trabalhámos para o levar a cabo, fizemo-lo com muito gosto e dedicação pela Paróquia. Foi também muito pelas crianças que o fizemos, para que não cresçam convencidas de que o Natal é apenas a euforia dos centros comerciais e das prendas, mas para que saibam que tudo começou numa gruta, junto dos animais, num ambiente de muita pobreza e humildade.”
Quando voltará a haver Presépio ao Vivo, “Não será para já, porque tem que se conjugar uma série de coisas. Não demorará, certamente, 20 anos a repetir, desde que todos os que nos empenhamos agora tenhamos saúde, porque vontade de trabalhar em prol da Comunidade Paroquial não nos faltará, tenho a certeza.”
A nossa conversa terminou com um agradecimento ao nosso Pároco, Sr. Padre Lemos, por lhe permitir ter um papel tão interventivo na actividade Paroquial. Também a família próxima do Couto merece apreço, porque, para dedicar tanto tempo ao trabalho desinteressado na Paróquia, a vida familiar é afectada muito frequentemente, sendo tantas vezes condicionada a essa actividade.
A Paróquia de Leça da Palmeira agradece ao Manuel Couto toda a dedicação e entrega generosa.

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 10 - Janeiro de 2009

quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Padre Lemos - 30 Anos de Pároco de Leça da Palmeira

O nosso Pároco completa este mês 30 anos ao serviço de Leça da Palmeira. Assumiu a nossa Paróquia em 23 de Dezembro de 1978, passando a director d’ A Voz de Leça por inerência de funções, quando o Jornal comemorou 25 anos de publicação.
Ordenado sacerdote há 55 anos, o Padre Lemos passou já mais de metade desse tempo como nosso pastor, com uma notável disponibilidade para o Senhor e para esta Comunidade. Se em 1978, quando aqui celebrou pela primeira vez, por circunstâncias da época a sua ‘chegada’ passou sem registo, quando celebrou as Bodas de Prata Paroquiais, em Dezembro de 2003,a Paróquia prestou-lhe uma mais que merecida homenagem, por toda a generosidade e entrega com que abraçou esta terra e as suas tradições, num contributo importante para a consolidação da nossa identidade cultural e social.
Hoje, é por sua vontade que não há uma comemoração formal desta data também importante – como diz o Padre Lemos, na sua habitual boa disposição’ é um ’jovem Pároco com 30 anos’. Enquanto sua Comunidade Paroquial gostávamos de o homenagear de maneira mais formal, embora saibamos como não gosta de protagonismos, como se emociona nestas ocasiões, sobretudo depois de um início de ano um em que alguns problemas de saúde o privaram do exercício pleno da sua pastoral. No entanto, não podemos deixar de o saudar nesta data, e sobretudo de lhe agradecer toda a dedicação a este Jornal e a Leça da Palmeira.
Todos quantos privam com o Padre Lemos n’ A Voz de LEÇA, na Catequese, as Confrarias, Coros e demais Grupos Paroquiais testemunham dia-a-dia essa vida de serviço a esta Paróquia, onde chegou há 30 anos e onde tem feito obra - de conservação do património religioso, mas também cuidando do “património humano”, sobretudo do menos favorecido desta nossa Comunidade.
O Padre Lemos nasceu a 13 de Junho de 1928, em Penha Longa (Marco de Canavezes) e aí sentiu o chamamento de Senhor. Frequentou os Seminários de Trancoso, Vilar e da Sé entre 1942 e 1950, foi ordenado sacerdote a 1 de Agosto de 1954. Até aqui chegar, foi professor no Seminário de Vilar, Notário do Tribunal Eclesiástico e Reitor da Igreja dos Clérigos. A par destas actividades, colaborou com o Movimento dos Cursos de Cristandade durante dezassete anos, e foi Assistente dos Cursos de Preparação para o Matrimónio e das Equipas de Casais de Nossa Senhora durante quinze anos.
Enquanto Pároco de Leça, a sua obra poderá não ser tão visível como a do anterior Pároco – mas tão importante como construir de novo é zelar para a conservação do património existente e isso tem sido feito com muita pertinência e eficácia pelo Padre Lemos. A ele se deve a recuperação das várias Capelas, (da Boa Nova, de Santa Catarina, do Corpo Santo, de Sant’Ana e da Senhora da Piedade), do exterior e interior da Igreja Matriz (substituição do telhado, reforço da segurança, restauro dos altares), muita investigação sobre a história de Leça e do seu património religioso, nomeadamente quanto à datação das origens da templo actual, (uma pequena igreja, talvez do tamanho da Capela de Santa Catarina, ou seja mais pequena do que a capela-mor actual), à configuração e dissimetria dos altares laterais, a criação do Museu Paroquial, (que é riquíssimo e só não é visível e visitável por razões de segurança). Foi da sua iniciativa que, há quase dois anos, a Paróquia ficou a conhecer e homenageou a memória do Abade Mondego, que aqui foi Pároco no início do séc. XX e uma figura importante por toda a acção que desenvolveu, enquanto sacerdote, enquanto político e cientista. Foi uma agradável surpresa para a maioria de nós conhecer a vida deste clérigo, de que apenas existe um retrato a óleo na Galeria dos Párocos.
Em Julho de 2004, foi também com o seu patrocínio que se mandou fazer e inaugurou solenemente um busto do falecido Padre Alcino Vieira, que está colocado em frente ao Salão Paroquial.
Da acção evangelizadora do Padre Lemos surgiu o Grupo de Pagens do Santíssimo Sacramento e nasceu a Comunidade de Monte Espinho, que, tendo já construída a sua Capela há alguns anos, trabalha para concretizar a outra ‘parte do ‘projecto’: a construção do seu Centro. Foi por sua iniciativa que foram recuperadas algumas actividades religiosas tradicionais de Leça – foram repostas a Visita Pascal e as Procissões dos Passos, do Senhor Morto, do Corpo de Deus e a mais antiga de todas, a do Padroeiro, S. Miguel Arcânjo. Com o P.e Lemos surgiram também as Procissões de Velas de 12 de Maio e 12 de Outubro, bem como a Procissão do Senhor do Padrão, em Parceria com a Paróquia de Matosinhos. Mas deu também continuidade à obra social que o seu antecessor deixou e se o Padre Alcino ‘construiu’ o Bairro dos Pobres, o Padre Lemos criou o ‘Dia da Caridade’, que acontece no segundo domingo de cada mês, em que os cristãos, após receberem o Pão de Deus na Eucaristia, se dão aos mais desfavorecidos através dos seus donativos. Ainda neste âmbito há a sua responsabilidade na Obra do Padre Grilo, cuja direcção assumiu pouco tempo de pois de se tornar Pároco, bem como a assistência que presta à obra do Apostolado do Mar (Stella Maris), aqui em Leça.
Neste seu caminho de consagração ao Senhor, está sempre presente a memória de sua mãe, que recorda de forma sentida, pelo exemplo de serviço aos outros e pelo testemunho de fé.
Por ocasião das suas Bodas de Ouro Sacerdotais, (que celebrou com D. Armindo Lopes Coelho), escreveu uma oração que intitulou ‘OBRIGADO, SENHOR.’, que é reveladora da sua atitude de serviço aos outros, de doação generosa a esta terra, tão diferente da sua, até pela distância geográfica, se não por tudo o resto, (o tamanho, a população, os estilos de vida, a envolvência – o mar – a proximidade com uma cidade grande…). Com esse ‘Obrigado’ curva-se perante a vontade do Senhor, num humilde agradecimento por tudo o que lhe foi dado durante aqueles 50 anos ao Seu serviço. Hoje, ao fim de 30 anos como nosso pastor e quase 55 de sacerdócio, é essa ainda e sempre a postura do Padre Lemos – de serviço aos outros para o Senhor, gratificado nessa sua missão. Foi certamente assim que sempre se viu servindo-O sem reservas, sempre ‘vendo’ a Sua acção nas mais pequenas coisas como nas mais importante.
O Padre Lemos faz também parte da história d’ A Voz de Leça, e da história pessoal de todos os que hoje fazemos e/ou fizemos este Jornal. Por seu desafio “pegamos” nele, há 23 anos. Pelo Padre Lemos continuamos, mesmo quando foi difícil, mesmo quando continuar não parecia mais possível. O seu exemplo de serviço a esta Comunidade ajudou-nos a seguir em frente e continua a congregar todos quantos, de alguma forma, se empenham na elaboração desta publicação, mês após mês.

Não posso deixar de recordar aqui o extinto Coro MILIUM, que ‘nasceu’ na primeira missa que o Padre Lemos aqui celebrou, às 19 horas de um sábado, dia 23 de Dezembro de 1978, e que desapareceu há cerca de um ano, quando, por razões de saúde do nosso Pároco, teve que haver alteração do calendário das missas do fim-de-semana.
Acabou uns dias após ter completado 29 de vida.
Fará sempre parte da história de todos quantos o integraram e do nosso Pároco também, porque apesar de não ter sido fundado por sua iniciativa, começou na sua primeira missa cá e foi ele que lhe deu o nome.

Ao Padre Lemos só podemos dizer “Muito Obrigado, por tudo” e pedir ao Senhor que o conserve junto de nós, para que o seu testemunho de vida, de pastoral religiosa e social continue a ser fonte de inspiração e de força para esta sua Comunidade Paroquial.

“9 PEÇAS” de ANTÓNIO PAIVA em 30 ANOS do G.P.T.L.

No âmbito das comemorações do 30º aniversário do Grupo Paroquial de Teatro, o encenador António Paiva, lançou, a 8 de Novembro, uma colectânea das nove peças de teatro que escreveu para o G.P.T.L., nos últimos 10 anos.
O lançamento decorreu no Salão Paroquial, no mesmo palco que é o seu ‘chão’ – ali se passa tudo: ali se ensaia semana após semana, ali se constroem cenários, ali se sente o ‘nervoso miudinho’ em dia de estreia, ali se ‘solta’ a arte em cada representação, ali o G.P.T.L. recebe os seus ‘convidados’, que, desde 1986, cá têm vindo aos “Encontros” de Teatro.
Na plateia da Salão, nessa tarde particularmente fria, estiveram os actuais componentes do Grupo Paroquial de Teatro, mas também quase todos os outros actores e actrizes que por ele passaram e que não quiseram deixar de dizer ‘presente’ num momento importante para o Paiva e para o Grupo. Assim, foi rodeado de amigos, numa cerimónia simples e informal que António Paiva concretizou o sonho de ver o seu trabalho publicado.
António Chilro abriu a sessão saudando os presentes, em especial os antigos membros do G.P.T.L., e felicitando o encenador pela sua dedicação ao Grupo e ao Teatro.
Luísa Paiva, presidente do G.P.T.L., recordou a fundação do Grupo de uma perspectiva mais pessoal e familiar, como é natural, e agradeceu o empenho de todos para que a publicação da colectânea fosse possível.
Seguiu-se a homenagem sentida de um outro homem de Teatro – Alfredo Correia, actor e encenador, ele próprio director artístico do AMASPORTO – festival de Teatro de Ramalde, que atribuiu ao António Paiva, em 1999, o “Prémio Talma”. Este prémio destina-se a reconhecer homens e mulheres do Teatro Amador que de alguma forma contribuíram para o prestígio do Teatro associativo e para o desenvolvimento local em que se inserem. Dirigindo-se aos “amigos do Teatro e aos companheiros de outros palcos”, Alfredo Correia, que escreveu o prefácio da colectânea “9 Peças”, fez o elogio do seu ‘companheiro’ de arte e do G.P.T.L. pelo contributo para “o enriquecimento da Dramaturgia Portuguesa, em particular os Amadores, o Teatro Associativo” e pelo “exemplo a seguir, pelo que dignifica o bom nome do Teatro de Amadores. O António Paiva é merecedor deste reconhecimento, o que me leva até 1999, quando o AMASPORTO lhe atribuiu o “Prémio Talma” e me faz sentir ainda mais orgulhoso por me ter escolhido para escrever o prefácio. Foi com prazer que o fiz e sinto-me honrado com isso. António Paiva, com esta maneira particular de escrever para o seu Grupo representar, tem uma atitude generosa que traduz bem a paixão que nutre pelo seu Grupo de Teatro, como se de uma família se tratasse. Trabalha de forma incansável, ‘esgravatando’ aqui e ali, coisas e causas, temas e ideias, para levar para ‘casa’ e, assim, poder ‘sustentar’ melhor a sua família teatral, que há 30 anos criou e dirige, na certeza de que os seus companheiros de palco e equipa técnica vão gostar desse ‘pão cultural’ e o vão consumir artisticamente. É com esta forma de estar no Teatro que o António Paiva é um contributo cultural precioso, tanto para a sua família teatral como para quantos se consideram ‘Amantes de Talma*”. (…) “Também estou certo que os mais pequenos – crianças, adolescentes e jovens que pela sua mão têm aprendido a caminhar nas tábuas do palco, vão, um dia, quando mais crescidos, já com os seus cursos superiores concluídos, poder dizer que valeu a pena estar no Teatro de Leça, porque aprenderam a estudar melhor e a crescer como gente.” Depois citou partes de um manifesto, por si redigido em 1997, que consta dos programas do AMASPORTO, para vincar o papel importante que o Teatro Amador pode ter na formação de cidadãos: “…o Teatro de Amadores das Associações tem de facto um ‘papel principal’ no desenvolvimento cultural dos locais e regiões onde está inserido. (…) “… tal como no Ensino Básico, o Teatro Associativo é uma ‘escola’ necessária no desenvolvimento social…” (…) “A criatividade, o espírito de sacrifício, a solidariedade, quando aliados a uma saudável aprendizagem associativa, são verdadeiramente bases socioculturais importantes que o Teatro coloca à disposição da sociedade, substituindo, em grande medida, o ‘papel principal’ dos governantes.” Terminou apelando ao “quanto é importante saber o que é a responsabilidade de ser AMADOR DE TEATRO, porque o Teatro de Amadores das Associações – o TEATRO ASSOCIATIVO – é de facto, e sem demagogias, uma grande ‘escola de humanização’ para a vida social, cultural e associativa. O António Paiva é um importante prestador de serviço do Teatro Associativo, que devemos preservar e conservar. É um privilégio tê-lo no seio da Família Teatral Associativa. Obrigado António Paiva.”
Muito aplaudido, António Paiva agradeceu a presença de todos, actuais e antigos membros do G.P.T.L. Passou, então, a explicar o que o levou a tornar-se autor. Como é costume dizer-se ‘a necessidade aguça o engenho’ e foi o que aconteceu naquele caso. Há cerca de 10 anos, quando no G.P.T.L. havia mais actrizes que actores, perante a dificuldade em arranjar peças com predominância de papéis femininos, já que em tudo o que havia, a maioria esmagadora eram papéis masculinos, pôs a si próprio o desafio de escrever para a ‘sua gente’. Não foi fácil, mas os muitos anos de Teatro, a ‘mexer’ com as peças dos ‘outros’, deram-lhe algum traquejo e já vão nove. Referiu também os apoios de algumas firmas, enfatizando a importância do apoio prestado pela Junta de Freguesia, ali representada por Luís Soares, sem o qual nada teria sido possível. Do representante da Autarquia de Leça vieram palavras de elogio pelo trabalho em prol do Teatro e da elevação do nome de Leça da Palmeira.
Seguiu-se um ‘porto de honra’ no átrio do Salão, durante o qual todos os antigos membros do G.
P.T.L. e os convidados receberam um exemplar do “9 Peças”.
Conversando em particular com António Paiva, já depois do lançamento da colectânea, recordou para A Voz de Leça a génese do Grupo, em 1978, exactamente no dia 5 de Outubro desse ano, no encerramento de um encontro de antigos membros da JOC, (Juventude Operária Católica). Inicialmente Grupo de Acção Paroquial, (G.A.P.), o Teatro era apenas uma actividade do Grupo, já que dele nasceu igualmente a chamada ‘Escola de Leitores da Liturgia’ e o que viria a ser o ‘Centro de Dia da Terceira Idade’, hoje a funcionar em instalações próprias. Como o Teatro estava na vida do Paiva desde a sua primeira juventude as outras vertentes do G.A.P. tinham ganho autonomia, começava ali um percurso, hoje com 30 anos, impulsionado também pelo apoio do Capitão Abreu e Sousa.
Uma das dificuldades iniciais foi, precisamente a falta de actrizes, pois naquela época as jovens ficavam mais por casa e estava fora de questão sair à noite – e os ensaios eram, como hoje, à noite. Daí que, mesmo os pouco abundantes papéis femininos não eram fáceis de atribuir e “…quando havia papéis de raparigas jovens, eram as actrizes, às vezes com mais de trinta anos, que os tinham que fazer.” Com o passar do tempo, os costumes foram-se alterando, a mulher passou a sair mais, logo a participar mais em actividades culturais e o défice passou a ser de homens / actores, que é o que ainda acontece hoje em dia. Daí a necessidade que sentiu, de, em 1998, escrever para Teatro, usando a sua experiência de muitos anos. “Aos 19 anos já fazia Teatro, primeiro na JOC, depois num grupo que havia em Gonçalves e mais tarde no Rancho Infantil de Matosinhos. Era para ir para o Aurora da Liberdade, mas aí entrou a velha rivalidade entre Leça e Matosinhos e acharam que não precisavam de gente de Leça. (…) Escrever para Teatro não foi fácil. Eu às vezes criticava os autores, achava que ‘ganhavam à linha’; as peças eram muito longas, até repetitivas. Enquanto encenador fiz e faço cortes, muitas vezes. Esse ‘mexer’ com textos de outros deu-me alguma experiência.”
A primeira peça que escreveu, “O Retrato”, que envolvia 14 actores e actrizes, sendo uma comédia como todas as outras de que é autor, foi a de que mais gostou. “As outras são, se calhar, mais engraçadas, mas aquela tem o chamado ‘humor britânico’, de piada indirecta.”
A inspiração para a escrita pode ser de vária ordem, por exemplo, “A Ressurreição de Alguns” surgiu após a leitura de um artigo sobre a sempre polémica ‘doação de órgãos’.
Ser o próprio encenador do Grupo a escrever a peça tem vantagens, “…porque escrevo para quem tenho. Se eu sei que no próximo ano alguém não vai poder estar, por variadíssimas razões, já sei com quem conto e evito a questão de ter que andar à procura de peça ou de ter que fazer muitas adaptações. Posso, inclusivamente, adaptar o papel às características físicas de quem o vai fazer.”
Quando se referiu à primeira peça que escreveu, António Paiva afirmou “A partir daí, ganhei gosto.”
Do entusiasmo com que fala da sua vida ‘no palco’, porque é ao Teatro que dedica todo o seu tempo, percebe-se o que quer dizer com aquela frase simples.
O Paiva vai, certamente, continuar a escrever para o ‘seu’ Grupo e vai continuar a sonhar.

Parabéns pela dedicação e talento.
Parabéns ao G.P.T.L.

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 9 - Dezembro de 2008
* François Joseph Talma – actor amador francês nascido no século XVIII, que s estreou na Comédie-Française aos 24 anos. Foi pioneiro do realismo nos cenário e trajes, o que foi uma novidade no Teatro do século XVIII. Amigo de Napoleão Bonaparte e de outros revolucionários, Talma acabaria por ter um papel importante na reforma do Teatro francês.

Engº Pinto de Oliveira - O Presidente

Foi o tema de abertura das conferências sob o tema “Ilustres Leceiros” promovidas pela Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, que levámos a efeito no último dia 8 de Novembro.
FERNANDO PINTO DE OLIVEIRA, era filho de Alfredo Pinto de Oliveira e de D. Cacilda Leite Ferraz Vieira de Oliveira, nascido em Leça da Palmeira, a 15 de Setembro de 1911, numa casa da Rua Direita, hoje, com o n.º 66.
Pertenceu a uma família que sempre serviu a terra, pois era bisneto de Maria Francisca dos Santos Pinto de Araújo, benemérita leceira responsável por um dos restauros da nossa Igreja, onde existe uma placa assinalando tal facto. Era sobrinho-bisneto de João Pinto de Araújo que para além de um restauro da igreja também mandou construir o miramar na antiga barra do Leça e que hoje se encontra na nossa praia, devido às obras de construção do Porto de Leixões.
São indissociáveis do Eng.º Fernando Pinto de Oliveira seus irmãos, D. Maria Lina Cameira e o General Alfredo Pinto de Oliveira.
Foi baptizado na Igreja Matriz de Leça da Palmeira pelo Abade José dos Santos Mondego.
Fez a instrução primária no “Colégio Modelar” da D. Marquinhas Pires, na Rua Direita, onde completou com distinção a 4.ª classe (2.º grau).
Fez o ensino secundário no Liceu Rodrigues de Freitas, antigo D. Manuel II, na cidade do Porto.
Posteriormente frequentou o Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, onde em 1938 se licenciou como Engenheiro Agrónomo, tendo apresentado como dissertação final do curso um pormenorizado trabalho efectuado nos Laboratórios do Instituto dos Vinhos do Porto, intitulado “Subsídios Para o Estudo das Substâncias Azotadas, nos Vinhos do Porto” e publicado nos Anais deste instituto em 1942.
Também prestou serviço militar e de 1943 a 1950 desempenhou diversas funções públicas relacionadas com o seu curso.
Em 1950, entrou para a Câmara Municipal de Matosinhos para vereador do então Presidente Dr. Fernando Aroso, tendo ocupado a presidência da Comissão Municipal de Turismo, onde exerceu uma acção relevante, criando o Posto de Turismo, no Mercado de Matosinhos, onde além de outras actividades se realizaram exposições de arte permanentes.
Ocupou também o cargo de vice-presidente, tendo sido leal adjunto de Fernando Aroso, o que fez com que após a morte deste, muito naturalmente fosse nomeado, por escolha governamental, para o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos.
Se ao Dr. Fernando da Hora Aroso podemos atribuir a pavimentação a cubos de granito das principais estradas do concelho, ao Eng.º Fernando Pinto de Oliveira devemos atribuir uma série de melhoramentos na vertente turística, estando ainda hoje a sua obra como edil à vista dos olhos de todos, sendo algumas delas visitadas por estrangeiros e nacionais que aqui se deslocam para as admirar.
Estamos a falar, nomeadamente, da Casa de Chá da Boa Nova, da Piscina de “Marés”. Devendo-se-lhe também a aquisição das Quintas da Conceição de Santiago, e Parque de Campismo de Angeiras.
Contudo o grande sonho do Eng.º Pinto de Oliveira era o de tornar os terrenos a Norte do Farol da Boa Nova uma zona de lazer, eventualmente num campo de “golf” municipal; por isso logo que soube que o governo de então aí ia instalar uma empresa petrolífera, a então Sacor, partiu para Lisboa numa derradeira tentativa de evitar a destruição do planalto da Boa Nova. Não conseguiu demover a inabalável decisão do governo! Recusou-se a aceitar a vinda desse empreendimento; porém, o absurdo concretizou-se pela força dos seus promotores e, o que era o maior pulmão da cidade de Matosinhos, veio a transformar-se na sede do maior dos seus poluidores.
Perante a insistência governamental, aceitou a SACOR, mas recusou-se a assistir à sua inauguração, o que talvez lhe tenha valido a não renovação do mandato, deixando assim a Câmara em 1970, após doze anos de brilhante serviço à sua terra com total dedicação.
Faleceu no dia 1 de Março de 1975, com 63 anos de idade e assim se encerrou um projecto, um percurso que iria dar a Matosinhos um aspecto bem diferente, pois sabe-se hoje que o turismo é a indústria do século XXI, o que nos leva a afirmar com toda a convicção que com a política que desenvolveu, o Eng.º Fernando Pinto de Oliveira estava adiantado 50 anos no seu projecto para Matosinhos.

Engº Rocha dos Santos in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 9 - Dezembro de 2008

domingo, 30 de Novembro de 2008

XXII Encontro de Teatro - Leça 2008

Prossegue o 22º Encontro de Teatro LEÇA 2008 até ao final deste mês de Novembro, organizado pelo Grupo Paroquial de Teatro de Leça, que este ano celebrou já 30 anos de existência.
Pelo palco do Salão Paroquial de Leça têm passado os Grupos convidados pelo G. P. T. L., com peças de muita qualidade - da Associação Recreativa “Os Plebeus Avintenses”, que a 11 de Outubro abriu o Leça 2008 com a peça ‘Um Filho’, de Luísa Costa Gomes, passando pelo Teatro Amador de Gulpilhares com ‘O Morgado de Fafe na Foz’, de Camilo Castelo Branco, o Grupo Mérito Avintense, que levou à cena ‘O Juiz das Borracheiras’, a Escola Dramática Valboense que apresentou ‘O Gato’, de Henrique Santana, até ‘Similis Similibus’, de Júlio Dinis, pelo Grupo Cultural da Louricoop e ‘O Bom Patife’, de José Manuel Barros, pela Nova Comédia Bracarense, tem havido muita arte nos serões de sábado.
O Leça 2008 caminha para o fim, não sem que antes possa ser vista a peça ‘Mar’ pelo Teatro Experimental de Mortágua, encerrando a edição deste ano o anfitrião/organizador – o G. P. T. L. apresenta três pequenas peças de um acto, no dia 29 de Novembro: ‘O Triunfo das Personagens’, o ‘Consultório’ e ‘O Poço’.
Parafraseando o Coordenador do Leça 2008, António Paiva, na introdução ao Programa oficial, “Este evento cultural é já uma referência no panorama teatral na região do Grande Porto.”

Venha ao Teatro e divirta-se!

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 8 - Novembro de 2008

Festa do Crisma em Leça da Palmeira

No último domingo de Outubro, dia 26, dois acontecimentos tiveram lugar, em simultâneo, na nossa igreja matriz: a Celebração do Crisma e o XXXI Encontro de Coros da Vigararia. A celebração eucarística, que teve início às 16 horas, foi presidida pelo Senhor Bispo Auxiliar do Porto, D. João de Miranda, e animada por um ‘monumental’ coro de coros, numa coincidência oportuna e feliz.
Receberam o sacramento do Crisma cerca de 120 jovens e adultos provenientes não só de Leça da Palmeira, mas também das Paróquias de Perafita, Senhora da Hora, Matosinhos e S. Mamede de Infesta, tendo os respectivos Párocos concelebrado com o Senhor Bispo.
O coro, com mais de cento e quarenta coralistas provenientes de coros paroquiais da Vigararia, ficou colocado ao longo da nave lateral esquerda da igreja e foi dirigido pelo Professor Emanuel Pacheco. Cantou esplendorosamente bem, acrescentando solenidade à cerimónia, já que todos os cânticos foram adequados à liturgia Crismal, podendo dizer-se que dadas as ímpares condições de acústica da igreja de Leça, se o tivesse feito a partir do coro-alto, talvez o canto, que também “é louvor a Deus”, tivesse resultado ainda mais majestoso.
Mas toda a celebração esteve centrada na administração do Crisma ao grupo de crismandos, na sua maioria jovens rapazes e raparigas que concluíram dez anos de Catequese este ano e em anos anteriores.
E foi em especial para os jovens que D. João de Miranda falou na homilia que proferiu, lembrando João Paulo II no seu optimismo constante em relação à juventude e exortando todos a ser apóstolos, sobretudo através do exemplo de vida que cada um seja capaz de dar. Terminou saudando o coro de coros pelo seu Encontro anual.

Toda a cerimónia decorreu com muita ordem e compostura por parte de todos, sendo de realçar o contacto de proximidade de D. João de Miranda para com todos os crismandos e não só, a quem cumprimentou individualmente, ainda dentro da igreja no fim da celebração, tendo-se esse contacto prolongado ao adro da igreja, onde se aglomeraram os crismados, suas famílias e outros presentes, que tiveram oportunidade de ‘conviver’ brevemente com o Senhor Bispo.
Aquela tarde de Outubro foi, certamente, uma ocasião inesquecível para todos, especialmente para os crismados, neste momento tão especial de manifestação da sua fé.



HOMILIA DO SR: BISPO D. JOÃO DE MIRANDA NA CELEBRAÇÃO DO CRISMA

Derramarei o meu Espírito sobre todo o ser vivo: os vossos filhos e as vossas e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões…
Temos diante de nós um bom grupo de jovens que o cuidado pastoral dos Párocos e catequistas preparam para o sacramento do Crisma.
Como escreveu João Paulo II, não há razões para criar uma visão pessimista sobre a gente nova… Se Cristo lhes for apresentado com o seu verdadeiro rosto, os jovens reconhecem-no… Por isso lhes digo: Fazei-vos sentinelas da manhã nesta aurora do novo milénio (NMI, 9)
O crisma é um sacramento do Espírito Santo. Quer dizer que comunica o Espírito Santo e os seus sete dons, para proveito espiritual de quem o recebe. O Espírito santo, Terceira Pessoa da SS. Trindade, é Espírito prometido, espírito enviado, espírito recebido…
Espírito significa sopro, vento, alma… É fogo vindo do céu para aquecer, purificar, desenferrujar almas e corações empedernidos.
O Espírito vence a espessura da noite e uma língua de fogo inumerável purifica, renova, acende o mistério criado (Hino de Domingo, Hora intermédia).
O Espírito santo é espírito prometido. Prometido já pelos profetas do Antigo Testamento.Por exemplo, pelo profeta Joel que hoje lemos. Ele diz: Nos últimos tempos, derramarei o meu espírito sobre todo o ser vivo: vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões (Joel 3,1). E Ezequiel: Dar-vos-ei um coração novo… Arrancarei do vosso peito o coração de pedra a dar-vos-ei um coração de carne. Infundirei em vós o meu espírito… (Ezequiel 36, 24).
É espírito prometido pelo próprio Cristo. Por isso, Jesus tinha dito: Quando Eu for para o Pai, enviar-vos-ei o Paráclito, o Espírito da verdade, que vos enviarei de junto do Pai (João 15,26; 16,7)
Foi prometido para renovar a criatura humana e, por ele, toda a criação… É espírito de verdade, de consolação e também de impulso forte para a nova evangelização, para a missão. Estamos a viver um Ano Paulino, durante o qual somos convidados a “aprender a missão com S. Paulo”.
Vejamos então.
A verdade maior de todas as religiões é a Fé em Deus.
A verdade maior do Cristianismo é a Fé em Jesus, Filho de Deus encarnado, que morreu e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia.
A Ressurreição de Jesus não convenceu de vez os seus próprios apóstolos. As aparições do Ressuscitado confirmaram a fé abalada dos discípulos mas não os levou a saírem à rua.
O Espírito foi enviado. Cinquenta dias depois da Páscoa, o Espírito Santo desceu do céu sobre os Apóstolos e Maria reunidos no Cenáculo de Jerusalém. E logo saíram para fora e davam testemunho das maravilhas de Deus.
A que se deveu esta mudança de atitude dos Apóstolos?
À presença do espírito Santo. Daí em diante, a Igreja cresceu, tomou atitudes mesmo perante as autoridades de então, sofreu perseguições e surgiram os mártires da fé. Primeiro Estevão, depois os apóstolos, a seguir muitos outros, que deram o seu sangue por manterem viva a fé na ressurreição.
Então isto que significa?
Significa que é fundamental para a Igreja e para cada um dos cristãos o Pentecostes, a acção do Espírito de Deus nos baptizados e nas comunidades. Não é, portanto, diletantismo ou mania, não é porque se chegou ao fim da catequese que os párocos de Matosinhos promovem a celebração do Crisma.
É, sim, porque o ESPÍRITO é a ALMA da Igreja. Sem Ele, a Igreja torna-se uma estrutura sem vida. Pode ser que faça muitas coisas, muitas construções e obras materiais, muitas celebrações e festas. Se não entregar nas mãos do Espírito, é um corpo sem alma, sem chama, sem sentido de missão. Bem avisou João Paulo II: devemos reviver em nós o sentido ardente de Paulo que o levou a exclamar: Ai de mim, se não evangelizar!... É preciso um novo ímpeto apostólico… Cristo há-de ser proposto a todos com confiança: aos adultos, às famílias, aos jovens, às crianças, sem nunca esconder as exigências mais radicais da mensagem evangélica… (NMI, 40)
É Espírito recebido. Ele é a ALMA da Igreja. Foi da sua experiência e da inspiração divina que Paulo arrancou a teologia da Igreja como Corpo d Cristo: um Corpo estruturado, hierarquizado, no qual todos têm lugar, conforme os carismas e graças que o Espírito Santo distribui a cada um. O Corpo é um só e tem muitos membros, mas é o mesmo Deus e o mesmo Espírito que realiza tudo em todos.
Então nós fazemos parte dos operários da vinha que foram convidados pelo Senhor para a faina da sementeira e da colheita. Somos operários da construção, sempre em actividade e sempre por concluir, até que chegue o reino definitivo.
O Espírito Santo é o “Mestre interior” de cada cristão, é, como lhe chamou Jesus, o Advogado, o Paráclito, O Consolador, o animador da fé e de testemunho da fé de cada crente. Temos de dar tempo a Deus, à oração, à vida interior, à formação e instrução de fé, mesmo depois do Crisma. Se não, nada resulta e o nosso cristianismo torna-se ou uma prática de rotina ou uma religião quase pagã.
Do EVANGELHO: Amarás o Senhor, teu Deus…
Deus é amor: O Pai é amor, o Filho é graça, o Espírito Santo é comunhão. Oh Santíssima Trindade! Nada podemos fazer na vida de mais importante do que amar. Deus é amor. O amor dos esposos, dos pais e dos filhos, dos cristãos entre si são reflexos do amor de Deus. Amarás! É um mandamento, uma vocação e um desafio. Porque não se ama de qualquer maneira. Amar é dar-se sem esperar resposta, gratuitamente. Assim como Deus faz: ama sem medida, para que amemos. Mas se não amarmos, ele continua a amar. Indefinidamente. Deus não pode senão amar.
Meus caros jovens crismandos:
Escutemos então a voz do Mestre: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração… É o primeiro e principal mandamento. Deus quer ter um lugar no nosso coração e na nossa vida. Mas, para isso, é necessário que o coração esteja vazio de todas as futilidades. Enchemo-lo com tanta coisa que não presta e depois sentimos no ar, na alma e na língua o gosto amargo da desilusão.
O Espírito Santo vai fazer com que fiqueis mais ligados a Cristo e ao seu Corpo místico que é a Igreja; vai fazer com que tenhais outra fortaleza interior para resistir às paixões, às tentações do mundo, do demónio e da carne; vai fazer com que ganheis coragem para serdes apóstolos que difundem a fé por palavras e com a vida.
Os vossos filhos e filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões (Joel).
Para sonhar e ter visões, é preciso antes de mais entender por dentro o sentido das palavras e dos sacramentos. Hoje a liturgia não é em latim como antigamente. Mas não adianta muito ser em português, se não se captar o significado profundo das palavras e dos gestos. Não basta receber os sacramentos. Muitos crismandos fizeram a renovação da Profissão de Fé e das Promessas do Baptismo, mas não se comprometeram. Disseram as palavras mas não as sentiram. Não abriram o coração e assim o Espírito foi-lhes dado mas ficou de fora da morada interior. O que é que lhes faltou? Foi renascerem, como S. Paulo, no caminho de Damasco: cair abaixo do cavalo da sua importância, do egoísmo e abrir-se a Deus.
Roguemos a S. Paulo que estes crismandos de hoje sintam a alegria da fé e o gosto de dar testemunho de Cristo, sobretudo junto dos outros jovens!
Resta-me dizer uma palavra de apreço e felicitação aos Coros que hoje aqui vieram animar solenemente esta celebração eucarística. O canto litúrgico é louvor a Deus e alegra a alma dos crentes. Bem hajam!

Marina Sequeira in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 8 - Novembro de 2008

sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Mãos de Fé aos Olhos de Deus

Parcas seriam as palavras para descrever o empenho e generosidade que duas dedicadas senhoras da nossa Paróquia empregam no árduo trabalho que é, decorar os andores da Procissão de S. Miguel e a maior parte dos altares da nossa Igreja Matriz. Falamos da Ascensão e da Rosarinho, que às vezes com muito sacrifício, arriscando a própria saúde física, conseguem imaginar, inventar, reinventar e decorar com amor e dedicação os nossos altares e os nossos andores.
Não raras vezes, entrei na Igreja Matriz e ouvi alguns paroquianos e forasteiros dizerem que os altares estão muito bonitos e até que deve custar uma fortuna à Paróquia pagar o trabalho da “empresa” que faz as decorações. Pois bem, nada é mais falso. O trabalho destas duas senhoras é gratuito, fazem tudo por amor a Deus, como sempre gostam de afirmar. E foi num desses dias, muito perto do dia grande da Festividade de S. Miguel que as encontramos, ajoelhadas ao Altar-mor a preparar a Mesa da Celebração. Foi então que pude observar com mais detalhe o excelente trabalho que estavam a executar. Não resisti e logo ali decidi que neste número, mais do que descrever pormenorizadamente todo o programa das Festividades em Honra de São Miguel Arcanjo, que sendo, sem dúvida, de singular importância, seria também oportuno mostrar a todos, em detalhe, os extraordinários arranjos das flores de pano e decoração dos Andores e a decoração dos Altares. É através das imagens, da observação detalhada dos pormenores que nos apercebemos do bom gosto, do carinho e do amor que estas duas senhoras dão e continuarão a dar à nossa Paróquia. Refira-se o pormenor do ramo de azinheira e dos lenços brancos no andor de Nossa Senhora de Fátima, a lembrar a Cova da Iria e as Procissões de Velas e do ‘Adeus’ à imagem da Virgem. Também o andor de S. Miguel foi decorado a preceito, com a abóbora e as uvas (havia um cacho de uvas verdadeiro...), a lembrar as colheitas, próprias desta época. Todos os andores apresentavam pormenores alusivos às figuras da Igreja que as imagens representam ou aos altares onde as mesmas se encontram habitualmente. Nada foi deixado ao acaso, o que diz muito da dedicação das duas senhoras. Convém ainda salientar o acompanhamento que é dado pelo Sr. José Soares na pintura das flores de pano, no trabalho manual que vai fazendo para que os arranjos florais dos Andores tenham aquele toque de classe por todos extremamente apreciados. É pois, através dessas imagens que preenchem as páginas do nosso Jornal, porque também é importante reconhecer publicamente o trabalho de quem todas as semanas se dedica de alma e coração ao serviço de Deus e da Sua Igreja.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 7 - Outubro de 2008

Procissão em Honra de de S. Miguel Arcanjo - 2008

A devoção de Leça da Palmeira a São Miguel Arcanjo vem de tempos quase imemoriais, pois datam do século XIII os documentos mais antigos que contêm registos de várias designações toponímicas, desde S. Miguel de Palmeira a S. Miguel de Bouças e S. Miguel de Moroça.
Nosso Padroeiro, S. Miguel, cujo nome significa “ quem como Deus”, é também o Padroeiro e Guardião da Igreja Católica universal. Mostrado na arte litúrgica da Igreja como um anjo segurando uma espada ou lança, um escudo e uma balança, aparece igualmente associado a grandes figuras históricas, como Joana D’Arc, a quem terá inspirado na sua luta para salvar a França, durante a Guerra dos Cem Anos.
O seu Dia é 29 de Setembro, quando é celebrado em conjunto com S. Rafael e S. Gabriel, os três gloriosos Arcanjos: S. Miguel, o príncipe da milícia Celeste, aquele que derrotou o mal, S. Gabriel e S. Rafael.

Este ano, o dia 29 calhou numa segunda-feira, o que fez com que a Procissão do padroeiro acontecesse antes do dia festivo. Na missa solene em sua honra foi recitada a ORAÇÃO A S. MIGUEL, que era rezada em todas as celebrações eucarísticas antes da Reforma da Igreja.

Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 7 - Outubro de 2008



Oração a São Miguel Arcanjo
“São Miguel Arcanjo,
defendei-nos neste combate, sede nossa guarda contra a maldade e ciladas do demónio.
Instante e humildemente pedimos que Deus sobre ele impere; e vós, príncipe da milícia celeste, com o poder divino, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos, que vagueiam pelo mundo para perdição das almas. Amén.”



Fotos da Procissão em Honra de São Miguel Arcanjo 2008



























Os Nossos Andores





























































terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Jornadas Mundiais da Juventude - Sidney 2008

Para que se possa conhecer e perceber melhor o que foi esta participação na XXIII Jornada Mundial da Juventude para a vida da Assembleia Paroquial de Jovens de Leça da Palmeira, e tudo o que ela acarretou, decidiu-se escrever este pequeno texto que serve como uma “meditação” ou como uma análise um pouco mais detalhada da mesma.

A primeira questão que se coloca é “como surgiu a oportunidade de participarem na Jornada? De onde veio essa ideia?”

Há cerca de três anos atrás, em 2005, uma amiga nossa e colega de trabalho na Paróquia, a Ana Patoleia, regressou da Jornada Mundial da Juventude em Colónia, na Alemanha. E quando regressou tinha na bagagem muitas histórias, muita alegria e muita Fé. Na altura éramos ainda mais novos, menos experientes. Mas foi neste momento que a vontade de estarmos presentes na Jornada de Sidney se instalou no grupo. Todos nós tínhamos começado a trabalhar mais directamente na APJ há relativamente pouco tempo, mas logo decidimos que a Jornada da Austrália seria um dos nossos grandes objectivos, senão o maior deles.

E a ideia foi-se construindo…

Tínhamos muito pouco. A única coisa que tínhamos de sobra era a vontade. O dinheiro era quase nenhum, a estrutura da APJ estava ainda a ser “re-levantada” e por tudo isso, praticamente ninguém acreditava em nós, naquele bando de jovens que parecia que não tinha os pés bem assentes na terra. Mas fomos trabalhando, “esgravatando” como se costuma dizer. Com pequenos sorteios, com pequenas vendas e alguns donativos, as coisas começavam a erguer-se. Mas o possível preço da viagem que então se especulava também aumentava cada vez mais. Houve muitas vezes a vontade de desistir, a vontade de atirar tudo para trás das costas mas, Ele esteve sempre do nosso lado. Sempre que algum membro do grupo se sentia mais desmotivado, menos confiante, Deus punha sempre outro colega no seu caminho, para juntos lutarem e vencerem esse sentimento.
E o tempo ia passando e o preço ia aumentando com o tempo. 1500, 1800, 2000 euros. Mas havia sempre o medo, o receio de não conseguirmos vencer. Principalmente a partir do último Verão, altura em que a Jornada de Sidney se aproximava mais e começava a ser sentida como um desafio cada vez maior, como uma “obrigação” até para a realização pessoal de cada um. As inscrições no grupo que viajaria pela Diocese do Porto abriram e foi a altura da grande decisão. Vamos ou não vamos? O preço tinha parado nos 2200 euros. Nessa noite tenho a certeza que o sono faltou a muitos membros da APJ. A decisão foi tomada e, perante as possibilidades, chegou-se à conclusão que a APJ seria representada por quatro jovens. Por motivos de trabalho ou de escola, outros colegas que também trabalharam arduamente para o financiamento desta viagem, não puderam participar. A todos eles, mas mais particularmente ao João Teixeira, à Paula Oliveira e à Cláudia Patoleia, o meu agradecimento pessoal. Porque sem eles também não teria sido possível.
Fizemos a inscrição na Diocese do Porto com a decisão de que metade da viagem dos quatro participantes seria paga com o dinheiro conseguido pela APJ nos últimos três anos para esse efeito. E este último ano, foi o ano em que mais trabalho foi exigido, mas o ano em que mais “gozo” tivemos, pois tudo levava à concretização do “tal” sonho.

Ao longo dos 15 dias da Jornada houve muitas emoções, muitos sentimentos…

E o dia 7 de Julho chegou. E finalmente partimos para a Austrália, num misto de alegria, de Fé mas, ao mesmo tempo, de comoção e de lágrimas. Afinal era mesmo verdade! Estávamos mesmo a ir para a Austrália! À medida que a viagem ia decorrendo, à medida que o destino estava cada vez mais perto, cada vez mais nós reflectíamos. “Afinal valeu a pena todo o esforço!”
Mas quando finalmente chegámos a Sidney estávamos ainda mais felizes. E cada dia que passava, estávamos com mais Fé. Cada vez que víamos aquelas multidões a caminhar com um só objectivo, o de unir mais os povos, o de amar mais os irmãos. Também houve lágrimas, houve alturas em que nos sentimos mais perdidos. As emoções são muitas e muitas vezes não as conseguimos compreender bem.
Apesar de tudo, foram 15 dias inigualáveis e inesquecíveis. Recordamos cada minuto com saudade e com muita alegria ao mesmo tempo.

E os 15 dias da Jornada o que é que trazem de novo?

Apesar de ter sido a primeira Jornada para quase todos os representantes de Leça da Palmeira – apenas a Ana Patoleia participou em 2005 –, temos a certeza que cada jornada muda ou aperfeiçoa algo naqueles que nela participam. Lá contactamos com gente de todo o mundo, com realidades muito diferentes daquelas a que estamos habituados e isso torna-nos, de uma maneira ou de outra, diferentes. Existe uma maior vontade de vencer, uma maior vontade de mudar nem que seja o mais pequenino erro. Dos cerca de 500 mil jovens que estiveram nesta XXIII Jornada Mundial da Juventude, estamos certos de que cada um será uma “nova” testemunha de Cristo à sua volta: na família, com os amigos e nas suas paróquias.

Em jeito de balanço…

Depois de tanto trabalho, de tanto sacrifício, estivemos na Austrália. Leça da Palmeira foi vista como uma grande paróquia, pois tinha quatro representantes nesta Jornada. Não foi uma Jornada qualquer. Não que as anteriores mereçam menos respeito, mas Sidney dista 20 mil quilómetros de Portugal. Por isso, agora uma palavra para os colegas que trabalham nesta Paróquia, a qualquer nível, vamos unir-nos ainda mais e fazer ainda mais pelas pessoas de Leça da Palmeira. É possível fazer a diferença!

E depois de Sidney?

Agora o objectivo principal da APJ para os próximos três anos é a preparação para a Jornada Mundial em Madrid. Já nos comprometemos connosco próprios a fazer cumprir este objectivo.
Este texto pode parecer um texto emotivo demais, mas para nós, membros activos da APJ, esta viagem foi muito mais do que uma simples viagem. Foi o principal motivo pelo qual decidimos trabalhar unidos e agora não mais vamos parar.


Dia 2 08/07/08

12h45min – hora portuguesa

Já vamos no 2º dia da nossa grande viagem.
Ontem saímos de Perafita um pouco mais tarde do que era previsto, (como é óbvio). Já tínhamos o nosso rumo bem traçado, o nosso percurso bem definido. A primeira etapa foi Lisboa, onde passámos a primeira noite destes 15 dias que se avizinham, no mínimo, fantásticos.
Fizemos uma pequena paragem na área de serviço de Leiria,, onde o grupo aproveitou para fazer o habitual xixizinho e comer qualquer coisa (ou até para beber uma cervejinha! Xiu! Isso não era para se dizer!). Já pouco faltava para a chegada a Lisboa quando alguns ainda aproveitavam os bancos do mini-bus para dormir, ou então só para fechar os olhos, como a nossa colega Irene ,(sem dúvida!).
Muito animados pela boa disposição do padre Tony e dos outros membros do grupo. Já passava da meia-noite quando chegámos ao sítio onde pernoitámos: a casa dos Padres Espiritanos, mesmo atrás da residência imponente do Sr. Primeiro-ministro, o Engenheiro José Sócrates, (ainda estivemos a ver se o víamos, mas tivemos azar!). Sem fazer nenhum barulho, (claro, claro), “montámos a tenda”, que é como quem diz, arrumámos os nossos sacos-cama para dormir algumas horitas antes da partida para o aeroporto da Portela. À hora combinada (ou depois um bocadinho), lá nos reunimos para o pequeno-almoço e depois, de táxi, rumámos ao aeroporto.
Pensávamos nós que estávamos a chegar cedíssimo, (até fomos entrevistados pelo programa Ecclesia e tudo!), mas não. Os problemas com os vistos e com os nomes trocados começaram e quase ficávamos em terra, mas graças a Deus tudo se resolveu a uns 25 minutos do voo! SORTE!
Lá embarcámos e, até agora, está a correr tudo bem! Já falta pouco para chegarmos a Londres!
A fé está cada vez mais dentro de cada um de nós. Sinto que Cristo está lá longe a chamar por mim e que esse grito se torna cada vez mais nítido, cada vez mais sonante. Como posso eu resistir-lhe? Impossível!
O nosso sonho começou. Há cerca de 2/3 anos sonhámos que podíamos vir até à Austrália. Ninguém acreditou e alguns até tentaram afastar-nos dessa ideia, mas a persistência de Cristo feito jovem em cada um de nós foi maior e graças a Ele estamos a conseguir! Sim, deu-nos muito trabalho, mas cada minuto que estamos a passar está a valer todo o trabalho e esforço do mundo!
“Porque um jovem nunca desiste, muito menos um jovem católico!”

Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Jovens,
Rogai por nós!

Algures, perto de Londres.


Dia 3 09/07/08

14H05min – hora portuguesa

Já estamos no 3º dia da nossa viagem.
Depois de 8 horas no aeroporto de Heathrow, em Londres, que mais parecia uma cidade e não um aeroporto, cá estamos num novo avião. Nessas oito horas fizemos de tudo: comemos, dormimos no chão do aeroporto, o Vilaça, o Mário e o João andaram uma hora só para poder fumar um cigarro, jogámos à sueca durante montes de tempo… Enfim, estávamos super cansados e ainda tivemos de aturar um inglês desdentado que nos mandou retirar toda a nossa bagagem de mão de um sítio para outro! Enfim! Mas as 21h35min lá chegaram e finalmente ‘embarcámos’ na prova de fogo – a viagem de Londres para Singapura, ou seja, doze horas e meia de voo. Mas pronto, era de d noite, deu para dormir e para ver uns filmezinhos. Chegados a Singapura, que tem um aeroporto muito calmo e muito moderno ao mesmo tempo, encontrámos logo um português, o que nos deixou muito felizes, obviamente. O senhor é um emigrante na Austrália que estava de regresso a Portugal para umas férias. Ah! O senhor até nos indicou um clube português em Sidney, onde se come muito boa comida portuguesa, o Frazer Park. Assim, se a fome apertar e o tempo disponível assim o permitir, recorreremos a este clube.
Depois de visitarmos o aeroporto e o seu jardim EXÓTICO, (bastante, mesmo), embarcámos de novo no mesmo avião rumo a Sidney. Para quem aguentou quase treze horas, também aguenta mais estas sete. Tem acontecido de tudo neste avião: ou é uma passageira que come o triplo dos outros; ou é um senhor que veste uma saia, (não, não é um kilt, é mesmo uma saia travada!); ou é um passageiro que reclama com todo o barulho e mais algum; ou são os imensos jovens espanhóis que falam a correr. Mas está a ser divertido. Neste momento, estamos a sobrevoar o Oceano Índico, mesmo junto à Indonésia. Já só faltam 4887kms para chegarmos a Sidney. Está quase, quase!
Sinto-me cada vez mais motivada, cada vez mais com Cristo. Basta que deixemos que o amor de Deus nos toque com o seu espírito de luz e com a sua sombra de paz e de amor.

Santa Rita,
Rogai por nós!


Algures no Oceano Índico.

P.S. O mundo é tão pequeno, que quando chegámos ao terminal no aeroporto de Heathrow, encontrei logo um antigo professor meu e da Rita do instituto de Inglês que agora trabalha no aeroporto, o David Powley! Mal comecei a descer as escadas rolantes e vi aquela longa cabeça calva, percebi logo que era ele e dirigi-me onde estava. E não é que perguntei: “David?” Ao que ele me responde “Yes, Ana!” Meu Deus, como o mundo é pequeno! Já foi meu professor há uns anos, já teve milhares de alunos, mas mesmo assim lembrou-se de mim e da Rita!


Dia 5 11/07/08

17h09min – hora australiana

São cinco horas da tarde e já está de noite aqui em Murrurundi, uma “terrinha” na Diocese de Maintland-Newcastle.
Chegámos a Sidney ontem de madrugada. Depois de mais de um dia de viagem de avião, finalmente aterrámos em Sidney. Fomos buscar as malas e descobrimos que uma mala dum colega tinha ficado em Lisboa. Deram-lhe uns trocos para qualquer necessidade e prometeram que lha entregavam aqui, na sua família d acolhimento. Ainda nem sei se o fizeram. Depois deste contratempo saímos do aeroporto, mas nem vimos o sol – fomos logo apanhar o comboio para Newcastle. Mais duas horas de viagem! Saímos numa estação com um nome engraçadíssimo, “Fassifern”. Chegados a Fassifern, fomos recebidos por umas meninas que nos encaminharam para uma nova viagem, esta bem mais curta e de autocarro. O destino era uma escola onde era feito o acolhimento e o registo na diocese de todos os peregrinos. Aqui almoçámos e logo travámos conhecimentos com outros peregrinos colombianos, ingleses, e até dumas nacionalidades muito estranhas, dumas ilhas do Pacífico que eu nunca tinha ouvido falar. Os jovens que iam chegando, iam-se “acomodando” no terreno da escola. Por volta das 19 horas apanhámos novo autocarro para nova viagem de comboio até Mushelbrook, a paróquia onde iam “atribuir” a família de acolhimento a cada peregrino. Logo travámos novos conhecimentos, desta vez com americanos que estavam doidos para saber a nossa opinião sobre George W. Bush! (risos!) Depois de mais duas horas de comboio, la chegámos à nossa cidade e fomos muito bem recebidos por vários jovens. De seguida, fomos matar um pouco a fome na Igreja Paroquial, seguindo-se um momento de oração e a apresentação às famílias de acolhimento. Eu, a Rita, a Ana Patoleia e a Ana Maria ficámos juntas, mas ficámos um pouco assustadas quando percebemos que nos iriam levar à nossa família de acolhimento, porque era um bocadinho longe. E era! Depois de uma hora de viagem, no carro de um senhor padre que fazia ultrapassagens malucas, lá chegámos à “nossa” casa, em Murrurundi, a casa paroquial. E assustámo-nos ainda mais porque era muito, muito, muito gélida e está desabitada porque o pároco tem duas paróquias. Resumindo, isto é um autêntico congelador. Ligámos os aquecedores, mas o frio continuava. Então decidimos que íamos dormir as quatro na sala de estar em frente a um recuperador de calor a lenha, super quente, mas que só consegue aquecer a sala de estar. Lá passámos a noite a maldizer a nossa sorte, porque não tínhamos família connosco e estávamos completamente perdidas no meio do nada!
Hoje de manhã levantámo-nos e fomos à eucaristia concelebrada pelo pároco daqui, o Padre John, o Padre Alípio e o Padre Mateus. Uma missa meio portuguesa, meio inglesa. Na assistência apenas tínhamos dezassete pessoas, sendo que quatro éramos nós.
A seguir fomos almoçar com o Padre Mateus e com o Padre Alípio a um centro de senhoras benfeitoras. Aí visitámos também uma casinha típica reconstruída onde pudemos comprar algumas lembranças.
Depois, passeámos durante cerca de duas horas de carro pelas redondezas da nossa cidade e finalmente vimos cangurus! Três pequeninos, mas eram três cangurus.

22h – hora australiana

Depois desse passeio fomos jantar com os nossos amigos portugueses que estão na paróquia de Scone. Fiquei um pouco triste porque parece que eu, a Rita, a Ana Maria e a Ana Patoleia estamos mesmo no fim do mundo e que a nossa família de acolhimento não é a mais normal. Já voltámos a casa e estamos a preparar-nos para dormir. Amanhã o dia promete ser longo!

Sagrado Coração de Jesus,
Rogai por nós!

Dia 6 12/07/08

21h30min – hora australiana

Mais um dia da nossa peregrinação. Hoje foi um dia bem divertido! Estivemos com os colegas da paróquia de Scone numa quinta onde vimos ovelhas a serem tosquiadas, cavalos a terem os cascos mudados e alguns instrumentos de aborígenes. Lá, almoçámos com alguns peregrinos ingleses, chineses e americanos, e com as respectivas famílias de acolhimento.
O mais engraçado é que essa quinta é pertença de uma senhora da Igreja Anglicana que disse, e com muita razão, que “se todas as religiões trabalhassem juntas, o mundo seria muito melhor.”
Vamos agora descansar, já nas nossas camas (já não está tanto frio) porque o cansaço nas pernas é muito.

São José,
Rogai por nós!


Dia 8 14/07/08

07h40min – hora australiana

Ora acaba de nascer mais um dia aqui em Murrurundi. É pena ter nascido com chuva. Ontem foi um dia FANTÁSTICO! Estivemos numa outra pequena quinta onde fizemos um pic-nic com todos os portugueses do nosso grupo e com as nossas famílias de acolhimento: cantámos, dançámos, rimos e tudo mais a que tínhamos direito. Foi um convívio muito bonito entre todas aquelas nações juntas em prol da sua Fé que se sente cada vez mais e se torna cada vez mais evidente. Tivemos também uma eucaristia toda em português, incluindo os cânticos jovens que encantaram as pessoas das nossas paróquias de acolhimento de Murrurundi, Scone e Mushelbrook, que são paróquias envelhecidas, sobretudo a de Murrurundi. O dia terminou com um óptimo barbecue (=churrasco) aqui na nossa casa, com todos os portugueses e famílias. Foi o tempo das despedidas. Foi o último dia em que estivemos com as nossas famílias de acolhimento. Daqui a pouco vamos deixar Mururrundi, Scone e Mushelbrook, rumo a Sidney, o ponto mais alto desta longa viagem. Houve algumas lágrimas, muito sentimento e a certeza de que nunca nos vamos esquecer de ninguém, de nenhuma cara, ainda que idosa, que durante estes quatro dias apenas viveram para nós, apenas viveram para que nada nos faltasse e estivéssemos bem. Apesar de todos os defeitos da casa, apesar de estarmos numa terra quase no fim do mundo, o balanço é muito positivo. Não chegam todas as palavras de agradecimento do mundo para expressar toda a nossa gratidão para com os nossos “papás” de Murrurundi. Eu, a Rita, a Ana Maria e a Ana Patoleia, apesar de não termos uns pais de acolhimento “permanentes”, visto que estivemos a dormir sozinhas na nossa casa, temos de agradecer tudo aquilo que todos estes velhinhos fizeram por nós as quatro, as suas “girls” (= meninas).
Houve momentos em que chorei, em que me senti muito perdida aqui, porque afinal estivemos sozinhas na casa, mas agora percebo que afinal, os nossos “papás” todos, fizeram tudo, mas tudo o que estava ao alcance deles para que todas gostássemos da nossa estadia aqui na sua humilde terra.
Bem, agora venha Sidney. Venha o encontro com o Santo Padre. Venha mais e ainda mais Fé!

Nossa Senhora de Fátima,
Rogai por nós!


Dia 11 17/07/08

15h45min – hora australiana

Estamos no comboio. Estes dias têm sido absolutamente fantásticos. Super cansativos mas absolutamente maravilhosos.
Depois de cerca de quatro horas de viagens de comboio de Newcastle até Sidney, chegámos à Holy Family School, onde estamos alojados. Nesta escola primária estão também austríacos e os outros portugueses que vieram pelo Departamento Nacional e pelo Patriarcado de Lisboa.
No segundo dia em Sidney, de manhã visitámos a St. Mary’s Cathedral, que é considerada a mais bonita das catedrais de toda a Austrália e que recebeu alguns restauros para que se tornasse ainda mais bela aos olhos dos jovens peregrinos que a visitam. Uma catedral magnífica com cerca de cento e vinte e cinco anos, com belíssimas colunas, pinturas celestiais e acabamentos perfeitos. Depois desta visita estivemos em Barangaroo, onde almoçámos, assistimos à missa de abertura da Jornada Mundial da Juventude, celebrada pelo Arcebispo de Sidney. Foi no caminho da Catedral para Barangaroo que percebi que estou na Austrália, que realmente estou numa Jornada Mundial da Juventude. Em Barangaroo, trezentos mil jovens concentrados naquela mostra de Fé, comunhão e amor. Trezentos mil jovens apenas com Cristo no coração. Trezentos mil jovens de todo o mundo a transpirarem alegria. O jantar também foi servido no Barangaroo, seguindo-se o Festival Jovem que encantou toda aquela juventude. Mas o cansaço era tanto que tivemos de voltar à nossa escola para o merecido descanso.

22h – hora australiana

No dia seguinte, ou seja, ontem, tivemos uma catequese de manhã na Igreja mesmo em frente à “nossa” escola. O nosso catequista foi um Senhor Bispo auxiliar de Braga. O Espírito Santo foi, obviamente, o tema dessa catequese. Centenas de jovens portugueses e brasileiros entoando cânticos e meditando naquelas palavras tão certas e tão bonitas. Depois da catequese, participámos na eucaristia, também muito alegre e juvenil, como era de esperar.
Depois do almoço na nossa escola, partimos à descoberta de Sidney: fomos a um Aquário e ao Wildlife of Sidney. Foi uma visita giríssima onde pudemos ver animais que só podem ser vistos na Austrália, como cangurus, coalas, e até as mais perigosas cobras e os mais raros repteis e insectos.
O jantar foi, normalmente, servido no Barangaroo, onde também estivemos a assistir a dois concertos no Festival da Juventude. Só depois voltámos à escola, que fica a vinte minutos a pé de Barangaroo até à estação dos comboios e cerca de vinte e cinco minutos de comboio mais.

Santa Maria do Cruzeiro do Sul,
Rogai por nós.
Dia 12 18/07/08

08h30min – hora australiana

Ontem foi um dia também muito cheio, como os outros também têm sido, aliás.
De manhã fomos visitar a Torre de Sidney. Deslumbrámo-nos com a imensa e magnífica vista sobre esta cidade enorme, linda e cosmopolita.
Ao almoço decidimos procurar a Comunidade portuguesa aqui em Sidney. E conseguimos. Rumámos a Petersham, onde fomos logo muito bem recebidos por toda a gente por quem íamos passando. Logo encontrámos um restaurante português e até entrámos a cantar o hino nacional. Foi fantástico e delirante, sentir todo aquele amor ao nosso país por parte daquela gente que tem a sua vida agora edificada a mais de vinte mil quilómetros de distância da sua terra natal.
Comemos uma boa refeição, bebemos um café, (como já não bebíamos há mais de uma semana), e rimos. Rimos muito! Desejaram-nos muito amor, muita felicidade, muitas graças! Voltámos a Sidney, desta vez para vermos o Santo Padre chegar e dar a sua primeira palavra aos milhares de jovens de todo o mundo, de todos os cantos da terra. E vimo-lo passar mesmo, mesmo à nossa frente. O seu sorriso e a sua bênção fizeram-nos sentir tão bem. Naquele momento senti-me muito pequenina, muito minúscula em comparação com tanta Fé, com tanta devoção que cada jovem demonstrava no seu olhar. Meu Deus!
Agora vai começar a nossa catequese de hoje. Vai concerteza “encher-nos”, tal como o Espírito Santo nos tem “enchido” nesta Jornada Mundial da Juventude.


Sagrada Família,
Rogai por nós!

Dia 12 18/07/08

23h30min – hora australiana

Mais um dia que passou e meu coração parece que vai rebentar de tanta felicidade. Parece exagero, mas os dias aqui parecem intermináveis e sempre tão “produtivos”.
Esta tarde tirámos um tempinho para umas compras em George Street, uma das mais conhecidas aqui em Sidney. Depois dessas comprinhas, depressa rumámos a Barangaroo para daí assistirmos à Via-sacra que, diga-se, foi fantástica: de uma parte à outra da cidade, dezenas de actores e actrizes VIVERAM estes episódios da vida de Cristo. O sentimento deles era tão forte que facilmente o conseguiram transmitir e colocar nos milhares de jovens concentrados em Sidney. Então quando o “elenco” chegou a Barangaroo para as últimas estações é que a Fé falou ainda mais alto. Os jovens todos em pé, com as lágrimas caindo pelo rosto de muitos. Que sensação! Impossível explicar o que se sente numa altura destas. Indescritível, sem dúvida!
Mais um jantar no Barangaroo, e mais uma noite de Festival da Juventude. A última. Amanhã partimos para Randwick para O grande fim-de-semana das nossas vidas. Ainda nem acredito!

Senhor Jesus,
Rogai por nós!

Dia 13 19/07/08

04h30min – hora australiana

É cedíssimo mas já estamos a caminho de Randwick. Não há sono em nós, só esperança, só Fé, só vontade de vencer com Cristo. Vai ser um dos grandes fins-de-semana das nossas vidas. Não tenho dúvidas.

09h00min – hora australiana

Chegámos a Randwick onde vamos passar estes dois dias. Já nos acomodámos aqui. Parece que fomos os primeiros a chegar, (nem parece que somos portugueses)! Agora todos descansam e dormem mais um pouco. Estão quase a chegar as “grandes” horas. Nem quero pensar!

Espírito Santo Criador,
Rogai por nós!


Dia 14 20/08/08

19h00min – hora australiana

Já é domingo. Já “passou” o fim-de-semana.
Ontem estávamos todos a descansar durante a manhã, quando vimos que se aproximavam os nossos amigos americanos que conhecemos no primeiro dia aqui na Austrália e com quem estivemos quando fomos para Sidney, depois da semana nas famílias de acolhimento. Que sensação! Pensávamos que nunca mais os iríamos ver na vida, mas Deus “faz” destas coisas, e decidiu trazê-los para perto de nós. Que alegria! A partir daí não mais nos “separámos” e passámos o fim-de-semana juntos.
A noite de Sábado chegou e trouxe consigo a vigília que, no mínimo, foi estrondosa. E não estou a exagerar na palavra. Para mim, a mais emocionante da minha vida! Aquelas centenas de milhares de velas, aqueles milhares de olhos todos postos em Sua Santidade, aqueles milhares de ouvidos que escutavam atentamente as suas palavras e aqueles milhares de corações que faziam aquelas milhares de bocas inundar de Fé, inundar Cristo feito jovem, faz tremer e arrepiar qualquer um. E ouvir quinhentos mil jovens entoar o lindíssimo hino desta Jornada Mundial é no mínimo arrepiante. Dá vontade de gritar e faz-nos prometer que Jesus jamais morrerá em cada um de nós! Jamais! E a missa desta manhã tornou ainda mais firme essa convicção. Inesquecível e indescritível mesmo!
Ainda não saímos da Austrália e já temos saudades de tudo o que aqui vivemos. Para sempre recordaremos cada minuto.

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, padroeira da Austrália,
Rogai por nós!





Dia 16 22/07/08

19horas – hora portuguesa

E chegou ao fim a nossa peregrinação, depois de quase vinte e quatro horas de avião com pequenas paragens em Singapura e em Londres.
Chegados a Lisboa, já só queríamos chegar ao Porto para junto das nossas famílias e dos nossos amigos. Apesar de toda a felicidade e entusiasmo vividos na Austrália, as saudades de casa e da família já começavam a apertar.
Aqui, os sentimentos confundiram-se. Havia a vontade de vir para casa, a vontade de voltar para Sidney. Mas lá chegámos e concerteza que todos contámos as imensas novidades que trazíamos das terras do Sul. Mas tenho a certeza absoluta que o coração de cada um de nós está cheio, está cheio de Fé e com vontade de gritar ao mundo que Cristo é o Caminho, que Cristo é a Verdade, que Cristo é a Vida!

Espírito Santo,
Rogai por nós!











Uma reflexão teológica acerca do Hino “Receive the Power”

O tema escolhido para ser o Hino da XXIII Jornada Mundial da Juventude, “Receive the Power” (“Recebe a Força”) foi escrito “à volta” do tema escolhido por sua Santidade o Papa Bento XVI, “Recebereis força quando o Espírito Santo descer sobre vós e sereis minhas testemunhas.” (Actos, 1:8). Este tema está dividido em duas partes: por um lado, Cristo reforma a Sua promessa de mandar o Espírito Santo; por outro lado, Cristo chama à responsabilidade os seus seguidores – a vida que essa força exige: os discípulos têm de ser Suas Testemunhas até aos confins da Terra.

Diálogo no Espírito entre Cristo e os jovens discípulos

A canção efectivamente capta os dois aspectos do tema. No refrão, Cristo endereça aos jovens do mundo uma saudação “Aleluia, aleluia! Recebe a força do Espírito Santo. Aleluia, aleluia! Recebe a força para seres uma luz no mundo”. Nos versos, os jovens respondem “nós Te seguiremos até aos confins da Terra”; “nós responderemos e faremos a Tua vontade”; “nós Te adoramos”. Este diálogo no Espírito, entre Cristo e os seus jovens seguidores, está no coração da Evangelização, da Catequese, do acto de acreditar e adorar. É o coração da Jornada Mundial da Juventude.


Um dos objectivos das Jornadas Mundiais da Juventude é a redescoberta, por parte dos jovens, das riquezas do Mundo de Deus, da Sagrada Escritura. Toda a letra do Hino “encaixa” na perfeição no tema da Jornada de Sidney e não só a sua parte central. Como os Actos dos Apóstolos deixam bem claro: a Graça do Espírito Santo é dada aos discípulos para que eles possam testemunhar a Palavra de Deus.

O Hino é uma reflexão

O tema da Jornada Mundial da Juventude 2008 chama-nos à reflexão acerca da força que o Espírito Santo tem nas vidas dos jovens. O Hino invoca o Espírito Santo três vezes no refrão, como Cristo que convida os jovens a “receber a força do Espírito Santo”. Os jovens respondem no verso “Como o Teu Espírito nos chama, nós respondemos e faremos a Tua vontade”. A especificidade do Hino torna-o particular para a Jornada Mundial da Juventude 2008, mas ao mesmo tempo muito abrangente.

O Hino é bíblico

O tema da Jornada Mundial da Juventude 2008 é tirado das últimas palavras que Cristo disse aos seus discípulos antes de subir para o Pai. A promessa do Espírito Santo é especificamente ligada por Cristo para chamar os discípulos para que fossem Suas testemunhas até com o martírio. Mas, para quem? O Espírito Santo fortifica os jovens não para darem testemunho a eles próprios, não para darem testemunho ao Espírito, mas serem testemunhas de Cristo.

Especificidade e continuidade

Embora a canção seja muito específica ao tema da Jornada Mundial da Juventude 2008 – com as suas múltiplas referências à força e ao poder do Espírito Santo e às jovens testemunhas – também se interliga e unifica com os grandes temas catequéticos escolhidos pelo “pai” das Jornadas Mundiais da Juventude, o Papa João Paulo II: “Emmanuel” (Jornada Mundial da Juventude 2000, Roma), “Light to the world” (Jornada Mundial da Juventude 2002, Toronto) e “Nós Te adoramos” (Jornada Mundial da Juventude 2005, Colónia).
Assim, a canção expressa, quer a especificidade da Jornada Mundial da Juventude 2008 em Sidney, quer a continuidade de mais de vinte anos de Jornadas Mundiais, e a de mais de dois mil anos de proclamação da Palavra de Cristo, desde o Arcanjo Gabriel que primeiro chamou Jesus o “Emanuel” (Deus connosco), e João Baptista que o identificou como o “Cordeiro de Deus”.

Padre Anthony Fisher

Hino da Jornada Mundial da Juventude, Sidney 2008
“Recebe a Força”

Cada nação, cada tribo
Vêm juntas para Te adorar
Na tua presença nos alegramos
Iremos seguir-te até aos confins da Terra

Aleluia! Aleluia!
Recebe a Força, do Espírito Santo
Aleluia! Aleluia!
Recebe a Força para ser uma luz para o Mundo!


O Teu espírito nos chama
Nós responderemos e faremos a Tua vontade
Testemunharemos para sempre
A Tua piedade e o Teu amor

Cordeiro de Deus, nós Te adoramos
Nosso Senhor, nós Te adoramos
Corpo de Vida, nós Te adoramos
Emanuel, nós Te adoramos

Cordeiro de Deus, nós Te adoramos
Nosso Senhor, nós Te adoramos
Corpo de Vida, nós Te adoramos
Emanuel, cantaremos para sempre!


Os Números da Viagem


4 – os participantes na Jornada Mundial da nossa paróquia

22 – o número de jovens que viajaram até à Austrália com a Diocese do Porto

24 – o número aproximado de horas de avião que distam Portugal e a Austrália

26 – os cardeais que estiveram nesta Jornada Mundial

100 – os actores que participaram na Via Sacra de sexta-feira, dia 18

400 – as cidades e aldeias da Austrália por onde a Cruz dos Jovens e o Ícone de Nossa Senhora passou durante 12 meses de peregrinação pelo país

420 – os bispos participantes

450 – os festivais juvenis realizados na Jornada Mundial em 100 lugares diferentes de Sidney

2 mil – os jornalistas que fizeram a cobertura do evento

4 mil – os sacerdotes e diáconos que participaram no evento

8 mil – o número de voluntários que prestaram serviços nos diferentes eventos

223 mil – os jovens que participaram nas actividades da Jornada Mundial

400 mil – as pessoas que participaram na Missa Final em Randwick, a mais numerosa da história da Austrália

500 mil – o número de pessoas que deram as boas-vindas ao Papa Bento XVI na tarde do dia 17 de Julho
25 milhões – as refeições foram servidas entre os dias 15 e 20 de Julho

Glossário
Para que se perceba um pouco melhor a dinâmica e o funcionamento desta Jornada Mundial da Juventude, deixamos aqui alguns “termos” que fizeram parte do nosso dia-a-dia durante 15 dias.

Murrurundi – a pequena vila que acolheu a Ana Isabel, a Rita Calejo e a Ana Patoleia, três das “leceiras” na Jornada

Scone – a pequena cidade que acolheu o resto dos peregrinos do grupo da diocese do Porto

Granville – a estação dos comboios em que tínhamos de sair para irmos para a escola onde estivemos acolhidos durante a estadia em Sidney

Barangaroo – amplo local em Sidney onde a maioria dos peregrinos se concentrava para as refeições, para assistir à Missa de Abertura da Jornada, à Via-Sacra e onde foram dadas as boas-vindas ao Papa Bento XVI aquando da sua chegada

Randwick – hipódromo que acolheu as 400 mil pessoas que participaram na Vigília de sábado à noite, dia 19 de Julho e na Missa Final de domingo, dia 20

Reportagem elaborada na íntegra pelos participantes das jornadas e membros da Assembleia Paroquial de Jovens de Leça da Palmeira, Ana Isabel Faria, Ana Patoleia, Rita Calejo e Simão Bártolo.

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 6 - Setembro de 2008

Festarte 2008 - Património Imaterial Cultural da Humanidade

Sob o Signo da UNESCO

Decorreu entre os dias 24 de Julho e 4 de Agosto o 11º FESTARTE – Festival Internacional de Artes e Tradição Popular de Matosinhos, que este ano trouxe ao nosso concelho grupos folclóricos oriundos de seis Países, desde a Ásia até à América Latina, passando pela Europa maioritariamente representada como vem sendo habitual. Este ano o FESTARTE procurou chamar a atenção para a Salvaguarda do Património Imaterial Cultural da Humanidade, adoptada a 17 de Outubro de 2003, na 32ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO. Sendo o FESTARTE um festival CIOFF (Comité Internacional de Organizadores de Festivais de Folclore e Artes Tradicionais), nada faria mais sentido do que promover e naturalmente salvaguardar esse Património Imaterial Cultural. Essa Convenção da UNESCO foi ratificada por decreto do Sr. Presidente da República de 26 de Março de 2008 e igualmente aprovada pela Assembleia da República. Para que possamos perceber exactamente do que se trata, aproveito as palavras do presidente do FESTARTE, Raul Neves, que na sua mensagem aos participantes do Festival, transcreve o artigo 2 dos 40 existentes nessa resolução:
“1) Entende-se por “património cultural imaterial” as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as Comunidades, os Grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural. Esse património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas Comunidades e Grupos em função do seu meio, da sua interacção com a natureza e da sua história, incutindo-lhes um sentido de identidade e de continuidade, contribuindo, desse modo, para a promoção do respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana. Para os efeitos da presente Convenção, tomar-se-á em consideração apenas o património cultural imaterial que seja compatível com os instrumentos internacionais existentes em matéria de direitos do Homem, bem como as exigências de respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos e de desenvolvimento sustentável;
2) O “património cultural imaterial”, tal como definido no número anterior, manifesta-se nomeadamente nos seguintes domínios:
a) Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial;
b) Artes do espectáculo;
c) Práticas sociais, rituais e eventos festivos;
d) Conhecimentos e práticas relacionados com a natureza e o universo;
e) Aptidões ligadas ao artesanato tradicional.”
Se olharmos para o FESTARTE como um todo verificamos que, de facto, este Festival abrange quase todos, senão mesmo todos os itens da referida convenção, envolvendo não só os participantes no certame, mas a população de Matosinhos naquela que é considerada por muitos como a maior manifestação cultural do Concelho. Há que continuar a fortalecer aquilo que ao longo de 11 anos o FESTARTE tão duramente procurou transmitir, para que todos juntos possamos ajudar a salvaguardar o agora chamado “Património Imaterial Cultural da Humanidade”.

O FESTARTE Dia a Dia

foram os espectáculos, actuações e eventos que os grupos participantes no FESTARTE tiveram de efectuar. Ao longo de 10 dias houve oportunidade para apreciar o esplendor dos seus trajes, a magia das suas danças, o som único dos seus instrumentos e até provar o sabor da sua gastronomia. O FESTARTE começou no dia 25 de Julho, como vem sendo hábito com o hastear das bandeiras acompanhado dos respectivos hinos dos Países participantes, numa cerimónia sempre muito aguardada, sobretudo pela emoção que causa a sonoridade de cada hino nacional. Nesse mesmo dia, às 21.30, na Praça Eng. Fernando Pinto de Oliveira, realizou-se a Gala de Abertura do Festival, durante a qual todos os Grupos fizeram como que a sua apresentação. O FESTARTE prosseguiu no sábado, com o Encontro de Etnografia e Folclore no Auditório Infante D. Henrique na APDL, sendo também neste dia a abertura da Feira Internacional de Artesanato. Domingo, dia 27 de Julho, foi, como seria de esperar, o dia grande do FESTARTE com a Eucaristia Ecuménica presidida pelo Rev. Padre Fernando Cardoso de Lemos, que contou com a participação de todos os Grupos. Após o almoço, deu-se o desfile pela Avenida Dr. Fernando Aroso até à Feira de Artesanato, com passagem pelo Salão Nobre da Junta de Freguesia para a Recepção Oficial do XXI Festival Internacional de Folclore. Após estes dois eventos teve lugar o Festival Internacional de Folclore, que para além dos Grupos estrangeiros contou ainda com a presença dos portugueses Grupo Típico “O Cancioneiro” de Águeda, Grupo Etnográfico de Danças e Cantares do Minho – Lisboa, Rancho Folclórico de Gouxaria – Alcanena, Grupo Folclórico da Casa do Povo de Ceira – Coimbra e os Grupos organizadores do FESTARTE: Rancho Típico da Amorosa e Rancho Típico de S. Mamede Infesta. O que não ajudou nada à festa foi o estado do tempo que ao longo do dia se foi agravando, acabando por impossibilitar a animação nocturna da Feira de Artesanato pelo Grupo Paroquial de Teatro, assim como o encerramento do dia. Na segunda-feira, dia também bastante preenchido em termos de programação, teve lugar nas ruas Brito Capelo e Parque Basílio Teles a já habitual animação de rua seguindo-se a recepção oficial do FESTARTE no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos. De tarde, os grupos tiveram oportunidade de participar nas Galas Folclóricas de Solidariedade, nomeadamente na Associação Lavrense de Apoio ao Diminuído Intelectual – ALADI onde esteve presente o Grupo da Espanha, na Cadeia Feminina de Santa Cruz do Bispo que contou com a presença do Grupo da República Checa e no Lar de Santana em Matosinhos, que teve a participação do Grupo da Argentina. À noite, em Santa Cruz do Bispo, teve lugar uma Gala Folclórica com os Grupos da Hungria e da Sérvia, tendo a animação da Feira de Artesanato estado a cargo do Grupo de Taiwan. Terça-feira, dia 29 de Julho, foi o dia livre do FESTARTE, sendo apenas de salientar a animação da Feira de Artesanato pelo Rancho Típico da Amorosa. No dia seguinte, pelas 10 horas, deu-se inicio aos Ateliês de Dança, no Adro da Igreja Matriz de Leça da Palmeira, com a presença dos Grupos da Sérvia e da Espanha. Da parte de tarde teve lugar no Auditório Mário Rodrigues Pereira, em Lavra, a Gala Folclórica da 3ª Idade, com a participação de todos os Grupos Estrangeiros. O FESTARTE prosseguiu, à noite, nas Igrejas Matriz de Leça da Palmeira, Santa Cruz do Bispo e São Mamede Infesta, com os habituais recitais de música tradicional sempre com muito público, aliás uma constante ao longo de toda a programação. Na quinta e sexta-feira prosseguiram os Ateliês de Dança, com a presença dos Grupos de Taiwan e Hungria, (quinta-feira), e República Checa e Argentina, (sexta-feira), sendo que no fim da tarde de quinta-feira teve início o Festival de Gastronomia, este ano com a particularidade de os Grupos oferecerem o jantar à população que previamente se inscreveu e que no ano transacto havia oferecido o almoço no dia das Famílias. A Feira de Artesanato terminou na sexta-feira, com fogo-de-artifício, (pouco, que o dinheiro não dava para mais…), que acabou por ser uma pequena surpresa preparada pelos responsáveis da Feira. O FESTARTE prosseguiu no sábado, dia 2 de Agosto, com o Festival de Folclore e respectivo desfile etnográfico, em São Mamede Infesta, e no domingo, em Matosinhos com o respectivo Festival e encerramento do FESTARTE.

Os Grupos Participantes

Compañia Flamenca Cármen Guerrero
Cadiz / Andaluzia – Espanha

A “Companhia Flamenca Cármen Guerrero” chega-nos da comunidade da Andaluzia, com uma população de 7 478 432, o que corresponde a 17,9% da população total do País, para uma área de 85,70 Km2. Fiel representante do Folclore Andaluz, a Companhia Flamenca Cármen Guerrero foi formada em 1986, por Luís Guerrero. Dentro do flamengo, a companhia movimenta todo o ano algumas centenas de jovens que são o suporte dos espectáculos que apresenta. Trouxeram ao FESTARTE os sons da guitarra flamenga com as vozes inconfundíveis da Andaluzia e expressões corporais que fizeram a delícia dos mais exigentes.







Los Mackay Y Ballet Malambo Argentino
Argentina

O Grupo que representou a Argentina nesta 11ª edição do FESTARTE, “Los Mackay Y Ballet Malambo Argentino”, é um fiel representante das tradições da região de Buenos Aires, nomeadamente do tango que é uma dança a par. Tem forma musical binária e compasso de dois por quatro. A coreografia é complexa e as habilidades dos bailarinos são celebradas pelos aficcionados. Segundo Discépolo, “o tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Sua origem encontra-se na área do Rio da Prata, na América do Sul, e nas cidades de Buenos Aires e Montevideu.







Bartina Folkdance Ensemble
Szekzárd – Hungria

Desta República do centro da Europa, chegou-nos o “Bartina Folkdance Ensemble” representante de uma cultura (popular) muito apreciada. É um grupo sério, autêntico pilar na educação dos mais jovens, foi formado em 1966 numa escola local, sendo um dos fiéis representantes do folclore magiar. A sonoridade deste grupo é apoiada por um grupo de instrumentistas verdadeiramente extraordinários, que são uma mais valia nos concertos apresentados.








The Ensemble Akademsko Drustvo
Belgrado – Sérvia

O “The Ensemble Akademsko Drustvo” de Belgrado está sedeado numa academia de jovens cuja vertente académica se reflecte no trabalho que apresentam em palco. A qualidade e o rigor nas suas apresentações públicas são fruto de uma tarefa obrigatória nas disciplinas que desenvolvem ao longo do ano lectivo e que são avaliadas de acordo com a pesquisa e com a teoria apresentada. O resultado desde trabalho obedece a práticas posteriores que resultam no palco em expressões sublimes nas suas actuações. São acompanhados por músicos verdadeiramente extraordinários.







Taiwan Youth Dance Company
Taiwan

A História de Taiwan quase se perde no tempo, e remonta a aproximadamente 5000 anos. Navegadores portugueses alcançaram a ilha em 1544, baptizando-a de Ilha Formosa. No Século XVII a ilha é colonizada pelos holandeses, mas estes são pressionados a abandonar a ilha em 1662. Alguns séculos depois e após a Guerra Sino-Japonesa, em 1895, a China foi forçada a ceder perpetuamente Taiwan ao Japão. Com o terminar da Segunda Guerra Mundial em 1945, sob os termos do tratado de rendição do Japão, os Nipónicos aceitam que a ilha seja transferida para o domínio chinês. Por tudo isto, foi muito apetecível apreciar o “Taiwan Youth Dance Company” que trouxe toda a alegria deste povo simpático que nos chegou desta parte do mundo do sol nascente.





Folk Ensemble Handrlák
República Checa

O “Folk Ensemble Handrlák” é visto como um dos mais invulgares representantes desta jovem república, pela qualidade dos espectáculos que nos apresenta. Com músicos verdadeiramente virtuosos, fomos à descoberta da magia dos sons únicos do povo boémio, com a sua extraordinária orquestra. A sua gastronomia, recomendada para paladares mais apurados, completaram a lista de motivos para uma participação muito apreciada.













O Festival de Folclore

Mais do que mil palavras as imagens falam por si. Simplesmente deslumbrante. Um agradecimento especial ao António Barros do Rancho Típico da Amorosa, que gentilmente enviou todas as imagens para publicação


A Feira de Artesanato
Sempre com animação diária, excepto na quarta-feira, que foi o dia dos recitais na Igreja, a Feira de Artesanato deste ano teve a particularidade de se alargar um pouco mais, com o número de expositores a passar dos habituais 15 para 20,o que obrigou a um maior trabalho logístico. A Feira estendeu-se até às traseiras do Salão Paroquial o que conferiu ainda mais cor e movimento a um adro já de si bastante movimentado durante os dias em que a Feira esteve aberta ao público. Saliente-se que, mais uma vez, marcou presença a “Tasquinha lá de cima”, que é como quem diz, do Monte Espinho, que serviu, (e de que maneira), apetitosos petiscos que fizeram as delícias de quantos lá jantaram ao longo da semana. Saliente-se aqui a presença assídua do nosso Pároco, afastado há já algum tempo das lides nocturnas por motivos de saúde, mas que nestes dias de FESTARTE, fez questão de jantar com os seus colaboradores na afamada “Tasquinha”. Para terminar e porque não podemos deixar de o fazer, fica a eterna pergunta a quem de direito: “PARA QUANDO UNS STANDS COM VERDADEIRAS CONDIÇÕES?” Fica aqui uma vez mais a questão, endereçada aos responsáveis pelo FESTARTE, mas também e sobretudo aos órgãos Autárquicos, Junta de Freguesia e Câmara Municipal. Ficamos a aguardar uma resposta se acharem por bem fazê-lo.

O Meu Lamento

Não haverá porventura factores negativos de grande monta a apontar. A organização do FESTARTE já tem muitos anos disto e portanto já se mostram rotinados. No entanto, há alguns detalhes que convém melhorar ou talvez até modificar, quem sabe. Em primeiro lugar, os hinos dos Países: este ano as coisas não correram muito bem, ao contrário dos anos anteriores, com alguns a falhar ou porque não era aquele hino, por força das modificações políticas entretanto operadas ou porque os responsáveis pelo som não testaram convenientemente o funcionamento da aparelhagem. Seja por que motivo for, não se justifica nos dias de hoje que os hinos, estejam eles em formato mp3, wmp ou outra coisa qualquer, não possam ser correctamente executados. Requer-se mais atenção para o ano, para que erros deste tipo não voltem a acontecer. Em segundo lugar, o meu lamento vai para a animação da Feira de Artesanato ou falta dela - não que os Grupos não estivessem lá, mas grande parte deles não percebeu que a intenção era trazer as pessoas à dança. Aliás é para isso que elas lá estão, esperando ansiosamente que as levem para o tablado. Grupos houve que se esqueceram por completo de o fazer. Por último, e porque não quero ser um crítico voraz do FESTARTE, pois sou até um dos seus mais acérrimos defensores, lamento que o stand da Argentina apenas estivesse presente em um ou dois dias, já que nos restantes nem vê-los. Mesmo no grande dia da Feira de Artesanato, (domingo), apenas se dignaram ir buscar o artesanato e ir embora. Para o trabalho que dá montar a Feira de Artesanato, com uma lista de espera de expositores, sempre à espreita de um lugar na Feira, ter um stand vazio na maior parte do tempo não abona em nada ao seu crescimento, isto já para não falar nas inúmeras referências à “não” presença do Grupo. Enfim.....

Nota Final
Passou mais um FESTARTE, neste caso o 11º. Ficamos sempre à espera do próximo, o que por si só justifica o sucesso de mais uma edição. A Organização primou como sempre pela competência e seriedade durante todo o Festival. Na reportagem que fiz, em 2007, referi várias vezes ao longo do artigo que escrevi, que aquele fora “O Melhor Festarte de Sempre”. Este ano tenho de manter a mesma opinião. O ano passado foi até agora o melhor FESTARTE de sempre. Nem a presença nos últimos dois dias do Grupo Mexicano serviu para ofuscar o grande sucesso do 10º FESTARTE. Faltou um “bocadinho assim”, como diz a publicidade. Faltou mais entusiasmo, faltou mais empenho por parte dos Grupos, faltou algo mais para fazer a diferença. Nota positiva para o jantar oferecido à população que recebeu os Grupos, em 2007 - foi a grande novidade este ano, e com tanto sucesso que pode ser uma boa ideia para repetir em próximos Festivais. Por último, merece destaque a presença do Grupo Mexicano no encerramento da Feira de Artesanato, o que engrandeceu o FESTARTE. A sua música contagia, alegra, anima e sobretudo faz uma grande festa. Chegaram fora do programa oficial do FESTARTE, mas ainda bem que chegaram a tempo de fechar com chave de ouro a Feira de Artesanato e o próprio FESTARTE. Que venha a 12ª edição, que da 11ª já reza a história.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 6 - Setembro de 2008

quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Do Tempo dos Eléctricos

Há tempos o Arqt.º José Salgado autografou-nos um dos números da nova monografia de Matosinhos com a dedicatória: “Em lembrança dos velhos tempos dos eléctricos…”. Esta tocou-nos o coração e espevitou-nos a memória relativamente a um meio de transporte que utilizámos, e com o qual convivemos durante toda a nossa vida de estudante e que vimos, com tristeza desaparecer primeiro da paisagem de Leça da Palmeira e mais tarde praticamente de toda a cidade do Porto e arredores, assistindo agora a um ressurgir tímido mas de saudar.
Sempre conhecemos como entidade exploradora dos carros eléctricos, o Serviço de Transportes Colectivos do Porto, vulgo S.T.C.P., com sede na avenida da Boavista, onde nos deslocámos para tratarmos do passe de estudante, documento que nos permitia viajar para o Liceu Nacional D. Manuel II, no Porto, a um preço mais acessível. Estamos até convencidos que, para além do esforço de toda a família, principalmente do nosso pai, foi um facto que nos permitiu frequentar o liceu; pois, o acesso ao Porto era fácil e rápido, uma vez que de Matosinhos à Carvalhosa demorava trinta minutos, ao preço de 1$20 (doze tostões) mas que logo subiu para 1$50 (quinze tostões).
Sabemos também que o S.T.C.P. sucedeu à Companhia Carris de Ferro do Porto e à Companhia Carril Americano, as quais asseguraram durante muitos anos os transportes públicos para Matosinhos e Leça da Palmeira a tracção a vapor e a tracção animal, respectivamente. Mais modernamente passou a ser utilizada a tracção eléctrica.
Os carros americanos, a tracção animal ainda chegaram a vir a Leça, contudo do que as gerações menos novas se lembram é dos nossos queridos carros eléctricos, das linhas 1, 5, 16 e 19 que proporcionavam viagens maravilhosas nos seus trajectos do Porto até Leça e volta.
A Linha 1 era um espectáculo! Com um percurso ente a Praça da Liberdade (D. Pedro) e a praia de Leça da Palmeira, sempre pela marginal, junto ao mar, tendo normalmente um atrelado.
A Linha 5, também normalmente com atrelado, fazia o trajecto da praia de Leça ao Carmo, subindo a Avenida da Boavista, passava a rua do mesmo nome, Carvalhosa, Cedofeita, Praça de Carlos Alberto e Cordoaria, contornando o edifício da Faculdade de Ciências, passava os Leões, descia ao Hospital de Santo António, entrava na Rua do Rosário, vinha à Carvalhosa, retomando a partir daí o caminho de ida.
A Linha 16 fazia o percurso de Leça, junto ao actual quartel dos Bombeiros de Leça da Palmeira, onde fazia agulha; isto é, mudava de linha, tendo como consequência ser necessário virar os bancos, para o que os mesmos tinham as costas móveis. Subia a Avenida da Boavista em direcção à Praça da República, descia Gonçalo Cristóvão, entrando na Rua de Santa Catarina a caminho da Praça da Batalha, a qual contornava fazendo o mesmo percurso no regresso.
A Linha 19, fazia o trajecto entre a Praça da Liberdade e Leça, até junto aos bombeiros; subindo as ruas dos Clérigos e Carmelitas, atravessava a Praça dos Leões, jardim do Carregal, entrando na Rua de D. Manuel II, Palácio, rua Júlio Dinis, rotunda da Boavista (Praça Afonso de Albuquerque) descia a Avenida em direcção a esta nossa linda terra.
Feita esta vista panorâmica sobre os trajectos não podemos deixar de referir alguns episódios relacionados com carros eléctricos, que nos marcaram, como o acidente do nosso irmão Joaquim que quando tentava apanhar o eléctrico já em andamento, que o transportaria à Escola Industrial Infante D. Henrique, onde frequentava o curso de serralheiro mecânico, caiu, magoando-se imenso, levando a um prolongado internamento no Hospital de Matosinhos, tendo a nossa mãe Brízida em hora de aflição, prometido uma coroa em prata para Nossa Senhora de Fátima, que à data existia no Hospital. Ainda hoje a nossa mãe guarda as canetas e os lápis que o nosso irmão transportava no bolso do casaco e que ficaram esmagados sob os pesados rodados.
Mas nem tudo era triste, como o episódio que acabamos de contar, pois deslocando-se o nosso pai, semanalmente à segunda-feira, à rua dos Caldeireiros, na Cordoaria, para aquisição do material para trabalhar, por vezes levava-nos com ele, e nós muito pequenos como gostávamos daquela viagem comentada!
Apanhávamos o eléctrico da linha 5 no fim da nossa rua junto aos bombeiros, e depois de passada uma vista de olhos ao jornal eis que chegávamos à Circunvalação e aí começava a descrição pelo Castelo do Queijo. Subindo a Avenida da Boavista logo no inicio o Café Bela Cruz, depois eram os belos palacetes, a Fábrica dos Ingleses (William Grham) no Pinheiro Manso, entretanto chegávamos à Rotunda da Boavista, e já de longe comentávamos o Monumento à Guerra Peninsular, admirando lá no alto o leão em cima da águia. Na rua de Cedofeita não deixava de apontar o Bazar dos Três Vinténs repleto de brinquedos que nos limitávamos a ver na montra. Logo de seguida a Praça de Carlos Alberto com o momento aos Mortos das Grandes Guerras, e eis-nos chegados ao Jardim da Cordoaria, hoje completamente desfigurado.
Antes de regressarmos ainda íamos ver o Mercado do Bolhão, e ao lago da Cordoaria ver os peixes e os patos, por vezes visitávamos a nossa tia Carolina que vivia na rua do Barão de Forrester.
Já no eléctrico, normalmente o da linha 19, para passarmos ao Palácio e a volta ficar completa, recordava-mos as caixilharias brancas da bela fachada do Hospital de Santo António, para onde havíamos sido levados com cerca de quatro anos para nos retirarem das narinas grãos de milho e feijão que lá havíamos metido por traquinice de criança, que fomos buscar à saca das compras semanais que a nossa tia Palmira tinha trazido do mercado de Matosinhos.
Eram estes, enfim, os passeios com que a gente humilde se contentava mas que nos deixavam gratas recordações, nos ensinaram a apreciar e a gostar dos pormenores da nossa terra e da cidade grande mais próxima, o Porto; e também muitos dos conhecimentos que nos permitem agora registar e dar a conhecer aos mais novos e recordar aos mais velhos.

Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008

Novo Bispo Auxiliar da Diocese do Porto

A Diocese do Porto tem um novo Bispo Auxiliar, D. João Evangelista Pimentel Lavrador, que se junta, assim, a D. João Miranda Teixeira e D. António Maria Bessa Taipa.
Natural de Mira (Coimbra), nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1956 em Seixo de Mira. Estudou no Seminário de Buarcos, onde entrou em 1966, tendo terminado o curso de Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos, em 1980. Foi ordenado Presbítero em Junho de 1981.Entre 1984 e 1988 foi responsável pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Assistente Regional do CNE. Durante este período, leccionou Educação Moral e Religiosa Católica na Escola Normal de Educadores de Infância de Coimbra. Entre 1988 e 1990 frequentou a Universidade Pontifícia de Salamanca, terminando a licenciatura canónica na área da Teologia Dogmática com a apresentação da Dissertação «O Laicado no Magistério dos Bispos Portugueses, a partir do Vaticano II».
Em 1991 foi nomeado Reitor do Seminário Maior de Coimbra, cargo que ocupou até 1997. Doutorou-se em 1993, apresentando e defendendo a tese «Pensamento Teológico de D. Miguel da Annunciação – Bispo de Coimbra (1741 – 1779) e renovador da Diocese».
Entre 1993 e 1999 desempenhou também o cargo de Secretário-Geral do Sínodo Diocesano de Coimbra. Desde 1991 que é professor de Teologia Dogmática no ISET de Coimbra.
Foi nomeado Bispo Auxiliar do Porto no passado dia 7 de Maio e a Ordenação Episcopal ocorreu na Sé Nova de Coimbra no dia 29 de Junho.

Fonte: www.diocese-porto.pt
Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008

Residência Paroquial - História de Uma Construção

Quem hoje olha para a actual Residência Paroquial pode achá-la um edifício demasiado imponente, mas poucos se recordarão do que levou à sua construção e muito menos da residência anterior, que estava situada noutro local. A Residência Paroquial original tinha sido construída no início do século XIX e estava localizada na área ocupada pelo actual adro e tômbola. Fora oferecida à Paróquia por José Domingues de Oliveira. No início dos anos 60 do século XX, o rebaixamento da actual Avenida Dr. Fernando Aroso, a construção do Salão Paroquial, a necessidade de alargamento do adro da Igreja Paroquial e, sobretudo, a necessidade de alojar os vários sacerdotes coadjutores do Pároco, levaram o Padre Alcino Vieira dos Santos a considerar a construção de uma nova Residência Paroquial. A inviabilidade funcional da Residência Paroquial existente, provocada pelo rebaixamento da actual Avenida Dr. Fernando Aroso, levou o Pároco e a Comissão Fabriqueira a negociar com a Câmara Municipal de Matosinhos a compensação pelos prejuízos provocados a toda a população católica de Leça da Palmeira.
Nesse sentido, foi proposto à autarquia a autorização para a construção de uma nova Residência Paroquial, no terreno oferecido pela Junta de Freguesia, comprometendo-se a Câmara a pagar o valor real do edifício existente. A Câmara Municipal aceitou as condições propostas pela Paróquia, indemnizando-a no valor de 310.000$00, permitindo igualmente o direito ao uso de todos os materiais da antiga residência e assumindo o compromisso de rebaixar o terreno, incorporando-o no adro da Igreja Paroquial.
Em Dezembro de 1961, o Padre Alcino apresentava neste Jornal o projecto da nova Residência Paroquial, que, tal como o do Salão Paroquial, foi da autoria do arquitecto Bruno Reis. A construção justificava-se porque «Por agora, o Pároco tem apenas um Coadjutor – o que é manifestamente insuficiente para as suas necessidades.
Forçosamente, em casa do Pároco se têm de hospedar outros Sacerdotes, chamados à colaboração com ele, como sejam Missionários, Pregadores, Confessores, etc.
Os Sacerdotes têm de ser homens de estudo; e daí, a necessidade de prever, não apenas instalações para atender o público – serviço de cartório – mas gabinetes remotos, onde se possam recolher, para o estudo e para a oração.
Ao número de Sacerdotes, corresponde, necessariamente, um número conveniente de pessoas que tratem da vida doméstica.
Tudo isto justifica o número de dependências constantes da planta.»
Em Maio de 1962, iniciaram-se as obras da nova residência paroquial, ao mesmo tempo que se concluíam as obras do Salão Paroquial e do Bairro dos Pobres. O apelo à generosidade dos paroquianos foi mais uma vez uma constante, por parte do Padre Alcino.
Três anos após o início das obras, a 3 de Maio de 1965, a actual Residência Paroquial era finalmente inaugurada, durante a Festa da Paróquia e contou com a presença de D. Alberto Cosme do Amaral, Bispo Auxiliar do Porto. Mais uma vez, os Leceiros deram uma prova cabal da sua dedicação e empenho às iniciativas da Paróquia. O empenho das forças vivas de Leça da Palmeira permitiu que o Pároco, os seus Coadjutores e o pessoal de apoio passasse a ter uma residência condigna, em termos de condições de habitabilidade e de espaço e que respondesse às necessidades da Igreja


Jorge Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008











segunda-feira, 30 de Junho de 2008

R.T.A Encena Tradições de Leça

No passado dia 3 de Maio, no Salão Paroquial de Leça da Palmeira, pelas 21h45, o Rancho Típico da Amorosa realizou mais um grandioso espectáculo intitulado “Tradições de Leça”.
Tendo já sido encenado não há muito tempo, esteve como que “guardado na gaveta” e feitas modificação a alguns quadros, no sentido de melhorar a encenação e de aumentar um ou outro quadro, o R.T.A. conseguiu repôr esta produção que muito nos conta da vida “na Leça rural de antigamente” - o quotidiano do lavrador que trabalhava na lavoura de sol a sol, e só parava nos dias de preceito da Igreja, para romarias ou cumprir as suas promessas, e mesmo assim nem sempre. Pretendeu-se, desta forma, mostrar aos mais novos o dia-a-dia do homem do campo, bem como os momentos de lazer, ao longo dos 365 dias do ano.
















Foram representados os seguintes quadros:
· Janeiras – Dois cânticos alusivos à quadra
· Moda da Carrasquinha – Dança recreativa
· Cenas do Entrudo – O “Testamento do Judas”
· Quando meu compadre – Encenação de quadro
· O Senhor da Serra – Dança alusiva ao trabalho do serrador
· Bendito – Melodia cantada na Procissão dos Enfermos
· S. João – “O tostãozinho para a cascata”
· Regadinho – Dança de roda
· Pregões – Vendedores ambulantes
· Arregaça – Dançada depois das regas
· Apanha do Sargaço – O adubo para as terras
· Vira de Oito – Dança de Pescadores
· Desfolhada – Alusão ao Abílio da Moleira
· Vira de Roda – Dança de sedução
· Almas Santas – Melodia com que se pedia esmola
· S. Martinho – O vinho, a alegria, a desmesura…
· Chula Vareira – Dança de Pescadores
· Lavadeiras do Rio Leça – O canto e a coscuvilhice
· O avental da Curiquinha – Dança recreativa
· Mansidão – Dançava-se a caminho das romarias
· Os trajes tradicionais de Leça – Apresentação de Trajes
· Tirana – Dançava-se nas amplas cozinhas leceiras
· Canção de embalar – Cena familiar
· Natal – Adoração ao Menino Jesus
· Janeiras – Cântico de Pastores
A adesão do público foi boa, tendo sido o R.T.A. muito felicitado por mais uma brilhante iniciativa organizada em conjunto com a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira. O R.T.A. mostra desta forma que continua muito vivo e sempre disposto a fazer o que melhor sabe para manter vivas as tradições da nossa terra, e levar o nome de Leça da Palmeira o mais longe possível, embora nem sempre os apoios sejam os melhores e suficientes para esta causa.
A época alta do ano no mundo do folclore está já a começar, com festivais e demonstrações de norte a sul do país, e o Ranho Típico da Amorosa não é excepção, tendo organizando em Maio passado o festival do Senhor de Matosinhos e participado no mesmo mês no Festival do Danças e Cantares do Minho em Lisboa. Em Junho continua a participar em outros eventos, como o Festival de Boidobra na Covilhã, Festival de Aniversário do Típico de Ançã, em Cantanhede, Festival de Vila Nova do Coito em Santarém e Festival de Gouveia, na Serra da Estrela. Muitas outras actuações estão já agendadas para o resto do ano, mas neste momento o trabalho do R.T.A. concentra-se em mais uma edição do FESTARTE, este ano a realizar entre 24 de Julho e 4 de Agosto, com a participação da maior parte dos grupos já confirmada faltando apenas a confirmação de um ou outro grupo.


João Teixeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Tradições de Leça

Leça da Palmeira, uma cidade à beira – mar plantada desde antiquíssimos tempos tinha o seu modo de viver muito ligado à vida rural, nomeadamente ao calendário do homem do campo.
O lavrador leceiro cumpria religiosa e silenciosamente o seu paciente labor quotidiano ao ritmo que a própria natureza lhe impunha, só descansando um ou outro dia de festa, se isso lhe fosse permitido. Por vezes nem domingos havia!
De Janeiro a Dezembro vivia para o trabalho, relacionando muitos deles com as suas actividades tal como sucede com os meses de: Junho, o S. João; Julho, o de S. Tiago; Setembro, o de S. Miguel; Outubro, o dos Santos, Novembro o de Santo André, ou das sementeiras; e o de Dezembro, o do Natal ou o mês das matanças, por ser a época em que se mata o porco.
A indicação dos meses fazia-se por uma simples festa ou de qualquer acontecimento.
As estações do ano dividiam unicamente, em meses de Verão e meses de Inverno.
No inicio do mês de Janeiro era hábito grupos percorrerem as ruas acompanhados por música de um ou outro instrumento musical, indo de porta em porta cantar as janeiras.
Se o dono da casa correspondia abrindo-lhes a porta, cantavam-lhe: “Viva o dono desta casa / Raminho de salsa crua / Quando se põe á janela / Ilumina toda a rua”. “Viva a dona desta casa / Quando põe o seu mantéu / Quando vaia para a igreja / Parece um anjo do céu. Viva tudo, Viva tudo / Viva tudo nesta hora / Viva também o menino / Para não ficar de fora”; caso isso não acontecesse, gritavam: “nesta casa cheira a unto aqui mora algum defunto. Esta casa cheira a breu aqui, morreu algum judeu”. E… toca a fugir!
Em Fevereiro, dizia-se: “Que matou a mãe ao soalheiro”, e também que: “Lá virá o meu amigo Março que fará o que eu não faço”; tudo isto, claro, relacionado com o tempo de sol e chuva que fazia. Era o mês do Carnaval ou Entrudo, época em que as pessoas se entretiam, disfarçando-se com roupas velhas “correndo o entrudo ou o farrapão”, metendo-se com quem passava, usando esfregarem as caras, mutuamente, com farinha e previlhos. Embora actualmente escasseiem os farrapões, há os mascarados, sendo os encontros em modernos bailes em recintos fechados, estando em decadência o Carnaval grotesco vivido na rua.
Em Março, “em que tanto durmo como faço” ou em Abril de “águas mil, coadas por um funil” ou em que “queima-se o carro e o carril”, ocorria a Páscoa com todo o seu tempo de preparação, com as Procissões dos Passos, a queima do Judas em que é escolhida uma pessoa da comunidade para ser caricaturizado, representada por um boneco de palha com bombas no seu interior ao qual é chegado o fogo após ser lido em tom jocoso o seu “Testamento”, em verso, e a Visita Pascal; e com a chegada do último dia do mês é tradição, os leceiros, grandes e pequenos, cortarem as maias nos campos próximos para as colocar nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos do gado e capoeiros.
Diz a crença popular que as maias, isto é, as flores da giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Casa que não tinha maias colocadas ao entrar o mês de Maio “em que se comem as cerejas ao borralho”, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
O mês de Junho, “com foucinha em punho” traz-nos os Santos Populares com todos os seus folguedos, as fogueiras e os bailes de rua que atingindo o seu ponto máximo no S. João, apesar de “pelo S. João os bois beberem nas pegadas”, “…cobre o milho o rabo ao cão”.
Uma tradição leceira deste mês de Junho é a cascata, que nos traz à memória o deslumbramento da imaginação, da harmonia e da inocência do representar o quotidiano da nossa terra em pequenas figuras de barro compradas na feira da louça do senhor de Matosinhos.
A festa era tal que até se cantava: S. João da Boa Nova. / Nós te qu’remos festejar! / E se queres uma prova, / A tradição se renova, / ‘Stamos na rua a cantar! / … Da nossa terra formosa, / Foste festa popular! /E desta forma amorosa, / Vem tua Leça briosa, / A tradição reatar.
As crianças na rua faziam uma pequena cascata, e por vezes só com um dos Santos na mão, pediam “um tostãozinho para a cascatinha”.
Em Julho, já com o tempo mais quente, começava o ritual dos banhos, primeiro no rio Leça, com fundos lodosos perigosíssimos onde muitos jovens ficaram; mais tarde os banhos de mar tomados de manhã bem cedo e rápido porque o trabalho não esperava.
Em meados de Julho regavam-se os campos para o que se cavavam sulcos extensos de modo a conduzir a água.
Com Agosto à porta surgem as romarias populares, e além das festividades anuais que cada freguesia ainda mantém, perduram as populares e tradicionais romarias, meio pagãs, meio religiosas, onde o povo dá largas à boa disposição.
Pertencem ao número dessas romarias a Santa Eufémia, no alto da Carriça, onde o nosso pai Moisés ia de bicicleta, comprar as alhos e a melancia; a Senhora do Bom Despacho na Maia, etc.
Espontaneamente, ou não, os romeiros juntavam-se em grupos, designados por rusgas e manhã cedo lá iam a pé cantando e dançando, regressando ao escurecer, já com os farnéis vazios.
Destas rusgas nasceu o Rancho Típico da Amorosa defensor e guardião das tradições leceiras que com os seus trajes tão bem conservados, cantares e dançares, mantém vivas não só as tradições leceiras mas também a alma do nosso povo. É um regalo vê-los actuar! Obrigado Raúl.
Durante muitos anos os nossos primos Henriqueta e Hermano Rocha alimentaram a tradição cuidando com toda a dedicação desta nossa tão nobre associação.
Depois do árduo trabalho do campo durante o ano, chega Setembro com a verdadeira azáfama, pois é altura de trazer para casa o milho, outrora transportado em carros de bois, descarregando-o no coberto onde era desfolhado, o que constitui um cerimonial, pois se durante o dia era um trabalho silencioso à noite, ao serão, juntavam-se os rapazes das redondezas. Quando alguém encontrava uma espiga vermelha, “milho rei”, tinha licença para distribuir abraços à roda. Se for espiga “rajada” ou “entremeada”, em vez de abraços à roda, são beijos. Os donos da casa ofereciam pão, vinho, e azeitonas, aparecendo quem tocasse, a gente jovem não resistia à tentação de dançar.
Em Outubro com os trabalhos já encaminhados e o inverno a aproximar-se vamos referir uma outra tradição leceira, que naturalmente desapareceu; referimo-nos às lavadeiras de Leça, que no braço doce do rio lavavam a roupa de sua casa e a de muitas famílias inglesas que à época aqui habitavam, constituía um ritual não só pelo trabalho mas também pelo aspecto social, pois permitia pôr em dia as notícias sobre a vizinhança com o desmascarar de alguns “segredos” e o levantar de alguns boatos! Era uma coscuvilhice! Claro que nos encontros com as mulheres da outra margem do Leça, por vezes as conversas azedavam, ao ponto de chegarem a vias de facto.
Novembro começa com a homenagem aos finados e aqui, por muito que nos custe, vamos falar dos enterros.
Assim, quando morria alguém “tocava o sino a sinal” por duas vezes se era mulher e três vezes se era homem.
O corpo é lavado. Se é homem faz-se-lha a barba, isto é o barbeiro dá-lhe uma “escanhoadela” e é vestido. Posto no caixão procede-se ao velório durante o qual se juntam familiares e amigos, sendo habitual à noite servir café e aguardente.
Á hora de sair o enterro o padre procede ao “levantar do corpo” organizando-se o cortejo fúnebre, à frente a cruz e dois acompanhantes aos guiões ou às borlas, serviço em que ganhámos alguns cobres conjuntamente com os nossos amigos Valdemar e Tito ao serviço do Sr. Silva Armador. A seguir o padre com o rapaz da caldeirinha e atrás do caixão os acompanhantes, familiares e amigos transportando palmas de flores e coroas.
Ainda em Novembro surgiam os vendedores de castanhas que as assavam no forno do padeiro, após o que as punham num saco de serapilheira, cuja boca fumegava, e percorriam as ruas de Leça apregoando: “Quentes e boas! São da quinta da minha avó”!
Em Dezembro, já com frio, e com um cerimonial festivo fazia-se a “matança do porco”. O animal engordado durante o ano, é amarrado a um banco ou a um carro de bois e morto, depois era chamuscado e lavado, aberto e desmanchado.
Neste último mês temos ainda o Natal, o qual deixaremos para uma crónica específica em tempo oportuno.
Haveria muitas outras tradições a referir porém este nosso escrito já vai longo. Deixaremos para outras oportunidades.

Eng.º Rocha dos Santos

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Dia da Mãe no Centro Franciscano

Mais uma vez a Catequese do Centro Franciscano teve uma ideia engraçada: em vez de termos uma catequese do Dia da Mãe, para as mães, este ano tivemos uma catequese feita pelas mães para as suas crianças.
Foi ideia de uma mãe, que inicialmente seria apenas aplicada em dois grupos, nos quais estavam as suas filhas, mas rapidamente passou para toda a catequese do Centro.
Fica aqui a entrevista com a mãe, (Paula Bártolo), que organizou este dia fantástico e também com um dos Catequistas, (Ana Isabel), que seguiu, com agrado, esta sessão.

A Voz de Leça (VL) - Como surgiu a ideia de as mães participarem activamente na sessão de catequese?
Paula Bártolo (PB): Esta ideia surgiu num sábado, após o diálogo habitual com as minhas filhas sobre a sessão de catequese do dia, como uma forma de mostrar, por um lado, aos catequistas que os Pais reconhecem e agradecem o papel fundamental que eles desempenham no crescimento dos nossos filhos; por outro lado, aos nossos filhos que a catequese é um aspecto de vida deles que os Pais valorizam e na qual querem participar.

VL - Qual a opinião das mães em relação à catequese no CEFPAS?
PB: Esta iniciativa só ocorreu porque tem por base o reconhecimento do excelente trabalho desenvolvido por uma maravilhosa equipa de pessoas que diariamente, e não semanalmente, põe a sua vida ao serviço de Deus nas pessoas dos nossos filhos. Tem sido muito gratificante constatar o crescimento na fé que se tem operado ao longo destes anos nos nossos filhos.

VL - Considera importante a intervenção da família na catequese?
PB: Como é óbvio, a caminhada que os nossos filhos vão fazendo na fé tem repercussões no crescimento da família. É muito importante que os nossos filhos sintam que os Pais não os "depositam" na catequese mas que os incentivam a "viver" a catequese e que eles próprios pretendem viver esse aspecto fundamental das suas vidas. Se nos preocupamos em lhes alimentar o corpo, também nos preocupamos com o alimento espiritual e ficamos felizes por os vermos crescer em “estatura, sabedoria e graça”.

VL - Acha que as mães aderiram bem a esta ideia?
PB: Foi uma enorme surpresa a adesão da esmagadora maioria das mães. Cada uma pondo a render os seus talentos com o objectivo de fazer daquele dia muito especial.

VL - Como foi a experiência de preparar uma sessão de catequese?
PB: Tratou-se de uma experiência muito enriquecedora. Desde o despertar das consciências das outras mães, passando pela necessidade de coordenar uma série de actividades, até à escolha e transmissão da mensagem que pretendíamos fazer passar, tudo foi motivo de crescimento. Por fim, ver a satisfação e o orgulho dos nossos filhos foi a melhor prenda do Dia da Mãe que podíamos ter recebido.







VL - O que significou, enquanto Catequista, este dia diferente?
Ana Isabel - Este Dia da Mãe foi um dia bem diferente para a comunidade do Centro Franciscano de Pastoral e Acção Social. Diferente para todos: para as crianças, para os pais (mais particularmente para as mãe), para os catequistas e também para os padres da casa. Sentiu-se em toda a gente o espírito de união e de fraternidade que temos tentado alcançar neste Centro. O facto de serem as mães das crianças a prepararem uma catequese significa muito mais do que isso. Significa que os pais se preocupam com a educação catequética dos seus filhos e que se sentem profundamente à vontade para participarem activamente nessa caminhada tão difícil nos dias de hoje. Este dia de catequese diferente revela também que o esforço que temos feito para trazer a Família à Catequese está a ser conseguido! E para os catequistas foi também uma prova de gratidão, uma prova de valorização do trabalho que desenvolvemos com as crianças, adolescentes e jovens.
“Nós demorámos algumas semanas a preparar uma só sessão, enquanto que vocês têm uma sessão para preparar todas as semanas e fazem-no com qualidade!”, disse uma das mães presentes no encontro. São frases pequenas e muito simples, sinceras mas que servem como um “obrigado” para nós catequistas. “Deus está no teu sorriso” era a mensagem que as mães quiseram passar para todos. E conseguiram fazê-lo muito bem. Respirou-se boa disposição, muito amor e muito carinho naquele dia.
Que Deus esteja sempre no sorriso dos pais os primeiros e principais educadores da Fé; que Deus esteja sempre no sorriso dos párocos que são os pastores do rebanho; que Deus esteja sempre no sorriso dos catequistas que são os que transmitem a Palavra de Deus às crianças e jovens; que Deus esteja sempre, mas sempre, no sorriso das crianças que são o amanhã!


Ana Isabel Faria
Simão Bártolo

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Comendador António de Carvalho - Um Grande Benemérito de Leça da Palmeira

A propósito da memória da construção do Salão Paroquial, aqui fica o registo biográfico de um grande senhor, que tão bem fez nesta nossa terra.

Na edição de Janeiro de 1956 d’ A Voz de Leça, o Padre Alcino Vieira dos Santos escrevia a propósito do falecimento deste grande senhor beirão, o Comendador António de Carvalho, que aqui viveu, em Leça da Palmeira, terra que ajudou a desenvolver, tanto através da indústria que aqui fundou e desenvolveu, como através da sua generosidade.
“(…) A sua fé acompanhava-o na sua vida social. Quando era perseguido pela injustiça, dizia aos amigos: “Eu perdoo tudo. Só quero defender o pão dos meus operários e dos pobrezinhos.” Era amigo dos seus operários, que considerava como irmãos. Era um “Patrão” no verdadeiro sentido do termo: protector-pai… Trava os seus clientes com a lealdade de amigos. (…) Como católico era o primeiro a secundar as iniciativas paroquiais: já aqui falámos na dádiva de 20.000$00 para o Salão Paroquial. Foi um grande benfeitor da Confraria dos Passos do Senhor e Nossa Senhora da Soledade e das Conferências de São Vicente de Paulo. A sua paixão dominante era a caridade. O seu coração não suportava a miséria. A sua generosidade era tanta, que espíritos vulgares não hesitavam em classificá-la de esbanjamento. Santo esbanjamento! Santa prodigalidade! As bênçãos de Deus desceram abundantemente sobre a sua indústria que sempre prosperou (…). A simplicidade da sua alma, junto ao genial talento de industrial, tornavam-no extremamente simpático e querido de todos. Bem podia orgulhar-se do seu talento e do seu dinheiro, mas não. Nunca deixou de ser operário; (…)Tinha um sorriso característico, que acompanhava as suas esmolas. Sabia dar. (…)”
Deixaria em testamento, mais 20.000$00 para o Salão Paroquial.
Fundador da FACAR, (antiga indústria de tubos metálicos sediada em Leça da Palmeira, que viria a desaparecer após 25 de Abril de 1974), o Comendador António de Carvalho era natural de Lamego, onde nasceu em 1874, na freguesia da Sé daquela cidade. Órfão de pai e mãe aos 9 anos de idade, o pequeno António veio para o Porto, para casa de uns parentes, que lhe arranjaram um lugar de aprendiz numa fundição em Massarelos. As dificuldades da vida, que o privaram das despreocupações de uma infância feliz, deram-lhe espírito de iniciativa e vontade de vencer, pelo que ainda jovem era já encarregado de uma oficina metalomecânica, enquanto estudava à noite na Escola Infante D. Henrique.
Com pouco mais de 20 anos emigrou para o Brasil, que era na altura o destino de quem queria “vencer na vida”. Ambicioso mas com uma rectidão de carácter reconhecida e apreciada por todos quantos com ele puderam conviver, também ali teve sucesso, tendo em pouco tempo montado uma oficina de serralharia e fundição. À pequena oficina seguiu-se a construção de barcos com características particulares, (de ferro e com o fundo chato), para subirem o rio Amazonas durante os seis meses de vazante do caudal, período durante o qual os barcos tradicionais não o conseguiam fazer. O sucesso destas embarcações foi tal que António de Carvalho teve que montar uma doca seca para a sua reparação.
Regressado a Portugal ao fim de 25 anos no Brasil, e pretendendo também aqui continuar a ser fundidor e construtor naval, acaba por vir para Leça da Palmeira por causa da localização do porto de Leixões. Apesar de ter chegado a perito na Capitania de Leixões, dada a fraca densidade pesqueira que se verificava naquela época, acabou por converter a oficina de reparação de traineiras, que montara no regresso do Brasil, numa pequena fábrica de tubos de aço. Pequena mas já com características algo avançadas para a época, que viriam a dar origem à padronização dos tubos de aço, em medidas e moldes fixos, numa variedade que se foi alargando com o passar dos anos.
Mais uma vez se manifestava a sua visão à frente do seu tempo: depois de, no Brasil ter sido pioneiro numa vertente da construção naval, em Portugal seria o precursor da indústria dos tubos de aço.
Morreu a 20 de Dezembro de 1955.
O sonho de tornar a FACAR na maior fábrica de tubos da Europa só seria concretizado pelos filhos, António de Carvalho Júnior e Fernando de Carvalho. A FACAR seria também o maior e melhor empregador do concelho de Matosinhos.
Após a chamada “Revolução dos Cravos”, em 1974, durante o período mais negro do “PREC” (Processo Revolucionário Em Curso…), segundo uma certa ideologia reinante que preconizava a anarquia, (não vale a pena dar-lhe outro nome, porque era isso mesmo!), lá surgiu a obrigatória “comissão de trabalhadores” que assumiu a direcção da fábrica, substituindo-se aos seus donos e, em poucos anos, acabou com uma das maiores empresas portuguesas, arrastando para o desemprego famílias inteiras.
Hoje, na zona onde durante décadas existiu a FACAR sobressai um muito visível grupo de prédios, cuja construção se arrastou por polémicas de vária ordem. “Apesar dos pesares” que acompanharam o seu surgimento, aquelas construções foram a forma encontrada para, monetariamente, resolver muitas questões relacionadas com a extinção da FACAR.
Ao menos isso!






Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Fontes: A Voz de Leça (Janeiro de 1956)
BENTO,Jorge,2001-Último Pio Do Pardal; Leça da Palmeira, Edição do Autor.

sábado, 31 de Maio de 2008

Festa Surpresa do 1º Catecismo

No passado dia 15 de Março, realizou-se no Salão Paroquial uma festinha com as crianças do 1º ano de Catequese. Este evento foi destinado a angariar fundos para a realização de uma viagem ao Santuário de Fátima, de cujas aparições também lhes falámos, cumprindo o preceituado no catecismo, onde se lê que nada melhor do que mostrar às crianças os acontecimentos nos locais próprios.
Já antes do Natal faláramos às crianças em Nossa senhora, a propósito da Anunciação do Anjo, quando ele A veio convidar para ser a Mãe de Jesus e lhe falou de sua prima Isabel que estava para ser mãe. Nessa altura aprenderam a rezar a “Avé-Maria”.
Na festa referida, cada grupo apresentou o seu trabalho: houve danças populares, cantigas, (o “Eu Vi Um Sapo” foi uma graça!), rábulas, teatro, um desfile de moda para todas as épocas e vários “quadros” alusivos à Catequese, como “A Pesca Milagrosa”, “Os Sete Pecados Mortais”, “A Ressurreição”, “Verdade e Mentira”. Foi digno de se ver o empenho e até algum “profissionalismo” dos pequeninos. Igualmente louvável foi o trabalho de todos os Catequistas.
Houve também algumas surpresas, como foi o caso dos Catequistas Ana Catarina e Sérgio que, sendo irmãos para além de tudo, apresentaram um “merengue” e a presença de um grupo de dançarinos da Escola de Danças de Salão da Escola Secundária da Boa Nova, que trouxeram belíssimos números de dança que a todos deliciaram pela beleza e qualidade.
Resta agradecer a todos pela generosidade, empenho e presença: às professoras, coreógrafo e bailarinos na Escola da Boa Nova, aos patrocinadores, ao Pedro Pinheiro que forneceu e operou a aparelhagem sonora e a quem nos honrou com a sua presença, pais, familiares e amigos, pois sem eles não se teria conseguido nada.
Bem hajam e obrigado por tudo.



As Catequistas
Salomé Oliveira e Alice Canastra
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 3 - Maio de 2008

3º Aniversário da Morte do Papa João Paulo II

O Papa João Paulo II faleceu na vigília do segundo domingo da Páscoa de 2005, e esse momento foi lembrado, no dia 2 de Abril deste ano, na homilia que o Papa Bento XVI proferiu na Missa de sufrágio pelo seu antecessor. Sendo todo o discurso proferido pelo Sumo – Pontífice uma “memória” da vida daquele Papa extraordinário, merece especial destaque o excerto que se segue, por citar uma frase “forte”, sempre repetida por João Paulo II.
“(…)"Não tenhais medo!" (Mt 28, 5). As palavras do anjo da ressurreição, dirigidas às mulheres junto do sepulcro vazio, que agora ouvimos, tornaram-se uma espécie de mote nos lábios do Papa João Paulo II, desde o início solene do seu ministério petrino. Repetiu-as várias vezes à Igreja e à humanidade a caminho rumo ao ano 2000, e depois através daquela meta histórica e também sucessivamente, no alvorecer do terceiro milénio. Pronunciou-as sempre com firmeza inflexível, primeiro agitando o báculo pastoral culminante na Cruz e depois, quando as energias físicas iam diminuindo, quase agarrando-se a Ele, até àquela última Sexta-Feira Santa, na qual participou na Via-Sacra da Capela particular estreitando a Cruz entre os braços. Não podemos esquecer o seu último e silencioso testemunho de amor a Jesus. Também aquele eloquente cenário de sofrimento humano e de fé, naquela última Sexta-Feira Santa, indicava aos crentes e ao mundo o segredo de toda a vida cristã. O seu "Não tenhais medo" não se fundava nas forças humanas, nem nos êxitos obtidos, mas unicamente na Palavra de Deus, na Cruz e na Ressurreição de Cristo. À medida que era despojado de tudo, por fim até da própria palavra, esta entrega a Cristo sobressaiu com crescente evidência. Como aconteceu a Jesus, também para João Paulo II no fim as palavras deixaram o lugar ao sacrifício extremo, à doação de si. E a morte foi o selo de uma existência totalmente doada a Cristo, conformada com Ele também fisicamente nas características do sofrimento e do abandono confiante nos braços do Pai celeste. "Deixai que eu vá para o Pai", foram estas, como testemunha quem estava próximo dele, as suas últimas palavras, em cumprimento de uma vida totalmente dedicada ao conhecimento e à contemplação do rosto do Senhor. (…)”
Recolha de Plácido Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 3 - Maio de 2008

As Palavras do Servo de Deus

Pelos Jovens
Senhor Jesus,
que chamaste
quem quiseste,
chama muitos de nós
a trabalhar para ti,
a trabalhar conTigo.
Tu, que iluminastes
Com a Tua palavra
Aqueles que chamastes,
ilumina-nos com o dom
da fé em Ti.
Tu, que os apoiastes
Nas dificuldades,
Ajuda-nos a vencer
As nossas dificuldades
De jovens actuais.
E se chamares
Algum de nós
Para o consagrar todo a Ti,
Que o Teu coração aqueça
Esta vocação desde o seu nascimento
E a faça crescer
E perseverar até ao fim.
Assim seja.

Recolha de Plácido Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 3 - Maio de 2008

quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Salão Paroquial - Quadro de Honra

A grandiosa obra do Salão Paroquial é uma das grandes marcas da passagem do Padre Alcino Vieira dos Santos por Leça da Palmeira. Uma obra que só foi possível graças ao seu enorme empenho e capacidade de cativar toda a população leceira. Foram os paroquianos de Leça da Palmeira que, com os seus contributos, tornaram possível a edificação desta infraestrutura tão necessária para a nossa vida paroquial.
Concluída a obra da construção do Salão Paroquial, entendeu o Pe. Alcino dedicar no número de Fevereiro de 1966 uma homenagem às figuras que mais se distinguiram, na sua opinião, na construção do Salão Paroquial. As pessoas distinguidas são:

Eng. Henrique Scherreck – ilustre Director da Administração dos Portos de Douro e Leixões, que deu facilidades e auxílios de primeira importância




















Eng. Alberto da Cunha Leão - ilustre Director dos Serviços de Exploração da Administração dos Portos de Douro e Leixões, que com o seu dinamismo e espírito meticuloso a quem não escapam pormenores e ainda com a sua boa vontade sempre pronta a conceder facilidades



















António de Carvalho, António de Carvalho Júnior e Fernando de Carvalho – proprietários da FACAR, que sempre avançaram na vanguarda do progresso do Salão Paroquial, deram substancial auxílio material.



















João Ramsey Nicolau de Almeida – na qualidade de membro da Comissão Fabriqueira e Juiz da Confraria do Santíssimo Sacramento, ajudou com o seu trabalho, opinião esclarecida e com subsídios em dinheiro de primeira grandeza



















Dr. José Leite Nogueira Pinto, Conde de Leça – que contribuiu com precioso auxílio material





















Arq. Bruno Reis – pelo seu edificante desprendimento (o seu trabalho foi gratuito) e pelo zelo com que orientou e acompanhou a obra até ao fim




















Eduardo Vieira – dinâmico organizador e competente orientador da Campanha das Cotas mensais ou “Inquilinos do Salão”, que deu para esta obra mais de 200 contos





















Augusto Duarte Pedroso – incansável trabalhador e competente orientador que ajudou o Pároco na direcção da obra do Salão Paroquial





















Manuel Gonçalves Morgado – que ofereceu, conjuntamente com o seu genro, António Oliveira, alguns metros de terreno para a construção do Salão Paroquial

Capela de São Miguel – A este conjunto coral muito se deve, pelo lançamento e organização das actividades teatrais e cinematográficas. Destacando-se o seu Director, Jorge Bento, pela actividade desenvolvida no cinema, José Ferreira Santiago, que fez gratuitamente toda a obra de picheleiro e Francisco Leite, que organizou e desenvolveu as actividades do bufete.




Jorge Sequeira
in "A Voz de Leça" - Ano LV - Número 2 - Abril de 2008

Bruno Reis - Pintor e Arquitecto

A propósito da história da construção do Salão Paroquial, tem toda a oportunidade a resenha biográfica do Arquitecto Bruno Reis .

A “marca” de Bruno Reis, Arquitecto, está por toda a parte, em Leça da Palmeira como em Matosinhos. Embora tenha projectos noutras cidades é aqui que “está” mais presente. Como pintor também, já que as suas obras são quase sempre “retratos” desta sua terra.
Bruno Alves Reis nasceu em Leça da Palmeira, a 19 de Março de 1906, e como curiosidade refira-se que foi baptizado pelo Abade Mondego, Pároco da altura e outra figura proeminente desta terra.
Frequentou o Curso de Pintura na Escola de Belas Artes do Porto, tendo já como objectivo vir a formar-se em arquitectura, para o que também se inscreveu no curso de Arquitectura Civil. Entretanto o seu dom para a pintura ia-se revelando e a sua primeira tela de paisagem surge em 1926.
Um ano depois e porque ao contrário do que hoje acontece, “ir à tropa” era obrigatório, Bruno Reis, com 18 anos, tem que interromper o Curso Especial de Arquitectura, mas nem assim deixa de “praticar” a sua arte, dedicando-se à caricatura dos camaradas do Regimento da 1ª Companhia de Saúde, em Mafra. O “génio” estava lá…
Terminado o Curso de Pintura na Escola de Belas Artes, em 1930, participa em exposições colectivas de alunos daquela Escola no Ateneu Comercial do Porto, embora não haja rasto, hoje, da maioria das suas obras dessa época.
Em 1932 matricula-se no Curso Superior de Arquitectura, voltando a exercitar os seus dotes de caricaturista no Livro de Curso dos Finalistas desse ano. Quatro anos depois inicia a sua carreira de professor com vínculo extraordinário à Escola Industrial e Comercial da Póvoa de Varzim, em regime de comissão de serviço na Escola Industrial Faria Guimarães, onde se manterá durante onze anos. A sua carreira como arquitecto tem início em 1941, defendendo como tese de curso o trabalho “Uma Pousada no Minho”. Nesse mesmo ano pinta o quadro “Sol Verde”, adquirido pelo Museu Soares dos Reis.
Apresenta o seu primeiro projecto de arquitectura em 1942 – um prédio de dois andares na Rua Heróis de África, aqui em Leça, da Cooperativa “Problemas da Habitação”. A 17 de Junho de 1944 obtém o diploma de arquitecto com classificação de 17 valores, (Bom).
Mas nem só de artes viveu Bruno Reis e, em 1946, casa com D. Irene de Oliveira, na igreja de Matosinhos. A primeira filha do casal, Maria Antónia, nasce no ano seguinte.
Em 1948 passa a exercer como professor na Escola Infante D. Henrique, no Porto, onde se mantém até 1951.
Em 1949 surge o seu projecto para a “Casa Angola” – um prédio com cave, rés-do-chão e três andares, na Rua Brito Capelo, Matosinhos.
A sua segunda filha, Maria Irene, nasce no ano a seguir e em 1951 participa no 1º Salão de Pintura de Matosinhos, ano em que apresenta o projecto para o edifício da Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha. Projecta igualmente a entrada da Praia dos Banhos e a estufa do Horto Municipal de Matosinhos.
Ainda em 1951, concebe o Parque Infantil de Basílio Teles, tendo a sua colega de curso Laura Costa pintado dois azulejos decorativos com motivos de crianças, para os suportes do portão da entrada. Nesse ano volta à Escola Faria Guimarães, agora Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, onde permanecerá até 1974.
A competência de Bruno Reis enquanto arquitecto é cada vez mais solicitada e, em 1952, projecta já moradias no Porto e em Ermesinde. Em 1953 realiza o projecto da Capela de Santo Amaro em Matosinhos, de que o Padre Grilo viria a ser o primeiro Pároco e que é benzida e inaugurada pelo então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes.
Entre 1955 e 1958 executa vários projectos, entre os quais se destaca o da casa do pintor Agostinho Salgado, em Leça da Palmeira.
Daí até 1960, Bruno Reis é mais pintor que arquitecto. É em 1959 que pinta o quadro a óleo “Capela da Boa-Nova”, adquirido pelo Museu Soares dos Reis dois anos depois.
Em 1961, projecta três obras importantes de Leça – a Residência Paroquial, o Salão Paroquial e o edifício da Junta de Freguesia.
Mas não foi só aqui que deixou obra, pois em 1962 projectou o Cine-Teatro de Chaves e dois anos depois, na mesma cidade, o Hotel Trajano. È seu também o projecto da residência do escultor José de Sousa Caldas, no Porto.
Em 1966, usa o seu saber de arquitecto em proveito próprio e constrói a sua casa atelier, na Rua Direita, em Leça da Palmeira, que lhe proporciona extraordinárias vistas sobre o porto de Leixões, cuja construção acompanhou, até 1969, da Doca Nº2 e mais tarde das Docas Nº 3 e Nº 4. São desta altura as paisagens que pintou a partir das vistas que tinha, de sua casa, sobre o porto.
Em 1973 participa na Exposição Colectiva do I Ciclo dos Pintores de Matosinhos – Órfeão de Matosinhos, apresentando treze quadros. Nessa mostra participaram também Augusto Gomes, Irene Vilar, Tito Roboredo e Nélson Dias.
Fica viúvo em 1975 e o seu último projecto de arquitectura surge um ano depois, tinha o artista 67 anos.
Em 1978 participa como pintor na Exposição Colectiva “Matosinhos e os seus Artistas”, organizada pela Câmara Municipal, no Palacete Visconde de Trovões, integrada nas comemorações do 125º aniversário da elevação de Matosinhos e Leça da Palmeira a vila e sede do concelho. Nessa exposição, Bruno Reis apresentou as obras “Lavadeiras”, “Desaterros”, “Casas de Leça Antiga” e “Ponte da Pedra”.
Nesse mesmo ano cessa, a seu pedido, a condição de membro da Direcção Regional da Sociedade Nacional de Arquitectura.
Morre em Leça da Palmeira, em 1984, com 75 anos.

Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" - Ano LV - Número 2 - Abril de 2008

NOTA: Ao pensar o título para este texto sobre o arquitecto Bruno Reis, veio-me à memória o da Exposição Comemorativa do centenário do seu nascimento que, em finais de 2006, esteve patente no Auditório da APDL, “Bruno Reis – Pintor Arquitecto”. Inicialmente achei que talvez não devesse usá-lo, até por uma questão de falta de originalidade. Depois, pensei que talvez mudando a ordem para “Arquitecto Pintor” resolvia a questão. Acabei por usar o mesmo título dessa Exposição, com a devida vénia ao seu autor, reconhecendo não ser capaz de ter melhor ideia para descrever o artista.

Capela da Boa Nova

Quando da realização da “Evocação do Naufrágio do Veronese” tivemos oportunidade de uma vez mais visitar a Capela da Boa Nova e apreciarmos alguns dos seus pormenores o que nos levou a reler alguns escritos nomeadamente o livro “Capelas de Leça da Palmeira” da autoria do nosso saudoso e querido amigo Sr. Jorge Bento, recordando também uma outra visita quando do casamento da nossa sobrinha Brízida Maria que com todo o seu gosto a decorou de forma brilhante.
Assim, resolvemos debruçarmo-nos um pouco sobre a dita capela.
Esta capela conhecida actualmente como da “Boa-Nova” ou de “S. João da Boa-Nova” foi, em tempos, oratório de S. Clemente das Penhas, onde se instalaram os frades franciscanos no século XIV, conforme nos diz Frei Manuel da Esperança, membro da Ordem dos Frades Menores de São Francisco, da Observância, na Província de Portugal e seu cronista; havendo contudo registos precisos da sua existência já em 1369.
Do antigo oratório e respectivo cenóbio ou conventinho, restam do lado Norte da Capela, a meia altura da respectiva parede uma cornija onde assentaria o vigamento do seu telhado.
Junto à porta da sacristia umas pequenas construções muito degradadas corresponderão às duas celas referidas por Frei João da Póvoa nas suas “Memórias”, onde se pode ler que quando os frades deixaram São Clemente e foram para Santa Maria da Conceição, ficou lá um frade só, e começaram a desfazer todo o mosteiro, aproveitando a pedra e desfazendo as casas todas, de tal modo que ficou apenas a igreja, a sacristia e duas celas.
Deste lado norte ficaria também o pequeno cemitério dos frades.
Na fachada Sul encontramos quatro cachorros ou modilhões onde assentam os frechais que recebiam a armação de madeira, do telhado que cobria esta construção. Estaremos assim, dentro do antigo convento delimitado pelos baixos muros aí existentes que seriam mais altos, formando a passagem do convento para a ermida com um pequeno telheiro e bancos para possíveis peregrinos ou romeiros.
Dadas algumas pistas para prova da antiguidade do monumento, descrevamos a sua fachada.
Após várias transformações por que deve ter passado, a capela apresenta dois pilares da mais simples das ordens romanas, a toscana, sobre os quais assentam cornijas em arco inflectido e cortado no vértice, sobre a qual apoia um pedestal com cruz latina.
Ao prumo dos ditos pilares temos pedestais encimados por pináculos simples.
As ombreiras e lintel da porta são lisos, sobrelevados por um frontão curvo cortado. Acima, ao centro, uma janela de quatro folhas e aos lados da porta, pequenos postigos rectangulares.
No seu interior encontramos um retábulo de talha do século XVIII, em estilo joanino. Quatro elegantes colunas de fustes lisos, anelados de ornatos e terminados por mimosos capitéis, firmes em pedestais adornados de aves e pequenos florões. Entre as colunas temos três nichos, sendo o central maior, e finamente orlados, onde estão as imagens da Senhora de Boa Nova, uma primorosa escultura de madeira policromada do principio do século XVII, à qual recorrem muitas vezes os interessados nos bons sucessos dos navegantes ausentes.
São João Baptista, esta também uma imagem em madeira policromada, mas do século XVIII, advogado das doenças da cabeça.
São Clemente, uma bela e bem conservada imagem do século XIV, em pedra de ançã, policromada, sendo a imagem mais antiga da freguesia de São Miguel de Leça da Palmeira.
Convém ainda referir uma pia de água benta, talhada em granito existente junto à porta que liga a humilde sacristia à capela-mor, original, e utilizada pelos frades ao entrarem nela.
Os frades mudaram-se em 1478 para o convento da Santa Maria da Conceição.
De registar também umas sepulturas rupestres que existiram na zona, que o progresso e algumas modernices se encarregaram de fazer desaparecer. Os moinhos de vento dos quais restam os ruínas de um, com a promessa da sua consolidação e enquadramento para preservação da memória.
Esta capela da Boa Nova serviu de guarida aos náufragos do navio inglês Veronese naufragado em 16 de Janeiro de 1913 que arrebatados pelos valentes bombeiros voluntários de Leça da Palmeira às ondas traiçoeiras através do cabo de vaivém, aí recebiam os primeiros socorros aguardando a transferência para o posto de desinfecção do Porto de Leixões ou lazareto, e onde foi rezada uma missa pelos mortos na data do primeiro aniversário do dito naufrágio.
Também aí, antes de se fazer a doca, as mulheres passavam as tardes nos rochedos, com trabalhos de roupa caseira, entretidas à espera dos navios que lhes traziam os familiares do Brasil, e quando os avistavam e reconheciam corriam a dar a Boa Nova.
Este ambiente e esta penedia da Boa Nova encantou os artistas, tais como os pintores António Carneiro, Artur Loureiro e Veloso Salgado e poetas como António Nobre que no “Só” escreve: Ó Boa Nova, ermida à beira-mar, / única flor, nessa vivalma de areais; / Na cal, o meu nome ainda lá deve estar / à chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios! / Ó poentes da Barra que fazem desmaios!... / … / Onde estais?
Ouvimos há pouco tempo o máximo responsável autárquico prometer a recuperação deste conjunto patrimonial, integrada nas obras da marginal que estão a decorrer, e esperamos que não passe apenas de promessa pois com todo o esforço que vem sendo feito pelos responsáveis e colaboradores da paróquia para a sua manutenção, as obras são mesmo urgentes.
Ah! E já agora aproveitem a ocasião para livrar a envolvente dos sinais que por lá proliferam de cultos obscuros e crendices macabras!
Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 2 - Abril de 2008

segunda-feira, 31 de Março de 2008

A Voz de Leça Faz 55 Anos

Por iniciativa do Padre Alcino Vieira dos Santos, A VOZ DE LEÇA nasceu em Março de 1953, há 55 anos, para “falar, dizer, informar, formar, orientar, acompanhar”, tal como referiu D. Armindo Lopes Coelho na mensagem que dirigiu a este Jornal no 50º aniversário. Curiosamente, em 2003, a direcção d’A Voz de Leça estava igualitariamente repartida entre o fundador e o Sr. Padre Lemos, seu actual Director – 25 anos para cada um. Cinco anos depois essa igualdade está desfeita – já passaram 30 anos desde que o nosso Pároco assumiu a Direcção. Não tão marcante como as Bodas de ouro, 55 anos é também uma data “redonda” propícia à lembrança e à menção de quem por cá passou, em especial o fundador, Padre Alcino Vieira, que pensou este Jornal e o tornou ‘Voz’ da Paróquia e para a Paróquia. Fez destas páginas um canal de comunicação sempre aberto com os seus Paroquianos, tal como D. António Ferreira Gomes preconizou na mensagem que dirigiu à Paróquia há 55 anos, na primeira edição: “Por ele a freguesia manifestará as suas aspirações e anseios, dirá das suas iniciativas e realizações. ”Aqui surgiram as primeiras referências aos Bairros dos Pobres e ao Salão Paroquial, que foram as duas mais importantes obras que nos deixou. Aqui foi dando conta do andamento dos projectos, das obras em si, das dificuldades, mas também das ofertas generosas, tantas vezes surpreendentes, que sempre surgiam quando o ‘aperto’ era maior.
Claro que nem tudo foram “rosas” nestes anos todos e houve tempos menos felizes na vida deste Jornal, em especial quando, com escassas perspectivas de continuidade quase desapareceu, em 1978 e 1985. Reergueu-se, primeiro a custo, depois com mais pessoas, (o Alcino Glória, o Sr. Filipe Pacheco e o Manuel José Carneiro) e há um ano, sublinhava-se a estabilidade da Equipa que elabora o jornal mês a mês, reforçada por um grupo de jovens, para além do Eng.º António Ferreira e do Eng.º Rocha dos Santos, que tem levado A Voz de Leça em incursões pelo passado da nossa terra. Nos últimos seis meses houve, porém, algumas mudanças – a Perícia deixou-nos, pelo que voltamos ao contacto directo com a Gráfica Firmeza, como há anos se fazia e o Sr. Filipe Pacheco cessou a sua colaboração regular. Tivemos que alterar ‘timings’ e algumas ‘formatações’, já que agora o Jornal passa exactamente pelos mesmos procedimentos na fase anterior ao envio para a Gráfica, com meios menos ‘profissionais’, mas com um empenho imenso de quem faz questão de apresentar a mesma qualidade.
Sem nunca perder de vista o essencial da já citada mensagem de D. António Ferreira Gomes, de ser “voz de muitas águas” e “o eco permanente do marulhar profundo (…) da vida paroquial” A Voz de Leça faz-se, acima de tudo, com muito gosto e sempre num exercício de prazer.

Estamos todos de Parabéns!
Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 1 - Março de 2008

Óscar da Silva - 50º Aniversário do Seu Falecimento

No passado dia 6 de Março completaram-se 50 anos sobre a morte de Óscar da Silva, eminente músico português, reconhecido internacionalmente, que passou partes importantes da sua vida aqui, em Leça da Palmeira, onde também está sepultado.
Óscar da Silva Corrége Araújo nasceu no Porto, (na Rua de Costa Cabral), a 21 de Abril de 1870. Iniciou os estudos na área da música aos onze anos, altura em que compôs a sua primeira peça, “Hino Infantil”. Começa a frequentar o Conservatório Nacional com 14 anos e, em 1891, apresenta-se como pianista, começando desde logo a ter grande sucesso. No ano seguinte recebe uma bolsa de estudos da Rainha D. Amélia e vai estudar piano e composição para o Conservatório de Leipzig (Alemanha). Ali prossegue estudos com Clara Schumann, viúva do compositor alemão Robert Schumann e uma das maiores pianistas de todos os tempos, que terá afirmado que nunca ninguém tinha interpretado as composições do marido como Óscar da Silva o fez.
Entre 1894 e 1921, já a viver em Leça, na Rua Moinho de Vento, faz várias tournées pela Europa e América, sem esquecer a terra de acolhimento, tendo dado o 1º recital no Clube de Leça, em 1896. Entretanto, os pais, João da Silva Araújo e D. Luísa Augusta Corrége, aqui morrem, entre 1909 e 1910, altura em que deixa a casa da Rua Moinho de Vento e vai viver para casa de um amigo no Lugar de Vila Franca, na rua que viria a ter o seu nome.
Parte para o Brasil em 1930, onde vive cerca de 20 anos, regressando a Portugal a convite de António Salazar. Em 1935 vê grande parte da sua obra publicada e é condecorado com a Ordem de Santiago e Espada. Regressa a Leça da Palmeira em 1954, onde morre a 6 de Março de 1958.
Intérprete genial de Chopin e de Schumann, a sua arte superior foi aplaudida em todo o mundo. Destacou-se também como compositor. Essencialmente romântico, seguiu a evolução modernista e aceitou com entusiasmo as novas correntes, sendo considerado o iniciador da música moderna em Portugal, traduzindo, através da música, o lirismo da alma nacional, até aí apenas manifestado na poesia. Assim compôs “Nostalgias”, “Sonata das Saudades”, “Queixumes” e “Dolorosas”, esta última tocada nas suas exéquias.
Foi retratado na imprensa da época como “Dotado de um temperamento especial e personalidade própria. No seu olhar tristemente doce descobria-se a candura das almas boas. Coração nobre, afectuoso, fidalgo (…)”e Fialho de Almeida disse dele: “Figura fina; tez pálida; olhos de lusíada deixando ver na limpidez pupilar o fundo da alma. Gestos simples, maneiras tão belas e frases tão sóbrias que não seria possível deixar de sentir-se preso, quem a primeira vez dele se acercasse.”
Inicialmente sepultado no jazigo de António de Carvalho (da FACAR), os restos mortais de Óscar da Silva foram trasladados para o mausoléu construído pela Junta de Freguesia, em 21 de Abril de 1967, nove anos após a sua morte.

Mariana Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 1 - Março de 2008

A Sagração do Espaço

É o titulo da exposição retrospectiva da obra do escultor Manuel Nogueira patente ao público na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos, entre 19 de Janeiro e 24 de Fevereiro, do corrente ano e que nos trouxe um artista que dedicou toda a sua vida à arte, principalmente à escultura e que nem sempre foi bem compreendido e por vezes foi até ultrapassado com manobras perigosas que deixaram as suas marcas patentes na revolta como encara o relacionamento do dia a dia.
Esta exposição mostra-nos um conjunto de obras do autor nos variados campos desde a escultura à medalhística mas não só; pois pela mão sábia do professor A. Cunha e Silva teve o condão de levar os interessados a uma visita guiada à mesma e a alguns dos locais onde existem obras que pela sua dimensão ou local de exposição não foi possível trazer. Essa visita aos locais terminou com elevada satisfação por um dia de cultura plena, no Seminário da Boa Nova, em Valadares – Vila Nova de Gaia, onde todos tiveram a oportunidade de admirar uma preciosa imagem de Nossa Senhora da Boa Nova talhada em madeira, de grandes dimensões.
Este ciclo terminou com a conferência Manuel Nogueira escultor: “A Sagração do Espaço” que será proferida pelo professor A. Cunha e Silva no dia 21 de Fevereiro de 2008 no Auditório da Biblioteca Municipal Florbela Espanca.
Manuel da Silva Nogueira nasceu em Santa Cruz do Bispo – Matosinhos, e aos dez / onze anos entrou como aprendiz na oficina de Mestre Guilherme Thedim. Esta oficina pertencia a um escultor que fazia peças religiosas ou de arte sacra, de onde saíram imagens como as de Nossa Senhora de Fátima, que se encontram no Santuário de Fátima e na Igreja Paroquial de Leça da Palmeira, bem como de outros santos para várias igrejas do país e do estrangeiro. São imagens diferentes facilmente identificáveis pela expressão do olhar e pela delicadeza das linhas do rosto.
Uma das primeiras peças feitas por Manuel Nogueira foram as asas da imagem de S. Miguel Arcanjo, uma simbólica escultura religiosa que está na Igreja Paroquial de Leça da Palmeira, cujo corpo é da autoria é de Guilherme Thedim.
Este trabalho marca o início da carreira de Manuel Nogueira o qual, por indicação do seu Mestre, recebeu tal tarefa como característica iniciática, foi a aprendizagem do talhe directo das asas do anjo desta imagem e, como diz Cunha e Silva no belo catálogo da exposição, “… em todas as tradições, as asas nunca são recebidas, mas sim conquistadas com o preço de uma educação iniciática e purificadora.
Todos os artistas, ou quase todos, ficam marcados pelas obras da sua juventude, pela ingenuidade e generosidade dos seus primeiros gestos. Estes são trabalhos límpidos, sem vícios, que poderão vir a constituir-se em símbolos, memoriais. Aqui se afirma a marca pessoal do artista, a escolha do caminho a percorrer, os conceitos a defender. Todavia o escultor ampliou as atracções originárias com estudos académicos e o afinco de quem busca uma superação em cada satisfação”.
É assim que o seu percurso o leva à Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, onde frequenta o Curso de Escultura Decorativa; e onde com 26 anos dirigiu a disciplina de Tecnologia de Escultura. Foi aluno de Mestra Barata Feyo, no curso de Escultura da Escola Superior de Belas Artes do Porto.
Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, em Itália, onde frequentou a Academia Di Belle Arti Pietro Vanucci, em Perugia; e equiparado a bolseiro do Instituto de Alta-costura, na especialidade de Técnicas de Escultura. Frequentou, no Instituto Di Betto a disciplina de Restauro. Tem o curso de escultura da Academia Di Belle Arti Pietro Vanucci.
Do seu longo curriculum fazem parte intervenções em diversos colóquios internacionais sobre o tema “Cristo nas Artes Plásticas”.
A obra do escultor Manuel Nogueira está representada em vários museus de Itália, e em museus e igrejas, bem como em diversas colecções particulares.
Participou em diversas exposições colectivas de Artes Plásticas em vários países de diferentes continentes.
Durante quinze anos fez restauro de escultura de todas as épocas, continuando até esta data as experiências sobre a consolidação e preservação das madeiras.
Tem desenvolvido também as técnicas de esmaltagem sendo de destacar a sua obra Cálice em ouro para Sua Santidade Paulo VI, mas gostamos também imenso do Sacrário de uma Igreja em Chaves.
De realçar ainda a sua obra de Medalhística que atinge já mais de cento e vinte medalhas onde destacámos as séries “Capelas de Leça da Palmeira” e “Eça de Queirós”, a dos “250 anos das Festas do Bom Jesus de Matosinhos”, “1.º ano das Festas de Matosinhos como Cidade”, “IV Centenário da Edição dos Lusíadas” e muitas outras.
Privamos há pouco tempo com o escultor Manuel Nogueira mas já deu para reconhecermos a sua força interior, a sua visão do mundo e da arte, uma sensibilidade natural a que não será alheio o meio rural e natural de Santa Cruz do Bispo em que foi criado, daí como o próprio deixou registado no verso da medalha dedicada a António Cândido: “… o mundo está cheio de palavras, fala-se muito, medita-se pouco mas só a meditação é fecunda”.

Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 1 - Março de 2008

Monte Espinho - Comunidade em Festa - Aos 28

Domingo, 10 de Fevereiro obrigou-me a repensar o que são 28 anos de existência.
Passei por essa idade, há alguns anos, e recordo como de facto aos 28 já passámos a infantilidade do “quando for grande gostava…” ou a ingenuidade da adolescência com o “ se eu pudesse ou tivesse…”. Realmente aos 28 já sabemos com alguma certeza quem somos e do que parecemos ser capazes. Embora os sonhos não desapareçam (ou não fossem eles uma constante da vida), a verdade é que aos 28 já a vida oferece uma certa sensatez que se confirma aos 30.
Naquele domingo, cantei juntamente com algumas dezenas de pessoas, os parabéns porque fez 28 anos que a Capela de Monte Espinho tem razão de existir. Há 28 anos, celebrou-se neste lugar a primeira missa e com essa celebração nasceu igualmente uma vontade de expandir a fé. Uma fé que prevalece e que se extravasa em dias como o de domingo. Diante de muitos amigos e convidados confirmou-se o desejo de manter viva e continuar uma obra que já toca a maturidade. Os que nela se envolveram desde início, já passaram as fases do desejo infantil ou do sonho ingénuo. Já provaram que o projecto existe, que tem potencialidades para continuar vivo e que, como qualquer projecto, vive traçando metas futuras que continuam a ser esquecidas ou adiadas.
Aos 28, já questionamos os obstáculos e constatamos que a falta de concretização do projecto não depende da falta de vontade dos que nele se envolvem mas sim da falta de apoio dos que podem, mas que, ingénua ou propositadamente, se esquecem dele.
Aos 28, continuamos a dar valor, muito valor aos amigos que estão ao nosso lado nos grandes momentos. E sentimos a falta dos que por algum motivo não possam estar presentes.
No domingo, os amigos estiveram por lá a participar activamente quer na celebração, quer no almoço, quer na animação que decorreu durante a tarde. Alguns elementos do Coro Milium, que já travaram uma espécie de “intercâmbio coral” com o Coro de Monte Espinho, participaram vivamente na animação da celebração. A assembleia sensibilizou-se com a alegria e o amor com que se cantou nesse dia. Não faltaram igualmente as confrarias e outros Grupos que acharam por bem assinalar com a sua presença mais um aniversário. A celebração foi presidida pelo Pe Marcelino que tem cumprido assiduamente o seu compromisso de “dizer missa no Monte Espinho”. A ausência do Pe Lemos fez-se sentir pois o aniversário também é dele e a Comunidade continua a agradecer e a reconhecer a sua generosidade.
Durante a tarde, o almoço partilhado reuniu muitas crianças e seus familiares que aí frequentam a Catequese, o que envaideceu muito os Catequistas que procuram, mais do que nunca, envolver os pais no crescimento na fé das suas crianças. E, à tarde rimos todos: as crianças dançaram e cantaram, as Pajens, os Acólitos e a Confraria divertiram a assistência com um espectáculo muito de improviso mas que realmente levou às lágrimas a plateia. Foi realmente muito bom!
Aos 28, está-se no auge da vida. Embora cientes dos problemas continua-se a acreditar na vida, no futuro. E, se se é cristão todas estas crenças ganham uma dimensão ainda maior: é que Deus está sempre com os que Nele acreditam e não desistem.
Aos 30, concretizam-se definitivamente ou adiam-se para sempre projectos. O sonho permanece mas só se tornará realidade com a força de outros que podem mais do que aqueles que sonham.


Ana Pascoal
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 1 - Março de 2008

Em Monte Espinho Há uma Comunidade Viva

Este ano foi a primeira vez que pude assistir, ao vivo, à festa da Comunidade de Monte Espinho. Conhecendo muita gente dali, não me surpreendeu nada o carácter simples, despretensioso e familiar da celebração. Na pequena Capela, cheiinha até à porta, foi como se todos pertencessem à mesma família de sangue. E pude perceber melhor como nasceu, como cresceu, os projectos concretizados e os que têm, não por concretizar, mas para concretizar. Porque foi sempre assim: responderam ao apelo do Sr. Padre Lemos, há 28 anos, para que se pudesse ali celebrar a Eucaristia e a primeira foi mesmo numa garagem. Estava como que lançada a ‘primeira pedra’ da Comunidade, que hoje tem uma Irmandade, Grupo Coral, Grupo de Acólitos, de Pagens, Catequese e uma pequena mas acolhedora Capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, que todos de alguma forma ajudaram a erguer, com trabalho, com dinheiro, com apoio logístico. No dia 10 de Fevereiro, o Coro estreou um órgão e verificaram a necessidade de adquirir um Sacrário para a Capela. Vão certamente tê-lo em breve, porque é quando surge um novo desafio que aquela pequena Comunidade se ergue, mais unida do que nunca.
No texto sobre o 28º aniversário da Comunidade de Monte Espinho, a Ana Pascoal deixa nas entrelinhas a ideia de que estará na hora de concretizar o outro grande projecto, depois da construção da Capela – a construção de um Centro para as actividades da Comunidade, que actualmente decorrem num espaço contíguo à Capela, ainda em ‘bruto’, (tijolos e cimento).
Está ali já a base do novo projecto e há uma vontade enorme de todos, que se conjugada com aquilo a que chamo ‘vontades oficiais’, (leia-se, Autarquia Camarária…), poderá levar à sua mais rápida concretização, para que, talvez quando a Comunidade chegar aos 30, mesmo que ainda não esteja tudo concluído, já só faltem pormenores.

Obrigado pelo exemplo e Parabéns.
Marina Sequeira
in "A Voz de Leça", Ano LV - Número 1 - Março de 2008

Obrigado Monte Espinho

Quando o meu telefone tocou naquele dia de Inverno, frio e chuvoso, estaria longe de pensar que do outro lado, provinha o convite para participar no aniversário da Comunidade do Monte Espinho. Não apenas um convite para uma presença física, mas também um convite para uma presença activa e participativa na Eucaristia. Claro está que o convite foi extensível a todo o “inactivo” Coro Milium. E digo “inactivo”, pois apesar de neste momento não sermos um Grupo “activo” da Paróquia por força dos novos horários das Eucaristias, de algum modo cada um dos elementos do Coro Milium vai participando na vida da Paróquia, o que mostra que o Coro acabou, mas a vontade dos seus elementos continuarem de alguma maneira a dar o seu contributo manteve-se. Deste modo, face ao convite da Comunidade do Monte Espinho em estarmos presentes na Celebração Festiva de Comemoração dos 28 anos da Capela, não poderíamos sequer equacionar a nossa falta. Mas, penso que, muito mais que o convite fica sem sombra de dúvida a amizade que nos une, a nós, membros do Coro Milium e toda uma Comunidade que cada vez mais é uma “Pedra Viva do Templo do Senhor”, tal como ditou o cântico de entrada na Celebração. Por tudo isto, pelo convite, pela amizade e sobretudo pelo enorme carinho com que fomos recebidos por essa Comunidade, expressamos o nosso mais sincero agradecimento. E fazemo-lo aqui, publicamente, no Jornal “A Voz de Leça”, porque seria de todo o modo impossível agradecer pessoalmente a cada um por si só, tantos foram aqueles que nos abraçaram e nos agradeceram a presença naquele dia 10 de Fevereiro. Estaremos sempre disponíveis para participar em tudo e para tudo o que nos convidarem, na certeza que a Comunidade do Monte Espinho terá sempre um lugar especial nos nossos corações. Obrigado a todos.

Pelo Milium
José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça", Ano LV - Número 1 - Março de 2008

quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

Evocação do Naufrágio do Veronese

A exemplo do sucedido com a Palestra sobre os Lavradores de Leça, que o Engenheiro Rocha dos Santos pôde repetir no contexto mais adequado – uma grande casa de lavrador, no caso a da D. Alzira Reina e do Sr. Macedo da Silva, depois do trabalho sobre o Naufrágio do Veronese que A Voz de Leça publicou há um ano, foi muito perto do local onde tudo aconteceu há quase um século que foi evocado aquele acontecimento trágico – na Capela da Boa Nova.

Faz parte do nosso imaginário e do leque de histórias locais contadas à mesa, depois do jantar, pelos meus pais Moisés Santos e Brizida Rocha, no tempo em que não havia televisão, a história do naufrágio do navio inglês Veronese nos rochedos da Boa – Nova, o que nos fez sonhar ao longo dos anos em reconstituir tal ocorrência, tendo surgido uma primeira oportunidade com uma crónica publicada com sucesso, nos jornais “A VOZ DE LEÇA” e “MATOSINHOS HOJE” que nos abriram as portas de modo a concretizarmos este nosso sonho.
Agora com o convite da “ASSOCIAÇÃO PARA A UNIVERSIDADE SÉNIOR DE MATOSINHOS”, através do amigo prof. Cunha e Silva, a que se juntou novamente “A VOZ DE LEÇA” e com a colaboração dos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira, aqui estamos para vos dar a conhecer aquilo que fomos coleccionando quer na memória quer em documentação.
Assim esta ocorrência que entrou na história que a cada passo é recordada, verificou-se em 16 de Janeiro de 1913, um dia de rigorosa invernia com chuva torrencial, um vento muito forte e um nevoeiro cerrado, duas milhas a norte de Leça da Palmeira, um pouco acima da Capela de S. João da Boa – Nova o grande paquete inglês, de 7877 toneladas, da casa Lamport & Holt Line, representada em Portugal pela firma Garland Laidley, Ld.ª do Porto encalhou nos rochedos pontiagudos, conhecidos por “Lanhos”.
Esta Capela de S. João da Boa – Nova onde nos encontrámos, designada antigamente como Oratório de São Clemente das Penhas, onde, em 1392, se instalou Frei Gonçalo Marinho fundando o oratório, encontra-se já em referências escritas nos anos de 1369 e 1376, permanecendo ainda hoje alguns vestígios do antigo oratório e respectivo cenóbio, ou conventinho. Na parede exterior norte existe uma cornija em pedra, onde assentava o vigamento do seu telhado e na parede sul podemos ver quatro cachorros ou modilhões.
As construções anexas a norte são as duas celas referidas por Frei João da Póvoa nas suas “Memórias Soltas”.
Actualmente na sua simplicidade, ressalta no seu interior o retábulo de talha do século XVIII em modesto estilo joanino, com três imagens: São Clemente, Senhora da Boa Nova e de S. João Baptista.
A casa Lamport & Holt Line foi fundada em 1845 por William James Lamport e George Holt.
O vapor havia sido construído em 1906 na empresa Workman, Clark & C.ª, Ld.ª de Belfast e veio de Liverpool para Vigo, onde embarcaram 100 passageiros com destino aos portos do Brasil, Venezuela e Argentina.
O mar agitado e alterado obrigou-o a desviar-se excessivamente para terra, embatendo nos rochedos, daí resultando um inevitável rombo, alagando o porão da proa.
Mais uma medonha e horrível catástrofe ocorria nesta costa norte, provavelmente pela falta de sinais luminosos, nessa altura com farolagem bastante imperfeita ou deficiente, daí a nefasta designação de “Costa negra” ou “Costa muda”.
A bordo, o paquete de passageiros trazia 221 pessoas e dos passageiros faziam parte cinco portugueses, sendo os restantes espanhóis, ingleses e alemães.
Estes portugueses eram:
José Cerqueira, de Freixieiro, José Fernandes, de Monção, António Carvalho, de Freixas – Mirandela, João Afonso Veloso, de Monção e Carlos Teixeira de Freitas, sobrinho do Visconde da Ribeira Brava e que já naufragara outras duas vezes, uma no “Mauritânia” e outra no iate “Maria”.
Três deles eram considerados conspiradores, não sabemos quais, não sendo necessariamente monárquicos como alguém aventou a hipótese; contudo, foram salvos e mandados para território espanhol, depois de lhes ter sido permitido descanso e de serem carinhosamente tratados.
Foi preciso um enorme esforço para salvar os 202 sobreviventes, pois 19 já tinham desaparecido, arrebatados pelo mar ou afogados nos porões e camarotes quando do encalhe, porque o mar estava agitadíssimo, com vagas impetuosas e altas que batendo furiosamente no seu costado, galgavam e varriam o convés. A neblina cerrada envolvia o barco, que apitava pedindo socorro.
Dado o alarme, os briosos soldados da paz dos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira sob o comando do brilhante oficial do exército, coronel Laura Moreira, rapidamente compareceram no local com todo o seu equipamento, dando inicio ao lançamento de foguetões com o fim de estabelecerem o respectivo cabo de vaivém, o que, segundo consta, era um meio de salvamento recente no nosso País.
Durante o dia 16 muitos foguetões foram lançados até que se conseguisse estabelecer o vaivém, uns porque não chegavam a bordo do Veronese, outros porque partiam as linhas nas pedras, para onde eram levadas pelo mar e a rebentação; porém, renovando-se as tentativas, à tarde conseguiu-se estabelecer o vaivém, tendo vindo para terra o primeiro naufrago entre as 18 e as 19 horas, uma jovem e linda espanhola, Miss Doroteia Olkat, de 15 anos de idade, uma passageira de 1.ª classe, procedente de Liverpool com destino a Buenos Aires onde a esperavam uma irmã e cunhado.
A tripulação e passageiros, abrigados a sotavento dos camarotes e alojamentos, sobre o “spardek” e com uma aparente serenidade, contemplavam os esforços que de terra se empregavam para restabelecer o cabo de vaivém, e, não obstante a sua aflitiva situação, soltavam “hurrahs”, tendo, como reconhecimento por esses esforços de tentativa do seu salvamento, içado as bandeiras portuguesa e inglesa no estai de entre mastros.
Na praia foi montado um posto de sinais com o respectivo mastro, para comunicações com o navio por meio de código comercial.
Foram lançados 58 foguetões mas só 5 alcançaram o paquete. E, quando estabelecida a ligação, o comandante Charles Turner, não sem dificuldades, conseguiu manter a disciplina a bordo, dando ordens terminantes para que as primeiras pessoas a salvar fossem as mulheres, seguindo-se-lhe os homens e, por último, os tripulantes, ordens estas que foram escrupulosamente cumpridas.
À luz de archotes e mais tarde de cinco gasómetros de acetileno sob chuva torrencial o cabo de vaivém funcionava bem e iam chegando sucessivamente outras pessoas. Era uma mãe acarinhando ao peito uma filhinha de oito anos ou uma mulher que, apesar de desmaiada, apertava sempre nos braços uma criancinha.
Chegaram outras mulheres que no posto médico estabelecido na Capela da Boa Nova, onde o primeiro médico a chegar foi o Dr. Manuel Monterroso, nascido na freguesia da Lomba, em Amarante, em 1876, vivendo vários anos em Matosinhos, contavam entre soluços a forma como viveram aquele desastre, as suas angústias, e as horas longas em que todos tinham desesperado de se salvarem. Diziam aquilo chorando e olhando o barco onde havia ainda muitos desditosos que tinham descido para os porões desde que o mar levara dois.
Também no trajecto, uma mulher deixara uma vaga levar-lhe uma criança que trazia consigo nos braços, na bóia-calção. Dizia a nossa tia Olívia Maria que foi assistir aos salvamentos que se tratava da criada com a filha da senhora que tinha vindo no salvamento anterior.
A meio da tarde, do dia 17, havia mais de cinquenta pessoas salvas.
As dificuldades eram muitas, a bóia-calção vinha muitas vezes por dentro de água porque a cabrilha normal do equipamento dos bombeiros é baixa, foi então que no inicio do dia 17, enquanto se procedia a diligências para o restabelecimento da ligação com o barco, um homem, lavrador com terrenos no lugar de Ródão, em Leça da Palmeira, que vendo o esforço das várias corporações de bombeiros voluntários accionarem os seus foguetões em sucessivas tentativas para fazerem chegar os cabos de vaivém ao navio naufragado caírem goradas; teve a perspicácia e oportunidade de se aperceber que, pela altura das cabrilhas entretanto instaladas no areal, quando conseguissem montar novamente o cabo de vaivém, a bóia calção, trazendo os náufragos, não teria outra hipótese que não fosse a de mergulhar nas águas gélidas e revoltosas.
Então, pensou e rapidamente, na sua mente, surgiu uma ideia. Dirigiu-se ao areal indagando quem comandava as operações, com quem chegou à fala, propondo-lhe a sua solução que de imediato foi aceite! Propôs a montagem de duas varas de pinheiro, que foi buscar às suas bouças, muito mais altas do que a cabrilha por onde passava o cabo, trazendo a bóia-calção acima das ondas e com mais facilidade para todos incluindo aqueles que puxavam o cabo e os náufragos que iam chegando à praia, e que foram em tal número que foi estabelecido o record de salvamentos por este meio.
Este homem generoso e simples chamava-se Manuel António José Correia, conhecido como o António “Rato” de Ródão, que na sua generosidade e grandeza de alma nunca aceitou qualquer homenagem, condecoração ou sequer referência ao seu nome nas listas daqueles que se distinguiram nos esforços desenvolvidos para salvamento dos tripulantes e passageiros do navio naufragado; VERONESE; contudo, mais tarde, recebeu daquela companhia como reconhecimento, uma cigarreira em prata, na frente da qual se pode ver gravada a bandeira da companhia a cores e as referências “Boa Nova”, “16th January 1913”.
Estas vagas alterosas não permitiam a aproximação dos barcos salva – vidas de forma que foi preciso estabelecer entre eles e o navio uma bóia circular de salvação onde os náufragos se metiam, lançando-se ao mar, sendo então alados para dentro do salva – vidas que se aguentavam sobre os remos, levando-os depois para os barcos de reboque.
Os salva – vidas disponíveis eram o “Rio Douro” comandado pelo heróico José Rabumba “O Aveiro”, nascido na freguesia da Senhora da Glória, em Aveiro, a 24 de Fevereiro de 1866, falecendo em Leça da Palmeira em 25 de Março de 1952 e o “Cego de Maio” comandado por Manuel António Ferreira, o “Patrão Lagoa”, nascido na Póvoa de Varzim a 14 de Junho de 1886, onde faleceu a 7 de Julho de 1919, o qual tinha vindo da Póvoa de Varzim por terra. Dois salva – vidas comandados por dois verdadeiros e ousados lobos-do-mar!
Estes dois salva – vidas saíram durante a madrugada de Leixões, o primeiro a reboque do “Tritão” de que era comandante Francisco Gomes Cardia, e o segundo a reboque do “Bérrio”.
No inicio do dia 18 o tempo melhorou permitindo a aproximação dos salva – vidas ao vapor Veronese, mesmo assim um pouco ao largo, tendo os náufragos saído do paquete amarrados a uma bóia atirando-se à água, sendo logo recolhidos pelos dois salva – vidas.
Ao fim de duas viagens do “Tritão” e três do “Bérrio”, pelo meio da tarde do dia 18 de Janeiro de 1913, todos os náufragos se encontravam no Posto de Desinfecção, devidamente preparado para os receber. Esses náufragos que ao desembarcarem agradeciam o auxílio entoando em coro o hino inglês que é uma prece e simultaneamente era uma homenagem.
Ao ser dado sinal de que o último náufrago saiu do “Veronese” o seu capitão, Charles Turner, agitou as bandeiras dos sinais e de terra acenaram-lhe com lenços numa saudação. Cumprira até ao fim o preceito estabelecido nos casos de naufrágio, o de se salvarem primeiro as mulheres e crianças, depois os homens e por último a tripulação pela ordem inversa da sua hierarquia, o seu navio estava perdido mas ele ficara com vida, meteu-se na bóia – calção e ao chegar a terra foi alvo de uma grande manifestação de regozijo através de uma prolongada e quente ovação por parte dos muitos milhares de pessoas que na praia assistiram emocionadas ao dramático espectáculo marítimo.
Em toda esta situação houve trinta e oito vítimas mortais. No entanto salvaram-se 191 indivíduos sendo 89 pelos cabos dos Bombeiros e 102 pelos barcos salva – vidas.
O cabo de vaivém realizou o “record” do mundo em salvamentos, como dissemos e foi reconhecido em todas as instâncias, pelo comandante do navio.
Os bombeiros de Leça foram uns verdadeiros heróis. Pensamos até que o seu record jamais foi ultrapassado.
Claro que perante tamanha tragédia muitos se salientaram no salvamento dos náufragos sendo os seus actos heróicos reconhecidos pelo Instituto de Socorros a Náufragos que lhes concedeu diversas condecorações e das quais destacamos: Medalha de Ouro, a José Rabumba, “O Aveiro”, patrão do salva – vidas “Rio Douro” e a Manuel António Ferreira, “O Patrão Lagoa”, patrão do salva – vidas “Cego de Maio”. Medalha de Prata, a Alfredo Guilherme Howell, capitão de fragata, capitão do porto de Leixões, a João do Amaral, José Pereira da Silva, Augusto Pereira Ramiro, José Fernandes Tato, Manuel da Cunha Folha, Adelino Pinto dos Santos, Afonso Caetano Nora, Serafim dos Santos Serafim, José Bento Garcia, João Esteves Galego, Manuel Caetano Nora, António de Oliveira Brandão, Joaquim de Oliveira Meireles, Manuel Gomes, Inocêncio Pinto Soares, todos eles tripulantes do salva – vidas “Rio Douro”. Medala de Cobre, a Dr. Manuel Monterroso, a Francisco Gomes Cardia, comandante do rebocador “Tritão”, a Alberto de Laura Moreira, comandante dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos e Leça da Palmeira e Associação dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos e Leça da Palmeira. Com o diploma de louvor aos Dr.s José Pinto Queiroz de Magalhães, director da Cruz Vermelha, Mário de Castro, Bernardino Silva, José de Sousa Feiteira Júnior, José Casimiro Carteado Mena, Pedro de Sousa, António Freitas Monteiro, José Domingues de Oliveira Júnior, Barros Nobre, José Maria Ferreira, capitão médico, Manuel Bragança, tenente médico e Victorino Magalhães, tenente médico.
Muitos outros foram condecorados que aqui não mencionamos por se tornar fastidioso enumerá-los todos.
Também a Cruz Vermelha Portuguesa condecorou diversos voluntários que tudo deram pelo bem dos náufragos.
Mais tarde 130 passageiros embarcaram para o Brasil no vapor “Darro” e os restantes foram para diferentes portos, embarcando nos navios “Salamanica” e no “Orita”, outros embarcaram em Lisboa no navio Avon com destino a Inglaterra.
Quando o tempo amainou o agente da companhia, o comandante e alguns oficiais foram a bordo, percorrendo várias dependências do navio de onde retiraram ainda roupas, objectos náuticos, documentos e malas com valores que se encontravam nas cabines da 1.ª classe.
No porão do navio apareceram três cadáveres de dois homens e de uma mulher.
Mais tarde vinte e cinco trabalhadores retiraram alguns salvados para bordo do rebocador Hermes, aparecendo abertas algumas malas, talvez pelos próprios proprietários que, no meio da sua angústia, tentassem salvar alguns dos seus valores. Também se retiraram de bordo as malas do correio que se destinava a Buenos – Aires, em muito mau estado, mas chegaram ao seu destino.
O mar foi arrojando à praia muitos destroços e pertences do navio e da sua carga alguns dos quais se mantêm ainda hoje na posse de algumas pessoas como as três argolas de guardanapos que aqui exibimos, e outras recordações como as existentes no Museu dos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira.
Esta situação deu também origem a diversas manifestações artísticas como as das imagens exibidas, e a diversos registos em livros como: “Naufrágios e Acidentes Marítimos na Costa Portuguesa” de Francisco Cabral, “Os Naufrágios Mais Calamitosos Ocorridos no Litoral do Concelho de Matosinhos e Suas Proximidades” de Horácio Marçal e “Naufrágios na Costa Norte Portuguesa” de Manuel Lima.
E, a reprodução em maqueta feita por esse artesão de mãos maravilhosas, o leceiro nascido em 2 de Fevereiro de 1917, de seu nome Joaquim Fernandes Neves.
O naufrágio do Veronese ocasionou que, meia dúzia de anos mais tarde, ali fosse construído um farolim, o qual deu origem ao nosso farol da autoria do Eng.º José Joaquim Peres, inaugurado em 1927, e hoje amputado das sirenes, que marcavam acusticamente a sua presença, a nossa carismática ronca da Boa – Nova.
Relatou-nos um elemento da família “Bispo” que um dia à hora de almoço o engenheiro passou, salvou e dirigiu-se ao farol, quando um pouco mais tarde o procuraram jazia morto na base do mesmo, pois havia-se lançado lá de cima.
Relativamente à tripulação, partiu de comboio do Porto para Lisboa, daí embarcando para Inglaterra, tendo na estação de S. Bento, a mais afectuosa despedida.
O seu comandante, Charles Turner, mandou formar os seus homens na “gare” e, num curto mas eloquente improviso, exortou-os a que se conservassem eternamente gratos aos seus salvadores, manifestando de seguida o seu mais profundo reconhecimento ao povo de Leça da Palmeira e de toda a orla costeira nortenha, tendo concluindo dizendo que, ao chegar ao seu país, não se esqueceria de enaltecer as extraordinárias e inequívocas provas de coragem, altruísmo e abnegação dadas pelo bom povo português.
Bibliografia:
· Manuel Lima – “Os Grandes Naufrágios da Costa Norte Portuguesa” 1998.
· Horácio Marçal – “Os Naufrágios Mais Calamitosos Ocorridos no Litoral do Concelho de Matosinhos e Suas proximidades” 1974. Separatas n.º 21 do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos.
· Mundo Ilustrado – 2.º Ano – n.º 4 de 26 de Janeiro de 1913.
· Ilustração Portugueza n.º 362 de 27 de Janeiro de 1913.
· Instituto de Socorros a Náufragos – Relatório do Ano de 1913.
· Espólio do Autor.

Após a palestra no interior da Capela, pôde presenciar-se uma simulação do uso do cabo vaivém com a “bóia-calção” que foi usada em 1913, levada a efeito pelos Bombeiros de Matosinhos – Leça, que gentilmente deram a sua colaboração, usando as peças originais existentes no Museu da Corporação.














Bibliografia:
· Manuel Lima – “Os Grandes Naufrágios da Costa Norte Portuguesa” 1998.
· Horácio Marçal – “Os Naufrágios Mais Calamitosos Ocorridos no Litoral do Concelho de Matosinhos e Suas proximidades” 1974. Separatas n.º 21 do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos.
· Mundo Ilustrado – 2.º Ano – n.º 4 de 26 de Janeiro de 1913.
· Ilustração Portugueza n.º 362 de 27 de Janeiro de 1913.
· Instituto de Socorros a Náufragos – Relatório do Ano de 1913.
· Espólio do Autor.

Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 11 - Fevereiro de 2008

150º Aniversário das Aparições de Nossa Senhora em Lourdes (1858-2008)

Celebra-se este ano o Jubileu dos 150 anos das aparições de Nossa Senhora a Bernardete Soubirous, em Lourdes, no Sul de França, em 1858. Desde então ali têm ocorrido gentes de todas as partes do mundo. Todos os anos o Santuário de Lourdes recebe cerca de seis milhões de visitantes, motivados pela fé e pela esperança de serem curados ou de alcançarem as graças pretendidas nos momentos de maior desespero ou provação. Este Jubileu vai ser comemorado ao longo do ano de 2008, tendo as celebrações começado no passado dia 8 de Dezembro de 2007, terminando no mesmo dia 8 de Dezembro deste ano.
Neste mês de Fevereiro o programa é o seguinte:
Dia 2 – Festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo – Jornada da Vida Consagrada
Dia 6 – Quarta-Feira de Cinzas – Entrada na Quaresma
Dia 9/11 – Recolhimento – “Acolher a Mensagem de Lourdes”
Dia 11 – 1ª Aparição – Festa de Nossa Senhora de Lourdes – Jornada Mundial do Doente
Dia 14 – 2ª Aparição – Acolhimento em frente à Gruta ás 11h30
Dia 16/18 – Recolhimento – “Com Bernardete, vive a graça de Lourdes”Dia 18 – 3ª Aparição – Festa de Santa Bernardete – Á noite, procissão na cidade – Debate sobre a quinzena das aparições.
Dia 22/24 – Recolhimento – “A Quaresma à luz de Lourdes”
Dia 29/2 Março – Recolhimento – “A Quaresma à luz de Lourdes”

1ª Aparição de Nossa Senhora a Bernardete – 11 de Fevereiro
Aquela Quinta-Feira, 11 de Fevereiro de 1958, aparentemente foi um dia como outro qualquer de Inverno. Joana Baloum, de 12 anos, com Bernardete e sua irmã Maria, foram apanhar lenha, para se aquecerem no frio daqueles dias.
Dias esses que os mais abastados passavam juntos da lareira, enquanto os mais desfavorecidos tinham que trabalhar, indo para os montes e florestas apanhar lenha para se aquecerem, mas também para vender alguma e assim conseguirem um pouco mais de dinheiro.
A família Soubirous, pais de Bernardete,era tão pobre que não se podia dar ao luxo de não trabalhar ficando ao pé do lume, nem mesmo nos dias mais frios de Inverno.
Depois de algumas hesitações, as três meninas decidem ir pelo monte junto ao rio Gave. Só que nesse local havia uma pequena colina rochosa a que chamavam Massabielle. No entanto, para lá chegar era preciso descalçarem-se e atravessar o rio com água pelo joelhos. Joana e Maria passaram com facilidade, mas Bernardete sabia que a mãe não lho permitia, devido à sua frágil saúde. Caso decidisse atravessar sabia que lhe faria mal. Ficou ali à espera das companheiras, mas como estas se estavam a demorar mais do que o previsto, Bernardete começou a descalçar-se para ir ao seu encontro. Ouviu, então, o rumor do vento nas árvores, forte como se previsse uma tempestade.
Virou-se e assustou-se quando reparou que as árvores em seu redor mal se mexiam. Começou então a rezar. Alguns instantes depois voltou a sentir o mesmo ruído do vento, e reparou que este vinha do lado de uma gruta que lá havia, notando que os ramos da entrada se agitavam.
Continuou a descalçar-se e, quando se decidiu a meter o pé na água, ouviu novamente o mesmo ruído à sua frente.
Levantando os olhos, olhou para a gruta onde os ramos se mexiam. Qual é o seu espanto quando vê dentro da gruta uma bela jovem que parecia ter a sua idade, que a saudou com uma ligeira inclinação de cabeça, ao mesmo tempo que estendia os braços e abria as mãos. Do seu braço direito pendia um lindo rosário. Nesse instante, Bernardette esfregou os olhos, pensando que não era verdade o que os seus olhos estavam a ver, quando a Virgem, com um sorriso gracioso, a convidou a aproximar-se.
Quando as companheiras regressaram de apanhar lenha, viram que Bernardete estava em profundo êxtase. Chegaram a pensar que a irmã estava morta.
Quando voltou a si a jovem perguntou-lhes: “Vocês viram alguma coisa?” Ao que as irmãs responderam: “Não, e tu viste?”
Bernardete resolveu não lhes contar logo o sucedido, no entanto no caminho de casa acabou por lhes revelar tudo: “Vi uma Senhora muito bonita e resplandecente, vestida de branco com uma faixa azul e com uma rosa amarela em cada pé… Que linda que ela era!... Que sorriso tão amável quando rezava o rosário comigo! Oh, como gostaria de voltar a vê-la! Mas não digam a ninguém!”
Elas prometeram, mas mal chegaram a casa, não conseguiram calar-se.

João Teixeira
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 11 - Fevereiro de 2008

Os relatos das aparições assim como os acontecimentos deste Jubileu comemorativo, vão sendo publicados todos os meses, para nós também viver-mos este ano com uma especial devoção a Nossa Senhora de Lourdes.

quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Bairro de Gonçalves - 50 anos

12 de Janeiro de 1958 - mais um dia marcante na vida da Paróquia de Leça da Palmeira e a concretização de mais um sonho do Rev. Pe Alcino Vieira dos Santos: a inauguração do Bairro de Gonçalves.
Após terem contribuído para a construção deste bairro, os Leceiros marcaram presença na inauguração da primeira casa. O Pároco pediu que todos os proprietários de automóveis integrassem o cortejo com o seu carro, que se realizou entre a Igreja Paroquial e o Bairro de Gonçalves. Mais uma vez a população de Leça se colocou ao lado do seu Pároco, com quarenta carros, oitocentas crianças, mais de mil pessoas a
integraram este cortejo, que abria com o Rancho Amorosense. À família da Senhora Albina Trocado coube a felicidade de ocupar a primeira habitação deste bairro - uma família pobre e numerosa, constituída por dez pessoas. A entrega da primeira casa iniciou-se com o cortejo em direcção à Igreja Matriz onde foi celebrada missa. O ofertório foi demorado, pois foram centenas de pessoas ao altar, onde o Pároco tudo recebeu, depois de ter dado a imagem do Menino Jesus a beijar. Além de inúmeros géneros alimentícios e peças de vestuário foram entregues cerca de 15.000$00. Terminada a Missa foi de novo ordenado o cortejo em direcção ao Bairro de Gonçalves, com o Rancho Amorosense à frente.
No patamar da pequena escada da entrada, estava a família contemplada: a D Albina, com o menino mais novo ao colo, rodeada dos outros sete meninos e meninas e sua mãe. O P.e Carlos Galamba dirigiu a palavra aos presentes, de uma forma sentida e emociada, destacando-se no seu discurso o seguinte extracto: «Jesus recebeu hoje, na pessoa dos pobres, uma grande prova de carinho do povo de Leça da Palmeira. Toda a Paróquia viveu este momento. O cortejo interminável de automóveis, representa o interesse dos grandes. Não faltaram também os pequeninos… Isto não é filantropia, é caridade, porque tudo foi oferecido na Igreja pelas mãos do Pároco em união com o sacrifício do altar. Todos os de Leça da Palmeira, desde hoje em diante, são proprietários, porque aquelas casas são nossas. Ali está a porta do Céu, porque ali temos Jesus, nas pessoas dos pobrezinhos. Por ali serão abertas as portas para a recompensa eterna.»
De seguida, o Pároco entregou as chaves à chefe da família que abriu a porta e entrou sob uma enorme ovação de palmas. A família Ortigão de Oliveira depôs na modesta mesa da sala de jantar um abundante almoço para esta família.
A segunda casa deste bairro foi entregue no dia 20 de Abril de 1958, à família de Manuel Gomes Cruz, doente e impossibilitado de trabalhar, com esposa e quatro filhos.
Nascia, assim, há precisamente 50 anos, a ‘habitação social’ de Matosinhos…

JS
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 10 - Janeiro de 2008

segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Um Encontro Nada Fácil

O Teatro, no mês de Novembro, em Leça da Palmeira, começou com “O Pecado de João Agonia” pelo TEAGUS – Teatro Amador de Gulpilhares. Esta peça, de Bernardo Santareno, representada pela primeira vez em 1969, é uma produção diferente daquelas que o TEAGUS habitualmente produz. A forte densidade dramática do texto põe à prova a capacidade emotiva dos actores e actrizes que a representam, mas também é um grande desafio para o público, que é levado a pensar e reflectir sobre o preconceito da homossexualidade. E esta “batalha” foi ganha pelos Gulpilharenses, que conseguiram que o público repensasse este direito à diferença.
Mas o Leça 2007 continuou “azarado”. Não esqueçamos que logo no segundo espectáculo deparámo-nos com a falta do Grupo da Escola Dramática Valbonense. O espectáculo do dia 10 de Novembro também teve de ser substituído. Dado que um dos actores de “O Saiote de Celestina” e d’A Verdade Vestida” se encontrar doente, a Associação Recreativa “Os Plebeus Avintenses” não nos pôde apresentar este espectáculo. Todavia, conseguimos substitui-lo pelo “A Pena e a Leia”, muito bem representado pelo Grupo dos Restauradores de Avintes. Foi um espectáculo diferente, com bastante musicalidade e, com toda a certeza, foi do agrado de todos aqueles que o contemplaram.
E o azar não terminou aqui. Infelizmente tivemos mais uma falta. O RIBALTA – Grupo de Teatro da Vista Alegre também não nos pode apresentar o seu trabalho, “A Ordem é Ressonar”, desta feita por razões profissionais do actor principal. Contudo, não conseguimos trazer até Leça outra peça. Como sabemos, esta é uma altura em que a maioria dos grupos com os quais fazemos “troca” de espectáculos se encontra no seu Encontro de Teatro, tal como acontece com o Grupo Paroquial de Teatro de Leça da Palmeira. Ora, este factor dificulta um pouco as coisas quando surgem estas situações imprevistas.
E o último espectáculo do Leça 2007 parecia que também seria “marcado” pelo azar: uma actriz do elenco estava doente e o encenador António Paiva ainda não se encontrava em pleno para assistir ao espectáculo. Mas tudo foi ultrapassado e, modéstia aparte, muito bem. A actriz foi substituída e o elenco “portou-se” à altura das expectativas. O espectáculo correu até melhor do que estávamos à espera e tivemos bastante adesão por parte do público. Esta foi mais uma homenagem que o Grupo cénico fez ao seu encenador, ao mostrarmos que conseguimos pôr em prática tudo aquilo que ele nos ensinou ao longo dos anos. Terminado o espectáculo, teve lugar a habitual sessão de encerramento do Encontro. Esteve presente um representante da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, mas infelizmente não tivemos presente nenhum representante da Câmara Municipal de Matosinhos, “em virtude de compromissos previamente assumidos e inalteráveis”. Mas fica aqui expresso o nosso sentimento de pena e tristeza. Porque ao fim e ao cabo, temos o apoio monetário da Câmara para a produção do nosso Encontro, e gostávamos que o nosso trabalho fosse realmente admirado por parte da Autarquia. “Fica para a próxima”, temos a certeza.
O balanço do Leça 2007, apesar de tudo, é positivo: assistimos a bom teatro de amadores. E é isso que importa!
Mas não posso terminar este artigo sem primeiro deixar aqui expresso o desagrado do Grupo Paroquial de Teatro em relação a uma situação da qual fomos “vítimas”. Durante o Leça 2007, fomos “contemplados” com a visita de um fiscal da Sociedade Portuguesa de Autores. Um fiscal “a sério”, com papelada e “provas do crime”. E o “crime” que o Grupo Paroquial de Teatro cometeu é fazer teatro! É dar teatro à população de Leça da Palmeira; é prestar um serviço cultural reconhecido por parte da autarquia municipal, da Junta de Freguesia e até pelo Governo Civil; é organizar um Encontro de teatro de amadores, gente como nós, que monetariamente nada ganha com esta actividade; é ocupar o tempo livre dos seus actores, contribuindo assim para o tão fomentado associativismo; é contribuir, assim, para a dinamização de uma sociedade tão marcada pelo sedentarismo. É este o crime pelo qual o Grupo Paroquial de Teatro terá de “responder”. E agora eu pergunto, será justo? É este o país que queremos ter? Um país que, em vez de apoiar as suas associações e colectividades, ainda lhes aplica castigos.
Viva o Teatro!

Ana Isabel Faria
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 9 - Dezembro de 2007

Pode Ser Sempre Natal

O título deste texto lembra uma frase muito conhecida, a que me abstenho de chamar “chavão”, dado que, apesar de repetida não perdeu significado: ‘Natal é quando um homem quiser’. E é mesmo: não apenas quando o calendário indica esta época e tudo à nossa volta o lembra. ‘Natal’ é sempre que não se passa indiferente ao lado do sofrimento dos irmãos, sempre que se divide com quem tem menos.
E houve “Natal” quase um mês antes da data no calendário, quando três nossos irmãos do Bairro dos Pobres de Rodão puderam passar a viver com alguma dignidade e não como animais, que era o que estava a acontecer já há alguns anos. A situação de um deles, Carlos, 30 anos, era absolutamente degradante. Desde a morte da mãe e do segundo casamento do pai passara a viver numa barraca que, ainda que feita de cimento, tinha servido de galinheiro da família. Tóxico-dependente em recuperação, foi assim, em condições absolutamente degradantes, que foi encontrado pelo nosso pároco.
Quando questionado sobre o que o levou a descer tanto na escala da dignidade humana, tinha uma história trágica para contar: o desgosto pela perda da mãe foi demasiado pesado de aguentar, a mulher que o pai escolheu para recompor a família acabou por não ser sensível à perda do enteado, a carência afectiva foi insuportável, o álcool e a droga surgiram como uma espécie de refúgio, mas também um ‘passaporte’ para fora da realidade, porque essa ficou impossível de aguentar. Daí passou a viver no referido galinheiro, cuja porta terá começado por ser parte de um cobertor que o tempo deteriorou até à condição recente de farrapo imundo.
No espaço propriamente dito e a que não sou capaz de chamar ‘quarto’, porque efectivamente nunca deixou de ser ‘galinheiro’, quase não conseguia entrar dada a exiguidade do tamanho, onde mal cabia aquilo que outrora terá sido uma cama, mas ultimamente era apenas um monte de andrajos. O Carlos atribui à falta da mãe a miséria a que chegou, já que os outros dois ‘seus vizinhos’ nesta situação desgraçada, não chegaram a tal ponto porque, nas suas palavras, “ainda têm mãe”. A sua, se ainda fosse viva, nunca o obrigaria a abrigar-se no ‘galinheiro’, nunca lhe cobraria dinheiro por um banho ou por uma sopa, como lhe fazia a actual companheira do pai. Assim, foi perdendo o interesse por tudo, ‘matando’ o tempo e morrendo também um pouquinho todos os dias… No entanto, nunca deixou de cumprir as sessões e prescrições do tratamento de desintoxicação em que tinha sido integrado pela Segurança Social. Foi essa a sua ‘estrelinha de Belém’ que não o deixou perder-se completamente no caminho.
Hoje, o ‘galinheiro’ onde foi passando as horas de sono, foi substituído por um quarto com casa-de-banho, com espaço para circular à volta da cama, o que não acontecia, onde pode passar e passa mais tempo com alguma qualidade, mas sobretudo com a dignidade mínima que é exigível pela sua condição humana. O Sr. Altino Barbosa (mestre de carpintaria) fez o ‘boneco’ e construiu-se a nova habitação. No dia em que lá dormiu pela primeira vez, no início de Dezembro, o Carlos teve o seu primeiro ‘Natal’ deste ano. E se mesmo quando as condições eram miseravelmente degradantes ele nunca se perdeu totalmente, hoje que pode viver mais como gente, agarrou “com as duas mãos” o emprego que lhe arranjaram e agora que está recuperado da tóxico-dependência, está outro homem. Está, de forma visível para todos os que o conhecem, um novo homem; mas sente-se, ele próprio outro homem, porque recuperou a dignidade que circunstâncias da vida lhe tinham retirado, e por isso, readquiriu alegria de viver ao sentir que ainda é GENTE, porque este novo homem é também e sobretudo ainda jovem para perder a esperança…
Jesus ‘chegou’ mais cedo este ano. Houve ‘Natal’ verdadeiramente na vida do Carlos e na nossa Comunidade, porque temos todos que estar felizes pela oportunidade de vida que parecia perdida, mas se reencontrou, às portas do Natal, celebração do nascimento de Cristo Salvador, de 2007. Por isso, quando se diz que “Natal é quando um homem quiser”, pode parecer o tal “chavão”, mas não é, porque é só olhar bem à nossa volta, em todas as épocas do ano, para se perceber que pode ser mesmo quando cada um quiser.

Marina Sequeira
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 9 - Dezembro de 2007

sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

A Nova Igreja da Santíssima Trindade

No âmbito da Peregrinação Internacional de Outubro deste ano, no dia 12 do mesmo mês, foi inaugurada a nova Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, por Sua Eminência o Senhor Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, e Legado Pontifício para esta celebração, onde também estiveram presentes o Sr. Presidente da República e o Sr. Primeiro Ministro. O momento alto da celebração deu-se com a entrada da imagem de Nossa Senhora na nova basílica, vinda da Capelinha das Aparições. A porta principal foi oficialmente aberta pelo Sr. Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.
A construção da nova igreja de Fátima, que é também o maior recinto público fechado do país, custou cerca de 80 milhões de Euros, pagos literalmente pelos donativos que os peregrinos foram deixando no Santuário ao longo do tempo.
De forma circular e com 125 metros de diâmetro, é sustentada por um enorme pilar que suporta toda a cobertura, o que evita a existência de colunas n o interior do templo. O mentor deste grande projecto arquitectónico foi o arquitecto grego Alexandre Tombazis, que procurou combinar a luz e a tecnologia, respeitando a atmosfera de Fátima.
A iluminação interior é feita através do tecto da igreja, por janelas voltadas para norte, o que permite que haja luz natural durante o dia. Também é possível, através de um sistema computadorizado, mudar a iluminação em diversos lugares e com diferentes intensidades. Este gigantesco projecto inclui um enorme espelho de água nas duas escadarias centrais paralelas à entrada. Tombazis admite que a existência deste espelho transmite ás pessoas calma e serenidade.
A porta principal da nova igreja á consagrada a Cristo, a as doze portas laterais aos Apóstolos.
Com o volume de quase 130 mil metros cúbicos e uma altura média de 15 metros, esta nova igreja tem capacidade para nove mil fieis sentados, com lugares para deficientes, existindo ainda a possibilidade de separar o espaço com uma divisória com cerca de dois metros para assembleias mais pequenas, até três mil lugares. Com estas características, a Igreja da Santíssima Trindade é a melhor do país e uma das melhores e maiores a nível mundial. Trabalharam na sua construção cerca de três mil e trezentas pessoas, que em jeito de homenagem verão em breve os seus nomes gravados num monumento que irá ser colocado no interior da igreja.
Agora uma das grandes prioridades é a segurança e a manutenção do espaço. Para tal o Santuário teve de contratar 20 novos funcionários e procedeu ao reforço da segurança devido ao valor das obras de arte existentes no interior. Também no interior existem três capelas da Reconciliação, que podem servir igualmente para outras celebrações. Esta chamada “Zona da Reconciliação” é constituída por uma área para os peregrinos portugueses, com salão para seiscentos lugares sentados e trinta e dois confessionários, e outra área para peregrinos estrangeiros, com duas capelas de cento e vinte lugares sentados, cada uma, e também com trinta e dois confessionários.
Para substituir a antiga foi igualmente erguida uma nova Cruz Alta junto à Igreja da Santíssima Trindade. A inauguração da nova Cruz decorreu no passado dia 29 de Agosto, dia em que se celebra o martírio de S. João Baptista, o Precursor de Jesus Cristo. A cruz teve de ser dividida em peças, dada a sua grande dimensão. Esta nova Cruz Alta é da autoria do artista alemão Robert Schad, que ganhou um concurso instituído para a iconografia da Igreja da Santíssima Trindade. Em aço corten, a cruz tem trinta e quatro metros de altura e outros dezassete de largura, ao nível dos braços. Substitui assim a antiga cruz, que frequentemente servia de ponto de encontro de muitos peregrinos.
A encerrar a cerimónia da inauguração da Igreja da Santíssima Trindade, D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, leu o poema que Shopia de Mello Breyner escreveu na Páscoa de 1990, “A CASA DE DEUS”.

João Teixeira
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 8 - Novembro de 2007

O Grande Naufrágio

Assinalando 60 anos passados sobre a trágica madrugada de 1 para 2 de Dezembro de 1947 vai a Câmara Municipal de Matosinhos e a Junta de Freguesia proceder ao lançamento de um livro, na Capela de Santo Amaro, da autoria do Prof. A. Cunha e Silva e de Belmiro Galego, no próximo dia 2 de Dezembro pelas 10horas da manhã. Este livro é o fruto de uma aturada investigação de um Leceiro e de um Matosinhense, dedicados à sua terra, à sua gente e ao seu património; que percorrendo várias bibliotecas e inúmeros jornais e revistas coligiram e dão a conhecer, os relatos feitos na época dessa medonha madrugada em que o mar tão repentinamente se levantou e levou 152 pescadores, que no regresso da sua faina já não chegaram ao seio dos seus familiares que, como de costume, os esperavam na praia. Foi na realidade uma negra e sinistra madrugada essa a de 2 de Dezembro de 1947, em que naufragaram entre Aguda e Leixões quatro traineiras: a “D. Manuel”, a “S. Salvador”, a “Maria Miguel” e a “Rosa Faustino”, tendo perecido 152 homens sem a menor hipótese de que alguém lhes valesse.
As traineiras da praça de Matosinhos haviam saído para o mar, como habitualmente, às dezenas, apesar de haver vários prenúncios de temporal, pois para os pescadores o espectro da fome sempre se sobrepôs ao medo e sempre fez com que esses valentes e ousados lobos do mar galgassem as ondas saindo a barra, para quantas vezes não mais voltarem!
Há casos fantásticos, como o daqueles três homens que no reboliço da traineira “D. Manuel”, com o espectro da morte à sua frente, foram arrojados à praia do Cabedelo, procurando ajuda numa das pobres casas aí existentes; ou aqueles dois outros que depois de terem sido roubados de bordo com outros dois camaradas, foram de novo lançados para dentro da traineira, e um dos que o mar não devolveu, mantendo-se agarrado a uma tábua, teve a sorte de por ele passar uma traineira que lhe lançou uma bóia, a qual enfiando-se-lhe milagrosamente pela cabeça, o salvou, ou ainda aquele outro que a bordo da traineira “Rosa Faustino”, passando com terra à vista, se lançou ao mar nadando até à exaustão sendo recolhido das ondas, salvando-se com outros dois arrojados à praia pelo mar!
Deste modo, de quatro companhas das quatro traineiras afundadas, apenas se salvaram seis camaradas em tão horrorosa tragédia marítima que enlutou não só a costa nortenha mas praticamente toda, de norte a sul, não havendo memória de catástrofe maior, a qual, para além daqueles que levou, deixou também muitas viúvas e órfãos mergulhados na dor e na desolação.
O livro “O Naufrágio de 1947” será assim um elevado preito de homenagem da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, dos autores, mas não só, pois será também o reconhecimento por todos aqueles que assistirem ao lançamento, que recordarão muitos daqueles que se sacrificaram pela elevação e desenvolvimento desta nobre cidade de Matosinhos – Leça.
Portanto, vamos todos ao lançamento do livro!

… E “AS MULHERES DO MAR… MÃOS DE SAL”

Num dia com tanto significado para a classe piscatória da nossa cidade, como é o de 2 de Dezembro de 2007, pois faz 60 anos que nessa trágica madrugada pereceram no mar sob violento vendaval 152 pescadores; será efectuado o lançamento do livro “MULHERES DO MAR…MÃOS DE SAL” da autoria de Delfim Caetano Nora, um Matosinhense que envergou com grande sucesso a camisola do Leça F.C., nas instalações da Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos (Casa dos Pescadores) pelas 15.00 horas.
Serão homenageados os Homens e as Mulheres do Mar, principalmente estas, na nossa sociedade sempre esquecidas ou relegadas para plano secundário, contudo entre a classe piscatória com grande influência e um papel fundamental.
A mulher do pescador, ou mulher do mar, era uma verdadeira mãe-coragem, pois criava uma ranchada de filhos, era expedita e despachada nos negócios, no governo de casa e da família.
Foi sempre uso e costume do pescador que “a mulher quer-se em terra e o homem no mar”. Daí que mal o barco aproava na praia a mulher tratava de todo o trabalho para além da pesca, descarregava o peixe, encaixotava e transportava-o à lota, vendia-o e por fim dividia os ganhos em partes ou quinhões, dando algum ao seu “home” para extraordinários, para uma “pinga” ou para o “fumo”.
Também fazia parte da sua vida lavar e consertar as redes, trazer as cestas e as roupas da “polé”.
Quando o pescador desejava vestir-se ou calçar-se, ia com a mulher a uma loja comprar pano para um fato, e a mulher acompanhava-o ou até ia só. De qualquer das maneiras era ela quem escolhia e ele aceitava pois se era do agrado dela também era do dele.
Quando era necessário ir a qualquer repartição pública, era a mulher quem expunha as pretensões e razões do marido. Era também a mulher que levava o marido ao médico quando estava doente, e desfiava o rosário de achaques do seu homem.
A mulher do pescador, rude e forte, era muito irrequieta e sempre desbragada na linguagem, e com toda a facilidade provocava conflitos e até chegava a vias de facto.
Contudo, verificamos que ao longo do tempo sempre tiveram um papel fundamental na vida do casal apesar de uma vida muito dura, pelo que aqui queremos deixar bem marcado que é mais do que justa a homenagem que o NAPESMAT lhes vai prestar com o lançamento do livro “… AS MULHERES DO MAR… MÃOS DE SAL”

Eng.º Rocha dos Santos

in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 8 - Novembro de 2007

quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Centro de Dia do Monte Espinho

Foi inaugurado no passado dia 16 de Setembro o Centro de Dia do Monte Espinho, integrado no Complexo de Habitação Social, com o mesmo nome, situado na zona norte da Freguesia de Leça da Palmeira.
Este Centro de Dia, com capacidade para acolher 90 pessoas, inclui ainda as valências de Centro de Convívio e Serviço de Apoio Domiciliário.Este espaço foi construído juntamente com as habitações sociais e foi cedido à Associação de Amigos da Terceira Idade (ATI) que terá a responsabilidade da sua Gestão.
De salientar ainda que complementarmente à cedência do espaço a Câmara de Matosinhos subsidiou a instituição com cerca de 60 mil euros para comparticipar na aquisição de equipamento para as novas instalações e de uma viatura de nove lugares para transporte de utentes e funcionários do Serviço de Apoio Domiciliário.
A ATI celebrou ainda um protocolo com o Centro Distrital de Segurança Social do Porto, para obter apoio nas despesas de funcionamento do Centro de Dia do Monte Espinho.
Para além da presença de representantes da autarquia, da ATI, da Junta de Freguesia, de diversas entidades e de muitos utentes a inauguração contou ainda com a presença do Presidente da Câmara, Dr. Guilherme Pinto e do nosso Pároco, Padre Fernando Lemos, que procedeu à bênção da referida carrinha assim como das novas instalações.
No final da cerimónia de inauguração actuou o coro da ATI ao qual se seguiu um alegre convívio, assinalando-se assim a abertura de mais este importante serviço de apoio aos mais idosos de Leça da Palmeira.

AG
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 7 - Outubro de 2007

Festas de S. Miguel Arcanjo 2007

Como já vem sendo hábito, decorreram durante o mês de Setembro as Festas em Honra de S. Miguel Arcanjo (ou S. Miguel de Moroça, como muitos ainda o gostam de chamar), organizadas pela Confraria de S. Miguel e que tiveram o seu ponto alto no dia 30, com a magnífica Procissão em honra do nosso Santo Padroeiro. As festividades tiveram início no dia 8 de Setembro com uma noite de fados, onde alguns fadistas da nossa praça souberam corresponder ao apelo feito pela Confraria de S. Miguel e emprestaram as suas vozes para a angariação de fundos para a organização da Procissão, numa noite em que estiveram presentes no Salão Paroquial cerca de 200 pessoas. Actuaram os fadistas Anita Faria, Nelson Duarte, Maurício Campelo e Emília Dinis, acompanhados à guitarra por Acácio Gomes e à viola por António Reis.
O programa das Festas continuou no dia 22 com a actuação da Banda Nova Onda, sobejamente conhecida das gentes de Leça que mais uma vez e a título gratuito procurou ajudar através da sua música e da sua juventude a Confraria responsável pelas festividades. Pena foi que o espectáculo preparado pela banda tivesse sido ensombrado por uma arreliadora quebra de corrente que impossibilitou a ligação de luzes e efeitos especiais preparados para o efeito. Ficou a intenção e o trabalho meritório realizado por todos. Num adro bastante bem composto, apesar da noite relativamente fria, foi com agrado que se assistiu a um excelente desempenho desta banda Leceira, que mais uma vez demonstrou a todos que a qualidade afinal também mora aqui em Leça da Palmeira. No dia 28 de Setembro, foi a vez do Trio Ex-Libris, também já habituado a estas festividades, numa actuação pautada pela sobriedade, demonstrando a sua qualidade e levando o público a contínua animação.
Sábado foi o dia naturalmente consagrado a S. Miguel, com a Missa Solene, presidida pelo Rev. Padre Fernando Cardoso Lemos e que contou com a participação de todos os Grupos Paroquiais e brilhantemente animada pelo Coro Milium e pelo Coro da Capela do Monte de Espinho, que se juntaram para assim dar mais alegria a esta celebração em Honra do Santo Padroeiro de Leça da Palmeira.
À noite teve lugar no Salão Paroquial, em virtude do mau tempo, o Festival de Folclore, com a participação do Rancho Típico da Amorosa – Leça da Palmeira, Rancho Folclórico de Mira Serra e Loções – Alcobaça, Grupo de Danças e Cantares de S. Tiago de Bougado – Trofa e ainda o Grupo Regional de Moreira da Maia – Maia.
No Domingo e culminando as Festividades, saiu à rua a tradicional Procissão em Honra de S. Miguel Arcanjo, que apesar da aparição ténue de um sol que esteve sempre “na caixa”, e de um céu ameaçando chuva foi possível mais uma vez que o Cortejo Religioso saísse à rua com a pompa e a circunstância que se lhe reconhece. A Procissão composta por onze andores de onde se destacam as ornamentações com flores de tecido, elaboradas pelas mãos sábias da Rosarinho e da D. Ascensão, cuja dedicação e múltiplos talentos nunca é demais lembrar, trabalham arduamente para que tudo esteja pronto a tempo e horas. A procissão efectuou o seu percurso habitual destacando-se naturalmente a sua passagem pela zona da Amorosa, antigamente designada por Moroça e de onde merecem uma referência especial os magníficos tapetes de flores que os habitantes dessa zona da Freguesia, generosamente prepararam para esta Solenidade. Assistiram à passagem do Cortejo Religioso centenas de pessoas provenientes de vários pontos do Concelho e não só, o que demonstra inequivocamente a importância de tão grandiosa Procissão. Os andores foram transportados pelos Grupos, de acordo com a ordem de saída da Igreja: S. Marçal – Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça, S. João Bosco – Grupo Paroquial de Teatro, S. Clemente das Penhas (Capela da Boa Nova) – Antigos Acólitos, Santa Catarina (Capela de Santa Catarina) – Associação de Acólitos, S. Francisco (Capela da Quinta da Conceição) – Irmandade de Nossa Senhora de Fátima da Igreja Matriz, S. Pedro Gonçalves Telmo (Capela do Corpo Santo) – Confraria das Almas, Sant’Ana (Capela de Sant’Ana) – Rancho Típico da Amorosa, Senhora da Piedade (Capela da Senhora da Piedade) – Real Confraria do Senhor dos Passos e Nossa Senhora da Soledade, Nossa Senhora de Fátima (Capela do Monte Espinho) – Irmandade de Nossa Senhora de Fátima do Monte Espinho, Sagrado Coração de Jesus – Confraria do Santíssimo Sacramento, S. Miguel Arcanjo (Igreja Matriz) – Confraria de S. Miguel. A Procissão foi ainda abrilhantada pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários Matosinhos-Leça e pela Banda 1º Agosto de Coimbrões – Gaia. Mais uma vez, a Confraria de S. Miguel esteve ao seu melhor nível ao levar a cabo esta Procissão, cuidando de tudo com muito empenho e até ao mais ínfimo pormenor, colocando na rua a maior Procissão do Concelho de Matosinhos. Bem hajam.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 7 - Outubro de 2007

domingo, 30 de Setembro de 2007

Festarte 2007 - Provavelmente o Melhor Festarte de Sempre

Tal como em anos anteriores, decorreu entre os dias 27 de Julho e 5 de Agosto o Festival Internacional de Artes e Tradição Populares de Matosinhos, vulgarmente conhecido por FESTARTE. Ao longo de 10 dias foi possível apreciarmos a beleza dos trajes, as danças, a música, o artesanato e gastronomia da Espanha, Equador, Eslováquia, Argentina, México, Roménia e Suíça. O FESTARTE teve início, como é habitual, com o hastear das bandeiras dos países e hinos nacionais na sexta-feira dia 27, no adro da Igreja Matriz. Ali houve oportunidade para vermos de perto e pela primeira vez os Grupos que nos visitaram. À noite, também como é habitual, realizou-se a Gala de Abertura na Praça da Cidadania em S. Mamede Infesta. Sábado de manhã foi o dia dedicado ao Encontro Internacional de Etnografia e Folclore, no Auditório Infante D. Henrique, na APDL, onde foi possível perceber com detalhe as tradições e os costumes destes países através de pequenas alocuções proferidas pelos responsáveis dos grupos. Sábado foi também o dia em que abriu a Feira de Artesanato (ver caixa). Domingo foi, naturalmente, o dia grande do FESTARTE. O dia começou bem cedo para todos, com a participação na Eucaristia, onde sobretudo se pôde apreciar o Ecumenismo entre religiões e mais uma vez se ouviu a música e o canto de todos os países participantes. De tarde, houve o já habitual desfile pela Avenida Dr. Fernando Aroso, que terminou no adro da Igreja Matriz. Foi a oportunidade para mais uma vez apreciarmos a alegria e a dança, mas sobretudo a boa disposição de todos os Grupos participantes, apesar do intenso calor que se fez sentir. Os Grupos foram ainda recebidos no Salão Nobre da Junta de Freguesia pelo Presidente da Autarquia Leceira, Dr. Pedro Tabuada. Seguiu-se o XX Festival Internacional de Folclore de Leça da Palmeira, no Parque Eng. Fernando Pinto de Oliveira, que contou naturalmente com os Grupos estrangeiros e ainda com o Rancho Folclórico “Os Pastores de S. Romão” – Seia, Rancho Folclórico da Casa do Povo de Lanheses – Viana do Castelo e Rancho Típico de Santa Maria da Reguenga – Santo Tirso, para além, é claro, dos Grupos organizadores do FESTARTE, o Rancho Típico da Amorosa – Leça da Palmeira e o Rancho Típico de S. Mamede Infesta. À noite teve lugar o já tradicional Baile Folk na Escola EB 23 de Leça da Palmeira. Na segunda-feira, dia 30, o FESTARTE deslocou-se ao Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, para a Recepção Oficial do FESTARTE, onde estiveram presentes todas as forças vivas do Concelho e o onde o Presidente da Câmara apresentou cumprimentos e enalteceu o espírito do evento, enriquecido pelo intercâmbio cultural. Terça-feira, como já vem sendo hábito, foi o dia livre, durante o qual os Grupos puderam desfrutar de algum descanso merecido. Quarta-feira foi outro dia em cheio na programação do FESTARTE, com a Gala para a Terceira Idade, realizada no Auditório Mário Rodrigues Pereira em Lavra e à noite com os recitais de música tradicional nas Igrejas de Leça da Palmeira, Santa Cruz do Bispo e Guifões (ver caixa). Na quinta-feira deu-se inicio ao Festival Internacional de Gastronomia, com a participação de alguns restaurantes de Leça e Matosinhos a contribuírem com o seu espaço para os Grupos poderem confeccionar as suas iguarias podendo a população apreciar os gostos e os sabores dos países representados no FESTARTE. O Festival de Gastronomia continuou na sexta-feira. Sábado foi o dia consagrado às famílias, quando a população pôde receber em suas casas elementos dos Grupos que nos visitaram, para um almoço que, com certeza, marcou para sempre todos aqueles que se quiseram associar a esta iniciativa. Ainda no Sábado, realizou-se o Festival Internacional de Folclore em S. Mamede Infesta, terminando o FESTARTE no Domingo com o Festival Internacional de Folclore de Matosinhos no Parque Basílio Teles e com o Baile Folk de Encerramento na Escola EB 23, onde os Grupos se despediram das gentes de Leça que tão bem os souberam receber, ficando a promessa de um dia voltarem.

OS GRUPOS PARTICIPANTES

Agrupacíon Folklórica Princesa Iraya – Santa Cruz de Tenerife – Canárias – Espanha

Da província de Santa Cruz de Tenerife veio até nós a Agrupacíon Folklórica Princesa Iraya. A sua fundação data de Novembro de 1982, tendo como mentor Eusébio Benedito Cabrera, cujo objectivo foi reunir os jovens do seu bairro, dando-lhes a conhecer as tradições e costumes da sua ilha. Tem participações, dignas de registo, em vários festivais internacionais, sendo que esta foi a segunda vez que actuou em Portugal. Desde 1997 que o Princesa de Iraya mantém uma escola de folclore formada por pessoas de todas as idades, cujo objectivo é o de aprofundar as tradições locais. É através desta cantera, que o grupo assegura o seu futuro. O peixe ocupa um lugar importante na gastronomia das Ilhas Canárias, com particular destaque para “la morena” frita. O artesanato mediterrânico é sempre uma caixinha de surpresas.

Grupo de Danzas Tradicionales Ecuatorianas – Equador

Da cidade de Ibarra chegou-nos o Grupo de Danzas Tradicionales Ecuatorianas, da Universidade Técnica do Norte. Consciente da vastíssima cultura nacional, a Universidade Técnica do Norte apoia incondicionalmente o Grupo de Danzas Tradicionales Ecuatorianas que tenta espelhar o mais fielmente possível, o folclore do seu povo. Como o folclore representa muito mais do que as danças e os cantares, este grupo trouxe ao Festarte verdadeiras obras artesanais, que foram muito apreciadas ou adquiridas na feira de artesanato. A sua gastronomia é composta por uma grande variedade de espécies de milho, com as quais fazem diversos tipos de farinhas e massas, utilizando-os também para fazer uma bebida chamada “chicha”, que era consumida em grandes quantidades.

The Folk Ensemble Busuiocul – Bacau – Roménia

A Roménia apresentou no Festarte 2007, o The Folk Ensemble Busuiocul, fundado em 1973. A paixão e o talento dos elementos que compõem este grupo, faz com que o Busuiocul seja uma referência do folclore local. Interpretando o folclore de várias regiões da Roménia, este grupo, tem no seu corpo de dança, uma forte componente na qualidade dos espectáculos que apresenta. A sonoridade deste grupo é apoiada por um grupo de instrumentistas verdadeiramente extraordinários, que são uma mais valia nos concertos apresentados. Trouxeram também ao Festarte a sua riquíssima gastronomia e o seu não menos surpreendente artesanato.

Folklórny Súbor Partizán Biotica – Eslovaquia

Da cidade de Banská Bystrica chegou-nos o Grupo Folklórny Súbor Partizán Biotica, fundado em 1958, e que desde então se tem preocupado com a recreação das tradições da sua cidade. O canto e a dança deste grupo são harmonizados com instrumentos tradicionais da região a que pertencem. Trouxeram também o seu artesanato e a sua gastronomia, oportunidade para provarmos o “Bryndzove halusky”, iguaria composta de queijo fresco frito, acompanhado com bacon.

Ballet “Alpazuma” – Monte Buey – Argentina

País dividido em várias regiões, o Ballet “Alpazuma”, termo indígena, que traduzido significa terra linda, chega-nos de Monte Buey, Província de Córdoba. A partir de 1992, um grupo de jovens bailarinos que se encontravam esporadicamente para dançarem, conscientes do trabalho que desenvolviam, resolveram dar “corpo” ao seu trabalho, e assim nasceu o Ballet “Alpazuma”. Reconhecido oficialmente pelo Governo Municipal de Monte Buey, na província de Córdoba/Argentina, o Ballet “Alpazuma” tem, nas suas escolas de dança, o futuro desta tradição do país das pampas. Trouxeram ao Festarte a sua riquíssima gastronomia e o seu não menos peculiar artesanato.

Conjunto Folclórico Magisterial – México

O Conjunto Folclórico Magisterial chegou-nos da capital deste país, tendo como data da sua primeira aparição pública o ano de 1963. A sua presença nos mais importantes festivais mundiais faz deste grupo um dos maiores embaixadores culturais, aonde o Magisterial leva o “coração” do povo mexicano. A magia dos sons, únicos como são os dos Mariachis, e a sua gastronomia, recomendada para paladares mais picantes, completaram a lista de motivos para uma participação que foi muito apreciada.

The Folk – Dance Group “La Farandole Courtepin” – Friburg – Suisse

Pela primeira vez presente no Festarte, a Suíça trouxe-nos até Leça da Palmeira, a sua embaixada cultural através do “La Farandole Courtepin” de Friburg. O Groupe Folklorique “La Farandole Courtepin” nasceu no Cantão de Friburg, em 1938, com o objectivo de dar a conhecer os costumes do seu Cantão, participou em várias manifestações culturais na sua região, e participa com muita regularidade em festivais internacionais de folclore, fora do seu país. A sonoridade deste grupo está ainda por descobrir, mas destacamos os instrumentos de sopro, que compõem a sua pequena orquestra de dez músicos. Foi uma oportunidade única para apreciarmos também a sua gastronomia, bem como o seu artesanato.


RECITAIS DE MÚSICA TRADICIONAL

Foi numa Igreja Matriz repleta de público que os Grupos da Roménia, Argentina, Espanha e Equador, demonstraram inequivocamente todos os seus conhecimentos de música e canto. O recital de Leça da Palmeira abriu com a participação do Grupo da Roménia que exibiu todo o seu virtuosismo, especialmente a interpretação soberba do violinista de serviço que deu um autêntico recital de bem tocar. Seguiu-se o Grupo da Argentina que com a sonoridade que lhe é peculiar interpretou a típica música do País das Pampas, com destaque para o Tango. De salientar as excelentes interpretações de Guitarra Clássica, Piano e Sanfona executadas por artistas de excelente qualidade. O Grupo da Espanha foi o “senhor” que se seguiu, animando e de que maneira todo o público presente na Igreja Matriz com os seus cânticos e com a sua música, assemelhando-se muito à música interpretada por tunas académicas, em função dos instrumentos utilizados. Saliente-se no Grupo da Espanha a grande qualidade vocal dos seus intérpretes. Por último, vindo do recital de Santa Cruz do Bispo, esteve o Grupo do Equador que com as suas tradicionais flautas de pan fechou em grande uma noite espectacular, riquíssima de tradições, de música e sonoridade únicas. Para terminar e em jeito de rodapé, de salientar o esforço da Equipa da Paróquia responsável pelo recital, que colocou à disposição dos Grupos todas as condições necessárias para um grande espectáculo, nomeadamente ao nível da qualidade de som, gentilmente cedido pela Banda Ex-Libris.

FEIRA DE ARTESANATO – ANIMAÇÃO E ALEGRIA.

A Feira de Artesanato teve início no sábado, dia 28 de Julho, e terminou na sexta-feira seguinte, dia 3 de Agosto. Durante todos estes dias foi possível assistirmos a diversas iniciativas culturais, com destaque para a animação nocturna, com os Grupos a interpretar as suas músicas e as suas danças e onde se pôde assistir todos os dias a um adro repleto de público entusiasta que soube sempre dizer presente a todas as manifestações culturais realizadas. No Domingo a animação da feira esteve a cargo do Grupo Paroquial de Teatro, que pelo segundo ano consecutivo mostrou e bem aquilo que sabe fazer, nomeadamente com os elementos mais novos do Grupo. Notou-se, de facto, uma preparação cuidada do espectáculo apresentado com a montagem da logística necessária a ser realizada durante todo o dia de Sábado, denotando a particular importância que o espectáculo teve para o Grupo. Na segunda-feira, dia 30, tivemos a presença do Grupo da Argentina que interpretou e deslumbrou todos os presentes com a sua música, o seu canto e as suas danças. Sem querer ser parcial, foi o Grupo que melhor apresentou a mais cuidada interpretação musical em toda a Feira. Extremamente seguros da sua música, pautaram a sua actuação pela sobriedade, cativando o vasto público presente, ao ponto de eles próprios se mostrarem surpreendidos com a sua interpretação. Foi possível ver a satisfação do Grupo no final, pela actuação muito bem conseguida. Na terça-feira, dia livre no programa, a animação da Feira esteve a cargo do Rancho Típico da Amorosa, que com a sua alegria e os seus cantares colocou o público presente a dançar e a cantar. Na quinta-feira tivemos a agradável presença de três Grupos. A animação começou com o Grupo do Equador que aqueceu a noite com a sua música alegre e tradicional. Algumas das músicas, conhecidas do público português, foram aproveitadas pelo grupo para colocarem os “Leceiros” a cantar e a dançar com eles. Seguiu-se o Grupo da Eslováquia, que naturalmente com sonoridades diferentes soube de igual modo atrair a atenção de todos. De salientar o virtuosismo dos seus executantes, nomeadamente do intérprete do Cimbal e dos Violinistas. Fechou a noite o Grupo da Espanha que, tal como no dia anterior, no recital da Igreja, cativou todos os presentes, convidando-os entusiasticamente a dançar com eles. A noite prolongou-se mais do que o esperado, por força dos três Grupos presentes, mas também porque o Grupo da Espanha foi capaz de prender o público com a sua música. No último dia, a presença do grupo do México fechou com chave de ouro a Feira de Artesanato. Notou-se que o espectáculo foi previamente preparado com coreografias únicas e onde foi possível observar a vasta cultura mexicana. Terminaram a actuação com os tradicionais Mariachis ao som de “Cielito Lindo” cantada por todos os presentes. Simplesmente espectacular!

NOTA FINAL

Poderia dizer...Terminou o FESTARTE 2007, venha o FESTARTE 2008. Mas tenho de terminar a minha reportagem dizendo: “Terminou o FESTARTE 2007, venha outro igual que este deixou muitas saudades!”
Foi uma organização sem mácula. Talvez por também já é o décimo FESTARTE, mas de facto foi o melhor de sempre: sem atrasos significativos nos horários previstos, sem confusões de última hora. Sobretudo deixa saudades pela simpatia dos participantes. Há muito que não se via tanta entrega, tanto rigor e sobretudo tanta vontade de estar presente. Ao contrário de anos anteriores, a Feira de Artesanato abriu sempre a horas e com todos os artesãos presentes, especialmente os estrangeiros. Deixa saudades, sim, ao ponto do artesão da Argentina chorar na despedida abraçado aos elementos da Organização da Feira, e com a voz embargada dizer que vai com amigos no coração. Esta amizade cultivada ao longo de uma semana de trabalho é muito reconfortante para todos os que se esforçaram, se entregaram e viveram de alma e coração o FESTARTE. Dizemos sempre que é o último que fazemos, mas não é possível deixarmos de estar cá para o ano. Por último, uma palavra para todos os artesãos nacionais presentes, pela compreensão demonstrada e pela disponibilidade.
















Aqui merece referência especial a “Tasquinha LÁ DE CIMA” (que é como quem diz “lá de cima” do Monte Espinho…), porque foi, de facto, a grande novidade este ano. Souberam aos poucos cativar clientela, numa “tasquinha” que cresceu com o passar da semana e que no último dia já ocupava quase metade do espaço da Feira. Contamos com eles para o ano, com a mesma alegria e a mesma disponibilidade e sem querer ser “bairrista”, porque até nem o sou, só posso dizer...tinha de ser o Monte Espinho. Bem hajam e que o objectivo a que se propuseram ao participarem na Feira de Artesanato tenha sido alcançado.

O MEU LAMENTO

Como já foi referido, a organização do FESTARTE esteve irrepreensível. Por esse facto o meu lamento vai em outra direcção. Tem a ver, naturalmente, com a Feira de Artesanato e a dificuldade por todos nós sentida na sua realização. Não basta dizer que temos uma Feira de Artesanato, é necessário criarmos as melhores condições para os artesãos. Ano após ano, lamentamos que o apoio (ou melhor a falta dele), que nos é dado seja mínimo por parte dos Órgãos de poder local, nomeadamente da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal. Para quando um apoio efectivo, principalmente naquilo que diz respeito às “barracas” dos artesãos?
Não chega trazer meia dúzia de placas de aglomerado e com outra meia dúzia de pregos dizer-se que temos Feira de Artesanato. A cobertura das mesmas e a iluminação são a nosso cargo. Mas pior do que isso tudo é o de termos que “desmontar” e “montar” a Feira todos os dias. E porquê? Porque as “barracas” não são fechadas. Porque se continua a achar que esta Feira de Artesanato, a nossa Feira de Artesanato, não merece ter umas “barracas” fechadas, seguras e com um mínimo de conforto para os artesãos. Este ano já houve algumas desistências, precisamente porque em nenhuma outra Feira de Artesanato se faz isto. É incompreensível como após um dia de trabalho, ainda se tem que tirar tudo das “barracas”, empacotar e guardar numa sala fechada. Para quando umas “barracas” novas, fechadas e seguras? Será pedir muito? Aqui fica o recado para quem de direito. Espero que desta vez não caiam em “saco roto”. O meu segundo lamento vai, infelizmente, para a pobreza das Festas de Sant’ana. Se é que se pode chamar Festas a meia dúzia de Feirantes que lá vão trazendo alguma cor e alegria às Festas. Ainda pior é mesmo o programa das Festas. Sem querer tirar o mérito aos músicos que passaram pelo palco montado no Parque Eng. Fernando Pinto Oliveira, porque nem sequer questiono a qualidade dos mesmos, assisto decepcionado à expressão triste e desolada de quem na noite de Sábado saiu de suas casas para assistir a um pouco de música de baile e acaba por assistir a uma banda que independentemente da sua qualidade, que friso mais uma vez não está em causa, não se adequa minimamente ao público Leceiro. Está na altura dos responsáveis pela Autarquia Leceira pensarem a sério no programa das Festas, com bandas que animem de facto a população. E há tantas bandas em Leça capaz de o fazer. Afinal não são só as Festas de Sant’ana, são as Festas de Leça da Palmeira.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 6 - Setembro de 2007






quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

Leigos para o Desenvolvimento

Quando no passado mês de Março, assisti num dos canais nacionais, a uma reportagem sobre os Leigos para o Desenvolvimento, estaria longe de imaginar as dificuldades e sobretudo o drama que se vive no chamado “Continente Negro”. África é por excelência o continente onde missionários e leigos tentam, num esforço sub-humano, fazer mais do que o próprio governo do país. A reportagem exibida demonstrou o trabalho missionário em Moçambique, na missão de Fonte Boa, onde no dia 6 de Novembro de 2006, após um assalto à referida missão, foram brutalmente assassinados, uma voluntária e um Padre Jesuíta. Tal como a reportagem mencionou, foi uma morte violenta, absurda e arbitrária, originando a suspensão da ajuda que os Leigos para Desenvolvimento aí prestavam. Posto isto, uma interrogação se nos coloca. O que leva alguém a assaltar uma missão, que procura a cada momento, ajudar aqueles que mais precisam? Mesmo sendo uma luta armada pelo poder, nada, absolutamente nada, justifica um tal acto de violência, sobretudo se pensarmos que a missão de Fonte Boa dedica-se ao auxilio de crianças.
Dia 6 de Novembro de 2006, pelas 1.30 da madrugada (hora local) foi assaltada por um grupo armado a Missão de Fonte Boa, em Moçambique. Durante o assalto foram mortos a Idalina, voluntária dos Leigos para o Desenvolvimento e o P. Waldyr dos Santos, jesuíta brasileiro. Ficaram também feridos um jesuíta moçambicano, Ir. José Andrade, de 76 anos e o Fernando Carvalho (ex-Leigo). A Idalina, com 30 anos, encontrava-se desde Outubro de 2005 em Fonte Boa, dando apoio à missão, em projectos da área agrícola, pecuária e construção de lar para órfãos de Sida.
In
www.ecclesia.pt/leigos

Mas afinal quem são os Leigos para o Desenvolvimento? Quantos são e o que fazem? A resposta a esta e outra perguntas que procurarei dar ao longo das minhas parcas palavras.
Quem são?

Os Leigos para o Desenvolvimento são uma Organização não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) de cariz católico que, através dos seus voluntários, actua nos chamados países em vias de desenvolvimento, em especial nos de expressão oficial portuguesa. Os voluntários são cristãos leigos que, por um ou mais anos, põem as suas capacidades pessoais e profissiona